Categoria: Profissão: Cirurgião-Dentista

  • Atestado, CID e Sigilo Profissional

    Atestado, CID e Sigilo Profissional

    Você já deve ter recebido esse pedido de algum paciente espertinho: “Doutor, me dá um atestado para o dia inteiro?”. Eu já escutei isso várias vezes. As explicações são as mais variadas, algumas até divertidas. Mas, normalmente, nenhuma delas serve como justificativa.

    O que é um atestado? É uma declaração, normalmente de próprio-punho, em que o profissional da saúde (dentistas, médicos, etc.) dá testemunho de que por  determinado período o paciente esteve em sua companhia, em atendimento. Devem constar em um atestado:

    Atesto para fins trabalhistas…
    • Os fins a que ele se destina, de forma específica. “Atesto para os devidos fins…” não vale!
    • O intervalo de tempo exato em que o paciente esteve presente, de forma clara. Por exemplo das 10:00h às 10:45h.
    • O dia em que foi realizado o atendimento.
    • O período em que o paciente deve guardar repouso, se for o caso.
    • Carimbo do profissional em que constem nome e número de inscrição no Conselho Regional do estado em questão (no caso dos dentistas, o CRO).

    Tudo isso em papel timbrado, com os dados do local de trabalho do profissional.

    Muitos devem estar se perguntando: e o CID? Não, o CID não. A não ser que o paciente peça para incluí-lo ou autorize a sua inclusão. Para quem não está familiarizado com o termo, CID quer dizer Classificação Internacional de Doenças. É um código formado por letras e números que identifica condições patológicas. Isso quer dizer que qualquer um que tenha em mãos um atestado em que conste o CID, está apto a identificar de que doença você sofre. Duvida? Basta acessar este site, digitar o código e voilà! Cárie é o K02, por exemplo…

    CID

    Certa vez um paciente retornou ao meu consultório depois de uns 3 dias com o atestado que eu havia lhe dado em mãos. “Doutora, o meu patrão não aceitou o atestado, faltou o CID”. Expliquei pra ele que não havia faltado não, eu é que não havia colocado. Mas, como ele me pediu e eu o orientei de que ele não era obrigado a contar pro chefe que tratou um canal, fiz um novo atestado em que incluí o tal do código. Resolvido.

    Aí entra a questão do sigilo profissional. O Código de Ética Odontológica nos instrui a respeito. Capítulo VI (Do Sigilo Profissional), art. 14:

    I – revelar, sem justa causa, fato sigiloso de que
    tenha conhecimento em razão do exercício de sua profissão.

    Entre as “justas causas” a que o artigo se refere não consta “porque o meu chefe mandou”. Garanto Alegre. Mas você pode conferir no texto do CEO. E pra encerrar o assunto –> TST decide que atestado médico não deve incluir o tipo de doença

    O atestado é um direito do paciente. Se ele pede, o dentista dá. Mas não é direito dele exigir que faltemos com a verdade em seu texto, nem inventemos períodos de repouso dos quais ele não precisa (e que vai usar para ir ao cinema). Atestado é documento! Por mais que o pedido do paciente pareça legítimo, não dá para ceder. Acontece muito da pessoa pedir para colocar que ela esteve no consultório por 1 hora a mais, por exemplo, porque depende de ônibus e vai demorar para chegar ao trabalho. Sabe como é o chefe… mas, se o dentista faz isso e o paciente resolve sair dali e assaltar um banco nessa “uma hora” ele terá um testemunho, de forma documental, que o ladrão é outro. Ué, ele não estava  no dentista?

    E o paciente espertinho? Se for atendido de manhã, quer sempre a tarde de folga. Se for atendido à tarde, quer o dia seguinte inteiro! Se houver indicação para tanto, ok. Se não houver, não ceda, colega. A valorização profissional pela qual lutamos começa pelas nossas atitudes. E quem diz a verdade não precisa dar explicações.


  • O Cirurgião-Dentista e a Contribuição Sindical

    O Cirurgião-Dentista e a Contribuição Sindical

    Como acontece todos os anos, chegou o boleto do Sindicato. Aqui no Paraná o valor, neste ano, é de R$ 132,00. Dias atrás discutíamos no Twitter sobre a suposta obrigatoriedade de nós dentistas, como profissionais liberais, pagarmos o Sindicato dos Odontologistas. Nossa conclusão, então, foi a de que NÃO SOMOS OBRIGADOS. Chegamos a esse veredito nos baseando na seguinte lei, muito bem lembrada pela querida Dra. Paula Rollemberg:

    Dinheiro dá em árvore?

