Categoria: Profissão: Cirurgião-Dentista

  • Dentista: eu não acredito em você!

    Dentista: eu não acredito em você!

    “Doutor, eu fui em outro dentista e ele me disse que eu tenho que fazer o tratamento de canal deste dente e colocar uma coroa, que não dá mais pra restaurar. Tá certo isso?”

    Certamente uma situação parecida já aconteceu com você, colega. “Tá certo isso?” é uma frase que eu ouço bastante no consultório… o paciente quer uma “segunda opinião”. Problema nenhum, é um direito dele. O que estraga é o motivo recorrente: ele acha que o outro dentista está inventando procedimentos para ganhar mais dinheiro. Pode até ser, né?! Mas, via de regra, não é não.

    Esse tipo de comportamento me faz pensar sobre a imagem que os pacientes fazem da gente. Será que o outro dentista não transmitiu segurança? Será falta de credibilidade no profissional de Odontologia? Ou será uma crise de confiança no próximo, de forma geral? Ao que me parece, na maioria das vezes, o que ocorre é a terceira situação. As pessoas aprenderam a ser desconfiadas. E aprenderam da pior forma: sendo enganadas… e enganando. 🙁

    O pódium

    Em 2007, numa pesquisa da Rider’s Digest (Revista Seleções) feita entre 1000 leitores da publicação, o cirurgião-dentista foi o profissional liberal que obteve o maior índice de confiabilidade, isso de acordo com com 81% dos entrevistados. No índice geral os dentistas só ficaram atrás dos bombeiros, que chegaram ao respeitável número de 96%. Isso faz 4 anos, mas demonstra que o problema da desconfiança não parece ser específico da relação paciente / dentista. Digo mais: creio que a relação que mais carece de confiança é a dentista / dentista.

    Quem aí já ouviu que “a classe odontológica é desunida” levanta a mão o/o/o/! Quer saber? Eu não acho. A minha rede de relacionamentos profissionais só me beneficia, aliás, NOS beneficia. E tem que ser assim, sozinho ninguém cresce. Quem pensa que vai longe sem uma equipe, quebra a cara rapidinho. O colega da porta ao lado “cobre o seu preço”? Deixe ele lá contando as moedinhas dele… 😉 ou você vai fazer igual?

    Anyway…

    E quando o paciente coloca você naquela saia-justa com uma pergunta perigosa do tipo: “Como assim eu só tenho 1 cárie? O outro dentista disse que eu tinha 8!” O que você responde?

    1. Mas você não tem! Ele inventou as outras 7. OU
    2. Puxa, que coisa! Na minha opinião você só tem 1. Talvez ele tenha considerado alguns sulcos mais profundos, escurecidos, como cáries. Vamos fazer o seguinte? Restauramos o seu dente cariado e ficamos de olho nos outros 7.

    Notaram a diferença? A mensagem é a mesma e você não incorre no erro de julgar quem você não conhece baseado no relato de… quem você não conhece! PENSE o que você quiser, é um direito seu, mas não caia na armadilha de EMITIR OPINIÃO como se você fosse um perito. O CEO condena esse tipo de atitude, além de pegar mal pra caramba. E nem preciso dizer (mas vou): não use esse tipo de situação como oportunidade para angariar pacientes, parecendo melhor ao diminuir um colega.

    Enfim, se o paciente não acredita em você ou no colega que o atendeu primeiro, talvez o problema seja o paciente. Talvez o problema seja o colega. Talvez o problema seja você. Por via das dúvidas, faça a sua parte. Não fale do que o outro deveria ter feito, e sim do que você faria… parece a mesma coisa, mas não é. E se o paciente estiver no meio do tratamento com um colega e aparecer na sua porta reclamando, sugira que ele volte e esclareça as coisas com o dentista que o atendeu primeiro. Agindo assim, ganha a Odontologia e quem mais consideramos: nossos pacientes.


  • Como Escolher um Dentista

    Como Escolher um Dentista

    Todo mundo já passou por esse dilema: precisar de um dentista e não conhecer nenhum. E nem sempre dá pra voltar naquele que atendeu você pela última vez… ou porque você mudou de cidade, ou ele mudou de consultório e sumiu, ou faz tanto tempo que você não vai num dentista que esqueceu o caminho! 😀

    Pra começar, não espere precisar de dentista pra procurar um. Esse é um dos lemas deste blog: quem previne não remedia. Ir ao dentista de forma preventiva, para uma avaliação de rotina, evita a dor, acaba com o medo e É MAIS BARATO. O terceiro argumento costuma ser o mais convincente dos 3, por isso as letras garrafais. 😀

    Procurando dentista? Arranque um dente e leve o endereço (o contrário também vale)!

    E já que o assunto veio à pauta, vamos falar de dinheiro. Dinheiro não dá em árvore. E tratamento odontológico, no Brasil, não é algo considerado barato (se você quiser saber por que é tão caro, se é que é, conheça o Dentista Mercenário). Por isso, preço pode ser um critério de escolha sim… afinal, quem paga a conta é você! Sejamos realistas, não é mesmo? Mas NUNCA deve ser o critério principal, e muito menos o único.

    Ah… então quer dizer que se o dentista cobra barato ele atende mal? Claro que não. Ninguém pode afirmar uma coisa dessas. Assim como é uma injustiça sem tamanho dizer que o dentista do postinho é pior que o dentista que atende de forma particular. Aliás, isso é mania de brasileiro: desdenhar do que é barato e/ou de graça (que de graça não tem nada… você trabalha quase metade do tempo apenas pra pagar impostos… e saúde é um direito seu e dever do Estado. Tá na Constituição).

    Um dos posts mais polêmicos, acessados e comentados deste blog se refere ao uso de cupons de desconto associados a procedimentos odontológicos (Groupon, Peixe Urbano e afins), prática condenada pelo Código de Ética Odontológica. Já argumentei bastante a respeito disso no post em questão, mas quase toda semana pinga algum comentário lá falando em “inveja de outros profissionais que estão ganhando mais dinheiro que você”, “incompetência pra fazer igual” e blá blá blá, não lembro ou dormi no meio. E o pior: ofensas pessoais. Isso é coisa de quem não sabe interpretar texto (se é que leu) e tem tempo sobrando… “mente vazia, oficina do Diabo”, já dizia minha avó. Quer comprar um cupom desses? Compre, ué. Boa sorte e seja feliz.

    Voltando ao que interessa: posso escolher um dentista barato? Pode. Mas você não acha que existem algumas características mais importantes que devem ser levadas em conta na hora de escolher um profissional de saúde?

    Uma boa forma de escolher um dentista é pela reputação dele. Peça pra um amigo indicar um pra você, costuma funcionar. Claro, o que é bom pra uma pessoa talvez não seja para outra, tem muito de percepção pessoal nisso. E não estou falando de competência (este sim o critério de ouro), estou falando de empatia. Se você não for com a cara do dentista, não adianta ele ser o melhor profissional do mundo: você vai embora e não volta mais.

    Confiar no seu dentista é, também, fundamental. Coisa que eu mais vejo no consultório e aqui no blog é paciente perguntando se o trabalho que o colega do lado fez está certo ou errado, e o pior: colega caindo nessa de “opinar” baseado na opinião do paciente (mas isso é assunto para um outro post). Se não confia, melhor optar por outro profissional. As pessoas gostam, também, de serem atendidas em um consultório que fique perto de casa, por uma questão de convêniência. É um ponto a se considerar.

    Em resumo, veja o ranking do blog Medo de Dentista de critérios para escolher um profissional de saúde [bucal]:

    1. Registro no CFO (Conselho Federal de Odontologia) —> Consulte Aqui (Obs.: existe um período de 2 anos após a formatura em que o cirurgião-dentista pode trabalhar com uma inscrição provisória, apenas no CRO (Conselho Regional de Odontologia). Na dúvida, consulte o CRO do seu estado.
    2. Competência (o cara sabe o que faz)
    3. Empatia (você foi com a cara dele)
    4. Confiança (você acredita no trabalho dele)
    5. Conveniência (fica perto da sua casa)
    6. Preço (você pode pagar)

    Se você conseguir reunir a maioria das qualidades acima em um único dentista (e algumas não são opcionais), parabéns! Eis sua escolha. Se não, continue procurando… a tampa da sua “panela odontológica” existe! E lembre-se: não espere o dente doer, não. Quem não está desesperado tem mais tempo pra escolher e mais opções disponíveis… não é verdade, moças casadoiras? 😀


  • Oferecer a Outra Face

    Oferecer a Outra Face

    Ontem, pela primeira vez, depois de mais de 620 perguntas respondidas por mim no Pergunte ao Dentista, uma leitora se ofendeu com a minha resposta. Não vou nem colocar o link da pergunta aqui porque é assunto resolvido. Mas o episódio me fez refletir e gostaria de compartilhar minha reflexão com vocês.

    Resumindo o acontecido: ela queria saber quanto custava “uma limpeza” e se queixava porque as secretárias dos dentistas não informavam o que ela precisava saber. E também não queria pagar por uma consulta “só para obter essa informação”. Expliquei que não é bem assim, que é preciso fazer uma avaliação (assunto que já foi discutido aqui e em outros blogs. Leia, vale a pena), que “limpeza” é um termo muito vago… e sugeri a ela que na próxima vez que fosse ao dentista pedisse a ele orientação com relação à sua higiene bucal. Ela entendeu, pelo que parece, que eu a chamei de “pobre”, por não querer pagar pela consulta, e de “porca”, por não escovar os dentes direito. E desceu o verbo em mim.

    Respeito é saber se colocar no lugar do outro

    Quando esse tipo de coisa acontece, acho importante parar pra pensar: será que eu fui grosseira mesmo? Minha conclusão: não fui. Respondi, então, a ela, educadamente, explicando o que eu realmente tinha dito e pedindo desculpas se a forma como eu havia me expressado a levou a entender outra coisa. Pedi, ainda, que ela não se colocasse em posição defensiva nem me imaginasse aos berros… assim ela perceberia que tudo não passara de um mal entendido.

    Em menos de 15 minutos ela entrou em contato novamente, pediu desculpas pelo desabafo e disse que considerou meus argumentos. Contou que já havia feito a tal “limpeza” (que na verdade era para a filha, não pra ela) e que o que ela queria mesmo era ter uma ideia de valor, se tinha pago caro. Assunto resolvido.