    Constituição Federal, artigo 8, inciso V:

    “Ninguém será obrigado a filiar-se ou a manter-se filiado a sindicato”.
    .
    Bingo! Se não somos obrigados a nos sindicalizar nem trabalhamos em regime CLT (a maioria de nós) não somos obrigados a contribuir com o sindicato! Certo? Mais ou menos…. Os sindicatos baseiam-se no artigo 578 da Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), que diz:

    “As contribuições devidas aos sindicatos pelos que participem das
    categorias econômicas ou profissionais ou das profissões liberais representadas pelas
    referidas entidades, serão, a denominação de ‘Contribuição Sindical’, pagas,
    recolhidas e aplicadas na forma estabelecida neste Capítulo”. (grifo meu)
    .
    O CRO-PR divulgou uma nota de esclarecimento sobre a obrigatoriedade de pagarmos o Sindicato do Estado. Nela, avisa que fiscalizará o recolhimento do valor referente ao Sindicato, bem como exigirá comprovação de quitação a qualquer momento em nossos consultórios e na ocasião em que se requeira registro definitivo no Conselho ou registro de especialidade por parte do cirurgião-dentista. É, aqui as coisas são assim… 🙂

    Entrei em contato com o CRO-PR, como vocês podem ver no e-mail abaixo:

    Juro que achei que ninguém responderia. Pra minha (feliz) surpresa, o próprio presidente do CRO-PR, Dr. Roberto Cavali, que foi meu professor, respondeu gentilmente o meu questionamento. Segue o print da resposta:

    Hum… então são 2 tipos diferentes de contribuição: a contribuição confederativa (só pra quem se filia espontaneamente a um sindicato) e o imposto sindical (ou contribuição sindical), este último de caráter OBRIGATÓRIO. Fui pesquisar a respeito e, segundo a legislação, a informação procede. Ou seja, independentemente do regime no qual você trabalha (autônomo, celetista, estatutário, escravidão) o imposto sindical, como qualquer outro imposto, é compulsório.

    E digo mais: se o sindicato da categoria não existisse, ainda assim haveria a obrigação de recolhimento da taxa! Ou você acha que no Brasil, o país com a maior carga tributária do mundo, iriam te dar esse mole? Veja o que diz a CLT, artigo 591:

    “Inexistindo Sindicato, o percentual previsto no item III do art. 589 será creditado à
    Federação correspondente à mesma categoria econômica ou profissional”.
    .
    Ou seja, se os Sindicatos não existem para determinada categoria, quem fica com a grana são os Conselhos. Mas não é o nosso caso. Então, pra que pagar o CRO? Não sei… me digam vocês! 😀

    A maioria de nós trabalha apenas como profissional liberal e não em regime celetista. Para os que trabalham como empregados de alguém, o valor relativo ao imposto sindical é descontado em folha, e equivale a “1 dia de trabalho”.  (CLT, artigo 580, inciso I).

    Ok… e pra quem atua apenas como profissional liberal? Ainda segundo o mesmo artigo…

    “II – Para os agentes ou trabalhadores autônomos e para os profissionais liberais,
    numa importância correspondente a 15% (quinze por cento) do maior valor de referência
    fixado pelo Poder Executivo, vigente à época em que é devida a contribuição sindical
    arredondada para Cr$1,00 (um cruzeiro) a fração porventura existente”.
    .
    O que isso tudo quer dizer? Não faço ideia :). É uma conta cheia de números baseada na extinta UFIR e na qual eu me perdi no meio, mas que você pode ver aqui. Mas, para encurtar a conversa, o valor é fixado em R$ 5,70 (UPDATE: o valor é fixo desde o ano 2000 e assim será até que a legislação a respeito seja alterada, veja aqui o porquê). Sim, cinco reais e setenta centavos. E essa bola o pessoal do OdontoBLOGia já tinha cantado… a questão é: por que diabos o valor que vem estampado no boleto do Sindicato é mais de 23 vezes maior???

    Então, já que é obrigatório, vamos ter que pagar o tal boleto? Não. Pelo que parece, basta desconsiderar esse boleto e imprimir um novo no site da Caixa Econômica Federal. Como se faz isso está muito bem explicado no post do OdontoBLOGia, não preciso nem repetir aqui.

    Em resumo: todo dentista é obrigado a pagar o Sindicato dos Odontologistas do seu Estado, independentemente de trabalhar com carteira assinada. É lei. Mas a mesma lei determina que o valor devido é de 1 dia de trabalho para celetistas e R$ 5,70 para profissionais liberais. O último dia para o pagamento da contribuição referente ao ano de 2011 é na próxima segunda-feira, dia 28/02.

    O fato é que ninguém concorda sobre o tema. Cada estado brasileiro trata o assunto de uma forma e Conselhos Regionais e Sindicatos se engalfinham por aí. Aqui no Paraná, eles são amigos. Em São Paulo, por exemplo, se odeiam. Tem dentista que sempre recebe o boleto mas não paga. Tem dentista que nunca recebeu o boleto. Tem dentista que sempre pagou… e aí? A lei, concordando ou não com ela, não é pra todos?

    Prezados colegas e senhores advogados que gostam de passear em blogs de Odontologia 🙂 … opinem!

    Veja ainda:

    Quanto o dentista deve pagar ao sindicato? –> texto atualizado (12/07/2013) sobre o tema. Já existe jurisprudência que dá base para o valor de R$ 5,70.

    Cada coisa em seu lugar – CRO, Sindicatos e Associações (ótimo post do DicasOdonto sobre o papel de cada entidade. Saiba o que cobrar e de quem.)