    Discutir de forma escrita é perigoso, porque falta o principal: o tom. A gente nunca sabe se quem está do outro lado do teclado está gritando ou estampa um sorriso nos lábios. Eu podia ter agido como ela, em princípio, e partido para a agressão pessoal. Mas eu fiz o contrário do que ela esperava: mesmo estando certa, pedi desculpa e procurei me fazer entender. Derreti a bazuca dela com a minha visão de calor. 😀

    Mais uma historinha (curta, prometo) que traz esse mesmo tipo de atitude para dentro do consultório.

    Moldei um paciente para a confecção de uma PPR inferior. Uma moldagem complicada, ele tinha uma língua enorme (embora falasse muito pouco) :). Mandei para o laboratório de prótese e o protético ficou desconfiado… pediu se não dava para melhorar. Liguei para o paciente e pedi que ele retornasse (o que ele já não gostou) e fiz nova moldagem, usando mil técnicas para garantir uma impressão fiel. Uma hora antes da consulta em que o paciente iria provar a estrutura metálica da dita-cuja, o técnico do laboratório me liga contando que eles haviam quebrado o modelo em gesso. Ou seja: nova moldagem.

    Quando o paciente chegou, pedi que ele entrasse e se sentasse. Expliquei o ocorrido. O homem, que havia pago a prótese à vista, ficou possesso. Esperei pelo seu discurso, que terminava, é claro, com “eu quero meu dinheiro de volta”. Olhei pra ele e disse: “O senhor tem toda razão. Se fosse comigo, eu faria o mesmo. Vamos até a recepção para que o seu dinheiro seja devolvido”. Aí eu calei Fidel Castro :D. Eu podia ter argumentado que “a culpa foi do protético” (e foi), mas isso não vem ao caso, é entre mim e o protético. E, no fim das contas, só deixaria o cidadão mais irritado. Quando eu recuei e concordei com ele, ele teve que largar as pedras no chão. Mudou de ideia, fizemos a nova moldagem e, algumas sessões depois, entreguei a PPR “encantada” para seu satisfeito proprietário.

    O que eu quero dizer com tudo isso? Que as pessoas que chamam você pra briga nunca esperam ser retribuídas com respeito e educação. Quando isso acontece, elas não sabem o que fazer e se desarmam. Sabe o cachorro que corre atrás da roda do carro? Pare o carro… o bichinho não sabe o que fazer e sai envergonhado. É isso: seja humilde, procure ser cordial, ponha-se no lugar do próximo… isso dentro e fora do consultório. Não é uma questão de quem está certo… mas de evitar o confronto. Não é fácil e nem sempre a gente consegue… mas quando funciona, você conquista o respeito do seu “oponente” pelo resto da vida. E respeito é bom e eu gosto! 🙂


  • Eu Odeio Dentista!

    Eu Odeio Dentista!

    Certeza que já aconteceu com você, colega: o paciente chega, senta na sua cadeira e desabafa: eu odeio dentista! Eu não me assusto mais com isso, mas acho que vale uma reflexão a respeito. Por que é que as pessoas odeiam tanto seus dentistas?

    Aí é que está: elas não odeiam SEUS dentistas. Aliás, as pessoas que têm um dentista pra “chamar de seu”, via de regra, não odeiam nenhum dentista. Isso porque, felizmente, acharam sua “alma-gêmea odontológica”, o profissional no qual confiam. E, embora tenha gente que ainda acredita que dentista serve pra tapar buracos, muitos já se deram conta do nosso real propósito: promover saúde.

    Comunidades do Orkut que "odeiam" dentistas

    O dentista que se odeia por aí é o dentista-estereótipo, e esse, até eu odeio. Estereótipo é, por definição, um “comportamento desprovido de originalidade e de adequação à situação presente, caracterizado pela repetição automática de um modelo anterior, anônimo ou impessoal”. Dá pra falar horas sobre isso mas, em resumo, é o seguinte: não gostar de dentistas é um comportamento aprendido, um sentimento baseado em um personagem malvado que não existe: o ser malévolo que faz extrações sem anestesia e cutuca um dente só pra ele doer. Aliás, quem aí nunca foi ameaçado na infância com aquela injeção ENORME que o dentista daria em caso de mau comportamento?

    Acho interessante quando a pessoa larga um eu odeio dentista bem na nossa cara e depois se dá conta da indelicadeza. Aí vem um “nada pessoal, doutora!”. Mas convenhamos: é difícil não levar pelo menos um pouquinho pro lado pessoal. Eu, por exemplo, odeio suco de caju. Imagine: eu chego na sua casa e você me oferece um copo de suco de caju. Aí eu olho pra você e falo: “Eu não quero isso, eu odeio suco de caju! Mas não é nada pessoal com você, porque eu odeio TODOS os sucos de caju do mundo!”. A explicação ajudou você a se sentir menos ofendido? Pois é.

    E vamos falar a verdade: ninguém odeia (mesmo) dentista. O que as pessoas sentem não é ódio, é medo. É aflição por causa do barulho do motorzinho… é vergonha de admitir que a atenção que a higiene bucal merece não está sendo dada. É, também, falta de informação e ansiedade relacionadas ao tratamento odontológico: nunca se sabe o que há do outro lado da porta da sala de espera…

    No Orkut existe uma série de comunidades relacionadas ao desprazer de visitar o dentista. Na soma, são mais de 30 mil pessoas declarando seu “ódio”. É gente pra caramba, mas odiando pelos mesmos 2 ou 3 motivos de sempre. Pra elas, eu ofereço mais de  100 motivos pra não odiar os dentistas… será que eu convenço? 🙂


  • Respeito é bom e eu gosto!

    Respeito é bom e eu gosto!

    Nossos consultórios são nossas empresas. É lá que nós, dentistas, fazemos o que gostamos (e algumas coisas que não gostamos) e ganhamos nosso dinheiro. Mal nenhum há nisso, pelo contrário, trabalhar e tirar daí nosso sustento é bom, digno e honesto. Temos sim um relacionamento comercial com nossos pacientes que, é claro, não se restringe a isso… nem é o mais importante.

    Considerando essa relação comercial (e que dinheiro não dá um árvore), é compreensível que o paciente queira negociar o valor do tratamento ou a forma de pagamento. Só que tem gente que parece que está comprando banana na feira. Semana passada  uma moça ligou querendo agendar a remoção de um siso. Geralmente quem faz os terceiros molares no meu consultório é um colega meu. Disse a ela que iria verificar a disponibilidade do meu colega para o dia que ela me pediu.

    Olha a oferta, freguesia!

    Até aí tudo bem. Eis que ela continuou: “… sabe o que é, doutora… minha mãe vem na semana que vem pra cá, e faz mais de um ano que eu não a vejo. Será que dava pra arrumar um atestado pra eu passar a semana com ela?”. Respondi, é claro, que não. Atestado não é brincadeira, não é um vale-feriado. Ela não gostou, mas não disse mais nada. Fiquei de ligar para confirmar. Depois que falei com o meu amigo e ele disse que podia atendê-la, entrei em contato novamente.

    Dessa vez, quem atendeu foi o marido dela, que é meu paciente. Pedi que a avisasse que a cirurgia estava marcada. Ele, me interrompendo, começou o discurso: “… pois é, doutora! A [nome da paciente] falou que a mãe dela está vindo nos visitar, né?! Eu disse pra ela: pode abrir o jogo com a doutora! Diz pra ela que o atestado é pra ficar com a sua mãe, ela vai entender”. Eu disse que entendia sim. Mas que não seria possível, porque se tratava de uma cirurgia simples… não havia justificativa aceitável para um atestado tão longo assim.

    Perguntei: “Afinal… posso deixar agendada a cirurgia?”. E aí veio a pérola, aquilo que eu nunca achei que ia escutar: “Bom… se a doutora der o atestado pra uns 5 dias, ela vai querer fazer a cirurgia sim”.

    (…)

    Entenderam? Se eu fornecesse um atestado absurdo, onde constariam meu nome, meu CRO e, nas entrelinhas, minha [falta de] ética, eu e meu colega teríamos o “prazer” de atender a esposa do cara. Senão, nada feito.

    O Código de Ética Odontológica, em seu capítulo V, seção I, art. 7o, diz:

    “Constitui infração ética: XI – fornecer atestado que não
    corresponda à veracidade dos fatos ou dos quais não tenha participado”.

    Quando se contrata um serviço em Odontologia, pode-se negociar uma série de condições… mas tem uma coisa que, pelo menos pra mim, é inegociável: minha retidão. Se tem gente por aí que “prolonga” atestados (e até os vende!), sinto muito. Mesmo. Felizmente não é o meu caso.

    O que mais me revoltou nessa história toda não foi nem o paciente ter perguntado se era possível fornecer o atestado, porque isso só traz à tona o [mau] caráter dele. O inaceitável é ele ter associado a possibilidade de atendimento, de “fechar um orçamento”, com uma possível atitude desonesta de minha parte. Ei, sou “farinha de outro saco”!

    Pra ele, pra ela, pra qualquer outro paciente que se comportar como se estivesse na feira: reservo-me ao direito de não atendê-lo. Não estou desesperada, nem passando fome e, mesmo que estivesse, isso não mudaria minha essência. Durmo como um anjo todas as noites, e isso se chama “consciência limpa”.

    A porta da rua é serventia da casa.


  • A Língua Que o Paciente Fala

    A Língua Que o Paciente Fala

    Fazer-se entender é fundamental, isso em qualquer profissão. Mas quando tratamos de saúde, é mais que fundamental: é vital. Quando damos uma orientação, mesmo nos parecendo simples, nem sempre o paciente entende. E o pior: quando ele não entende, quase nunca pergunta.

    Tenho duas historinhas pra contar, uma é verídica e outra é ficção (que eu saiba). A verídica eu ouvi de uma professora na época de faculdade. Uma paciente dela, de origem humilde, contou certa vez que o médico havia lhe prescrito um creme vaginal… só que ele não explicou (ou ela não entendeu) a forma como o medicamento deveria ser usado. Depois de 1 semana, a senhora voltou ao consultório relatando vômito e fortes dores abdominais. Para a surpresa do médico, a paciente estava passando o creme NO PÃO e COMENDO. 😮

    A segunda história é da série ER (Plantão Médico, no Brasil). Uma família de imigrantes (mexicanos, se bem me lembro) apareceu na emergência do County General Hospital. O pai carregava a filha nos braços, desesperado, depois de mais um episódio de convulsão da menina. Na anamnese, o médico (não me lembro qual deles) perguntou pelos medicamentos que ela tomava. O pai tirou um frasquinho do bolso e mostrou para o doutor, que perguntou se ela estava tomando a medicação como prescrita. O pai respondeu que sim, ONZE comprimidos por dia. Desconfiado da dosagem, o médico leu no rótulo: “ONCE A DAY”. Os poliglotas de plantão já entenderam o problema, não?! Once em inglês quer dizer “uma vez”, mas em espanhol é o número onze…

    Sim, são casos extremos e, felizmente, não são a regra. Mas acontecem.

    Fazer-se entender é fundamental.

    No printscreen aí de cima vocês veem um bate-papo meu com a Suely Pavan (que gentilmente permitiu a reprodução da tela. Obrigada, Suely!). Como no Medo de Dentista eu falo principalmente me dirigindo aos pacientes, costumo usar termos familiares a eles. E paciente não fala “prótese total”, fala dentadura. Ela achou interessante o uso do termo, proibido em certa comunidade do Orkut. Certamente essa comunidade não deve ser dirigida a pacientes, mas a dentistas, o que explica o desdém pela expressão. Enfim, regras são regras, nada contra.

    Mas ao falarmos com nossos pacientes é imprescindível sermos entendidos. Acho engraçado como alguns dentistas tendem a se sentir diminuídos usando expressões mais populares para os termos odontológicos… confesso que nunca dei muita bola pra isso. Claro, é preciso ter postura profissional. Se o paciente fala alguma barbaridade do tipo “preciso que o dotôr ponha massa no buraco”, você não precisa concordar com ele. Nesses casos, costumo primeiramente dar  o número de telefone de um pedreiro ótimo que eu conheço :). Depois, explico que não é bem assim, que é preciso remover a cárie, proteger a polpa e aí sim, usando uma resina, devolver a forma e função do elemento dentário. Bom, na verdade não é bem isso que eu digo… sai assim: “Depois que eu tirar a cárie vou proteger o nervo e fazer a restauração com aquela massinha da cor do dente, vai ficar bonito e o senhor vai poder morder de novo”. Algum problema?

    Dentaduras, roachs, pivôs, pererecas, obturações, massinhas, pinos… WHATEVER.

    Acho que o mais importante nessa história toda não é COMO se fala, mas não se esquecer COM QUEM se fala. Tentar sempre ser claro e procurar verificar se o recado foi dado, com atenção especial para as prescrições medicamentosas. Porque é fato: paciente só ouve o que quer. Você pode explicar cada detalhezinho sobre a co-responsabilidade dele no sucesso da osteointegração daquele implante, que a higiene é essencial (sob pena de perder o implante), e orientá-lo sobre como fazer isso para garantir que o sorriso dele fique lindo. Ele só ouve a parte: “seu sorriso vai ficar lindo”.


  • É que eu trabalho…

    É que eu trabalho…

    Eu nem ia postar hoje, preguiça mesmo. Mas aí recebi mais uma daquelas ligações no consultório: “Eu gostaria de marcar uma consulta… mas tem que ser depois das 18:30h, porque eu trabalho”.

    A maioria dos dentistas é profissional liberal, portanto constrói sua agenda do jeito que bem entende. Esse é um dos benefícios de se atuar numa profissão como a nossa, não existe muito essa coisa de horário. A desvantagem, por parível que incresça, é exatamente a mesma: horário comercial é um conceito meio bagunçado pra gente.

    É compreensível que o paciente, quando liga pra marcar um horário, pense naquele que mais lhe convenha. Afinal de contas, tempo é dinheiro, ociosidade é prejuízo. Mas ando meio de saco cheio com isso, sabe?! Todo santo dia alguém me vem com aquela frase… e a parte que mais me irrita é: “… porque eu trabalho”.

    Eu também trabalho!

    Caro paciente, todo mundo trabalha. Desde que Adão e Eva pecaram, lá no Jardim do Éden, Deus instituiu que pra sobreviver só suando a camisa. Sério mesmo… em Gênesis 3:19 está escrito: “Com o suor do seu rosto você comerá o seu pão, até que volte à terra, visto que dela foi tirado; porque você é pó, e ao pó voltará”. Isso foi logo depois do primeiro pecado consumado, ou seja, faz um tempinho já :). Por isso mesmo, considerando que “trabalho” é uma atividade universal, fica difícil atender todo mundo fora do horário que todo mundo trabalha!

    Se definimos “horário comercial” como aquele em que se trabalha, então qualquer horário fora desse intervalo de tempo é folga total e irrestrita, certo?! Errado. Dentistas têm família, como todo mundo. Depois de uma tarde arrancando dentes, eu, por exemplo, tenho que sair do consultório em tempo hábil para ir buscar meu filho na escola (e eu só tenho 1 por enquanto, hein?!). Chegando em casa, as tarefas do dia só findam depois do jantar, do banho, da mamadeira e, finalmente, do sono do moleque. Mas para certos pacientes esse horário é bom, porque eles já saíram do trabalho. E aí?

    A pessoa que me ligou há pouco e que motivou este post certamente não considerou isso (e eu nem esperaria que considerasse, EMA EMA EMA). Aliás, levando em conta que o dentista é um só e os pacientes são muitos, quem é que deve se adaptar a quem? Certamente é muito mais fácil o paciente encontrar um tempinho pra cuidar da própria saúde durante o horário comercial do que o dentista promover malabarismos de agenda para enfiar todos os pacientes do dia em um horário em que ninguém trabalhe. Só ele :). Declarações e atestados servem justamente pra isso.

    Enfim, foi só um desabafo. Sei que atendo menos pacientes do que poderia por não ter horário flexível, mas estou numa fase da vida em que isso não é o mais importante. Não vejo problema no paciente perguntar se é possível atendê-lo num horário alternativo, mas não acho que tenhamos que nos desdobrar para fazê-lo. Se tem uma coisa que aprendi com a pouca (mas consistente) experiência que adquiri nessa vida de dentista, é que não vale a pena se esforçar muito pra satisfazer as vontades dos pacientes com relação a horários. Porque eles vivem “esquecendo” da consulta (mesmo que você ligue no mesmo dia pra confirmar) e às vezes não vêm porque não estão a fim mesmo. Mesmo “morrendo de dor“…


  • Eu Nunca Quis Ser Médica

    Eu Nunca Quis Ser Médica

    Pois é. Surpreendente, não?! Não.

    Eu não sei exatamente onde foi que começou essa história, mas de vez em quando ouço algum cretino desavisado associar o fato de alguém ser dentista a não ter passado no vestibular de Medicina. A ocasião mais recente em que vi alguém emitir uma opinião nesse sentido foi num comentário bastante agressivo que uma suposta médica deixou no Netdentista.com. Sendo médica ou não, a opinião dessa pessoa não tem relevância alguma… quem agride perde a razão.

    Diga "33"

    Se não puder falar pelos outros, deixe-me dar um testemunho pessoal: eu nunca quis ser médica. Nunca mesmo. Tenho a maior admiração pelos profissionais de Medicina, mas não acho que essa seja a minha vocação. Então me inscrevi para o curso de Odontologia. No ano em que prestei vestibular, a concorrência para Odonto devia ser menos da metade se comparada à relação candidato-vaga de Medicina. Bom pra mim que não queria ser médica, né?! Entrei. 🙂

    Mas dentistas, ainda que não sejam médicos, precisam saber o mesmo que um médico generalista sabe. As matérias básicas dos dois cursos são muito parecidas: bioquímica, anatomia, fisiologia, farmacologia. Tudo isso porque a boca não chega sozinha nos nossos consultórios, ela vem com um corpo acoplado :). Mesmo que a atuação do dentista se restrinja à cabeça e ao pescoço, tratamos pessoas inteiras! Prescrevemos medicamentos de ação sistêmica, precisamos saber como nos comportar diante de diabetes, hipertensão arterial e outras doenças. Não as tratamos de forma direta, mas é essencial conhecer que efeitos elas produzem no organismo. Sem o devido controle dessas condições, o paciente corre riscos durante um procedimento odontológico. Se não é da nossa alçada tratarmos essas enfermidades, é essencial que saibamos identificá-las para encaminhar o paciente ao profissional competente: o médico.

    Da mesma forma, médico não sabe tratar dor de dente. E não tem obrigação nenhuma de saber. Ele pode prescrever análgésicos e antibióticos, claro, mas fazer uma restauração, realizar a abertura de um dente, determinar uma medicação intracanal… não. Aí é ele que encaminha o paciente para o profissional competente: o cirurgião-dentista.

    E o termo “doutor”, então… como tem gente que bate no peito porque tem um DR no nome! E não me venham com aquela história de que “só pode ser chamado de doutor quem tem doutorado”. Bobagem. Só pode ser chamada de mãe aquela que deu à luz? Acho que quando um paciente se refere a nós nesses termos, dentistas ou médicos, é além de um hábito uma questão de respeito. Não faço questão de ser chamada dessa forma, mas os pacientes costumam se referir a mim como doutora. Não vejo mal e nem necessidade de corrigir ninguém. Meu médico, o Dr. Rogério, sempre me chama de doutora quando vou ao consultório dele, e eu nunca sugeri que ele fizesse isso. Vejo isso como uma reverência, sinal de respeito a mim como profissional. Mas o fato é: isso não me faz ser mais importante, inteligente ou feliz que ninguém. É só uma forma de tratamento. Simples assim.

    Existem SIM dentistas frustrados porque queriam ser médicos e não passaram no vestibular. Mas não é a regra. E existem SIM, o que eu acho muito pior, pessoas que nunca tiveram vocação pra Medicina e que se matam de estudar para entrar num curso concorridíssimo simplesmente porque dá status, ganha-se dinheiro e o direito de virar “doutor”. Ou o mais triste: porque o pai e a mãe obrigaram.

    Tem uma música chamada Xote Universitário que é bastante conhecida na interpretação do Falamansa. Acho que ela ilustra bem o que eu estou dizendo. Clique no player abaixo para ouvir (veja a letra aqui):

    Aos colegas dentistas que gostariam de ser médicos, o recado é: ainda dá tempo, mas tem que ralar! Vão ser felizes! A pior coisa do mundo é se ver preso a uma rotina que não dá prazer, que escraviza, que poda a criatividade e o entusiasmo.

    Aos críticos que acham que todo dentista queria ser médico e não conseguiu: procurem algo pra fazer. Vão capinar um lote, lavar um tanque de roupa, ler pra velhinhos em algum asilo… essas são coisas úteis e que preenchem o tempo e a mente. Porque em mente vazia sobra bastante espaço pra ideias como essa.

    Aos médicos e dentistas realizados profissionalmente e com real vocação para as profissões que escolheram: o meu desejo de muito sucesso. Que as parcerias que firmamos nas equipes multidisciplinares, junto aos demais profissionais da área médica, continuem promovendo saúde e melhorando a qualidade de vida dos nossos pacientes.


  • Eu tenho medo de dentista… recém-formado!

    Eu tenho medo de dentista… recém-formado!

    Quando li a entrevista do Dr. Victor no Sofá do Dentista me senti obrigada a duas coisas: primeiramente, morrer de rir :). Aí, quando consegui me recompor, tive que escrever sobre o tema. Sr. Paciente, você tem medo de ser atendido por um dentista recém-formado? E não precisa SER recém-formado, basta TER CARA. No caso do Victor, uma coisa reforçava a outra.

    É esse “doutorzinho” aí que vai me atender???

    Não preciso nem dizer isso, mas… dentista dá medo. É fato. Tanto é verdade que eu fiz um blog só pra falar disso. A gente costuma ter “o pé atrás” com qualquer profissional recém-formado. Mas do dentista… a gente já desconfia sem nem saber de quem se trata, está implícito. Portanto, como já é do meu costume, deixe-me explicar algumas coisinhas pra ver seu dá pra dissipar um pouco desse medo.

    O curso de Odontologia dura em torno de 5 anos. No primeiro e no segundo ano de faculdade o futuro dentista estuda o básico que qualquer profissional da área da saúde (dentistas, médicos, enfermeiros…) precisa saber: bioquímica, farmacologia, fisiologia, anatomia e uma série de outras disciplinas que têm como objetivo fazer o aluno entender e dominar o funcionamento do corpo humano. E, embora a área de atuação dos cirurgiões-dentistas seja a cabeça e o pescoço (os dentes são só uma parte do que nos cabe), lembro-me de ter que decorar os nomes dos músculos e ossos pertencentes ao meu pé (não só ao meu, claro, a todos os pés humanos :)). Por que isso? Porque o nosso corpo é uma coisa só, e suas partes se inter-relacionam. O medicamento que o dentista prescreve para a uma dor de dente, por exemplo, repercute no organismo todo do paciente.

    Depois começam as disciplinas mais específicas, coisa de dentista mesmo. Num primeiro momento, em âmbito laboratorial, ou seja, em modelos e manequins. Nós restauramos e tratamos os canais de dentes artificiais e, principalmente, de dentes naturais (que conseguimos fazendo romaria nos consultórios odontológicos). Depois que nos embasamos teoricamente e aprendemos as técnicas operatórias no laboratório, vem a parte que mais aguardamos: atender pacientes de verdade.

    Ah… o primeiro paciente. Não sei quem treme mais! 😀

    O que eu quero deixar claro aqui é que nós já saímos da faculdade tendo atendido muitos pacientes. Cada disciplina nos exige um número mínimo de atendimentos. Ou seja, antes de chegarmos a atender em nossos consultórios, com a plaquinha de “doutor” na porta, passamos pelo menos uns 2 anos e meio atendendo as várias especialidades odontológicas nas clínicas da Universidade.

    É interessante como funciona a cabeça do ser humano, né?! E não estou falando da sua anatomia, fisiologia, etc.. As pessoas pensam assim: “Eu não vou naquele dentista porque ele não tem experiência. Depois que ele tiver atendido um monte de gente, aí eu vou”. Ou seja: treinar nos outros tudo bem… TREINAR EM MIM, NEM PENSAR!

    Quero aproveitar a ocasião e agradecer imensamente a cada um dos pacientes que eu atendi na faculdade. Os super legais e os super chatos. Porque foi, graças a “coragem” deles, que eu pude aprender a ser dentista. Vocês sabiam que na ocasião das nossas formaturas, entre os homenageados da solenidade, estão os pacientes que atendemos durante o curso e até os cadáveres que foram nossos objetos de estudo nas aulas de anatomia? Sim. E nosso respeito e gratidão por eles é real, não faz só parte do protocolo…

    Meu recado é o seguinte: medo de dentista recém-formado é compreensível. Ao profissional novato falta, sim, experiência. Mas vivência clínica só se adquire… clinicando. Atendendo, acertando e, às vezes, errando. E é fato que não é só a experiência que faz um profissional ser bom ou ruim. Tem gente que está há anos na estrada e que não nasceu pra coisa… tem gente que não saiu da faculdade ainda e que manda muito bem! Dê um voto de confiança ao “doutorzinho”… você pode se surpreender. 🙂

    Dicas e relatos de experiências bacanas (ou não!) pra você que se formou em Odontologia há pouco:

    Recém-Formados: Montar Consultório ou Não? no Vida de Dentista

    A Dura Vida do Recém-Formado no PodCuspir

    Me Formei! E Agora? Socorro! no OdontoDivas

    Minha Nada Mole Vida… de Dentista no Camilagem

    Aconteceu Comigo: Isabelita Leal no Sofá do Dentista

    Trabalho, Valor e Confiança no OrtoBlog

    Como Montar Seu Consultório Odontológico no OdontoBLOGia

    Fazer ou Não Odontologia? no Ricardo Dentista

    Diário de um Ex-Acadêmico de Odontologia no Dicasodonto

    Formatura… e Agora? no Sorriso CASOall

    Dr. Sakana 4 – Futura Dentista no Pérolas da Odontologia

    10 Dicas Para Recém-Formados no Ortodontia Para Todos

    Depois de quase 12 anos de formada… no Te Vejo Por Dentro

     


  • É Bom Ter Convênio Odontológico?

    É Bom Ter Convênio Odontológico?

    Hoje é o Dia Mundial da Saúde. Aproveitando a data, entidades e profissionais da área médica e odontológica estão promovendo o Dia Nacional de Paralisação do Atendimento aos Usuários dos Planos de Saúde. Hoje, “pacientes de convênio” não serão atendidos, salvo em casos de emergência ou urgência.

    Pra você que não compreende o motivo, eu explico: os valores repassados aos profissionais pelos planos e convênios de saúde quando realizamos um atendimento são, de forma geral, ofensivos. Irrisórios. Risíveis. Não bastassem esses adjetivos, os reajustes não acompanham a inflação dos últimos 10 anos.

    Ok. Mas e você, paciente, o que tem a ver com isso? Tudo. Você é o beneficiário dos planos e convênios médico-odontológicos… e, desculpe o mau jeito, mas você dá prejuízo. “Como assim??? Mas eu pago uma FORTUNA por mês pro convênio e nem é todo mês que eu uso…!”. Pois é. Mas o profissional só recebe quando atende você. Aliás, recebe 1 mês, às vezes 2 meses depois que atendeu você… quando recebe! Isso porque alguns convênios odontológicos praticam como ninguém a “arte da glosa”. Glosar significa recusar-se a repassar os honorários do atendimento ao dentista. E motivos pra isso não faltam… e se faltarem, eles inventam um (normalmente de cunho burocrático, do tipo “faltou a assinatura do Papa”) :). O fato é: o que o dentista recebe por um paciente que atende através de convênio muitas vezes não cobre o custo do material utilizado. 😮

    Só pra dar um exemplo hipotético do que acontece… vamos dizer que uma restauração simples, em atendimento particular, custe para o paciente R$ 50,00. Nesse valor estão inclusos: honorários (o “lucro” do dentista pelo serviço prestado e pelo conhecimento e treinamento que ele possui para realizá-lo), custo dos materiais (resina, luvas, sugador de saliva, guardanapos…) e custo da infraestrutura (água, luz, telefone, salário do auxiliar, esterilização dos materiais, manutenção do equipamento…). A mesma restauração, se feita através de um convênio (um péssimo convênio…), repassa para o profissional algo em torno de R$ 12,00. Ah, não se esqueça dos impostos… ainda é descontado cerca de 11% desse valor… total: R$ 10,68. Só que o dentista que faz a restauração trabalha por “porcentagem”, ou seja, apenas uma parte do que ele produz vai propriamente para o seu bolso. Essa parte varia, mas é bastante comum uma fatia de 40%. Atualizando nossos números, 40% de R$ 10,68 é… R$ 6,41. No nosso exemplo, para um procedimento que, remunerado à altura custa R$ 50,00, o que sobra para nosso pobre dentista hipotético é R$ 6,41. 😮

    A conta é simples, não precisa ser matemático… não cobre.

    O que essa disparidade traz de prejuízo para o paciente? Usando ainda o exemplo acima, pra fazer o custo caber no valor repassado pelo convênio, o dentista certamente usará material mais barato. “Quer dizer que o doutor vai fazer uma restauração MAL FEITA em mim???” Não! O procedimento restaurador é o mesmo, com a mesma técnica e embasamento científico aprendido na faculdade. Porém, a resina utilizada não será aquela de última geração, que tem resultados clínicos espetaculares. Felizmente, existem resinas mais baratas no mercado e com desempenho clínico satisfatório. “Satisfatório”, não “espetacular”… e é fato: quem está pagando sempre espera pelo “espetacular”. Ainda, não ache estranho se só houver horário na agenda para daqui a 1 mês…

    Quero deixar claro que este post não é uma crítica aos colegas que atendem convênios. Eu não atendo, mas cada um sabe de si. Minha intenção é que o paciente compreenda o lado do profissional que, para alguns convênios (nem todos), deixou de ser parceiro e se tornou mão de obra barata. Que pena.

    Outro problema GRAVÍSSIMO é a interferência direta dos planos de saúde na condução do tratamento dos pacientes. Na prática, um auditor dita “o que pode e o que não pode” ser feito… que exames e procedimentos são ou não são necessários. Uma afronta à autonomia do profissional de saúde e um desrespeito à figura do paciente.

    Há quem diga que o Dia Nacional de Paralisação do Atendimento aos Usuários dos Planos de Saúde não adianta nada pois “será apenas um dia”. No dia seguinte, vida normal. Mas a ideia não é causar prejuízo financeiro “de um dia de atendimento” para os convênios e planos de saúde, com o objetivo de puní-los… o que se pretende é chamar a atenção da sociedade e das autoridades competentes para o problema. Valorizar o profissional é valorizar o paciente… o termo “paciente de convênio” soa tão pejorativo no meio odontológico… não tá certo isso! Porque, afinal de contas, o menos culpado aí é o paciente.

    Enfim, é bom ter convênio odontológico? Para o dentista, por enquanto, não é. Para o paciente, é discutível… talvez se você precisar pouco dele. Para as operadoras de planos e convênios de saúde? Sem dúvida.

     

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