    Nota de esclarecimento do CRO-PR.

    Texto da lei 6386/1976, que altera dispositivos da Consolidação das Leis do Trabalho e dá outras providências (todos os artigos citados no post estão aqui).

    ATENÇÃO –> Se você pretende ficar em dia com o imposto sindical e não sabe como fazer as contas com relação a juros e correção monetária, use a calculadora do Cálculo Exato. Basta colocar o valor de R$ 5,70 e preencher os demais dados. Mão na roda. 😉


  • Paciente ou Cliente?

    Paciente ou Cliente?

    Os dois, ué! Tem dentista que acha uma ofensa pensar em seu paciente como cliente. Chamá-lo assim, então, é o mesmo que ofender a mãe (dele, claro.). O termo “cliente” nada mais é do que a ratificação de que existe uma relação comercial entre dentista e paciente. E há algum problema nisso? Há quem pense que sim.

    Pacientes em linha de produção

    Li certa vez num fórum o comentário de um colega que dizia mais ou menos isso: “Tem gente que trata o paciente como se fosse cliente…”. Perceberam a carga ofensiva que ele procurou dar ao termo? Eu entendi assim: “Tem gente que engana o paciente pra tirar dinheiro dele”. Acho oportuno, então, definir, antes de qualquer coisa, o que NÃO É um cliente. E definitivamente, cliente não é aquele cara que você engana pra ficar rico.

    Além de dentista, OdontoDiva, designer, mãe, blogueira e sedentária :P, eu sou especialista em Marketing. Enferrujada, já que nunca trabalhei especificamente na área. Mas alguns conceitos são como andar de bicicleta: a gente nunca esquece e às vezes cai. Uma boa definição de cliente é: um ser humano com necessidades e desejos. E o Marketing se ocupa exatamente disso: de satisfazer as necessidades e os desejos do cliente, e não de “criar” necessidades nas pessoas fazendo com que elas comprem o que não querem, como muitos erradamente pensam. É um processo de troca e satisfação mútua. Todo mundo fica feliz. 😀

    Trazendo esses conceitos para o consultório odontológico, pergunte-se: o que você pode fazer pelo seu paciente que você ainda não está fazendo? E essa é uma pergunta ampla. Não se restrinja a um ou mais procedimentos odontológicos, eles fazem parte apenas da sua obrigação. A questão é o que você vai oferecer A MAIS.

    Aí é que entra o conceito de valor, que é definido pela diferença entre a percepção que o cliente tem do seu serviço e as vantagens de contratá-lo. Resumindo, VALOR = o que seu serviço vale — o que seu serviço custa. Quanto maior o valor, mais dinheirinho no seu bolso. E sem enganar ninguém, porque a percepção é do seu paciente, lembra?!

    Sabe aquele super-hiper-mega-especialista que cobra uma nota preta? Isso é valor. O trabalho do cara vale cada centavo. Tratar-se com ele é certeza de sucesso e cabeça tranquila. Ele não usa uma resina mais cara que a sua, ou um adesivo diferente, mas os honorários dele fazem os seus parecem “baratos”. Porém, nem todos somos especialistas renomados… nem precisamos ser. O seu diferencial pode ser outro. O mais importante é conhecer o seu paciente: quem ele é, do que ele precisa, do que ele gosta, quanto ele ganha, o que ele quer. Só estabelecendo um perfil será possível satisfazer suas necessidades.

    Exemplo prático e que custa pouco: mandar um cartão de aniversário para os nossos pacientes. Muitos de nós até já fazemos isso. Mas mais efetivo que isso, e possivelmente mais barato, é ligar pra ele. Não a secretária… você. E nada de e-mail ou mensagem gravada. Ninguém se sente “especial” através desses meios. “Oi Dona Maria, hoje é seu aniversário! Então, meus parabéns!”.  E não vá querer marcar consulta na mesma ligação, hein?! 😀

    Por fim, gostaria de tocar de novo no assunto Compras Coletivas na Odontologia. O grande erro dessa estratégia é tratar o serviço prestado pelo profissional de Odontologia dentro de um conceito de produção, e não de marketing. Ou seja, o importante seria baixar o custo e ganhar pela quantidade de atendimentos prestados. Quanto mais pacientes atendidos, o custo por paciente cai, e tudo fica cada vez mais barato (se houver demanda). O problema é que a Odontologia não cabe nesse conceito. Nós não trabalhamos com repasse de custos nem somos operários em linhas de produção. Nós oferecemos serviços especializados e personalizados. Segundo Kotler, o conceito de marketing diz que “a empresa ganha vantagem contra o concorrente quando compreende os desejos e necessidades de um público-alvo bem definido e usa essa compreensão para oferecer uma satisfação superior a esses clientes” (Kotler, Philip. Princípios de Marketing). E aí… você se encaixa em que conceito? 🙂

    Enfim, estou convicta de que chamar meu paciente de cliente não é ofensa. E acho até um belo elogio, se ele for tratado de acordo com o que o termo significa em sua essência, sem achismos, sem espertezas. Valorizar o paciente é valorizar a Odontologia, pois ele olhará pra você com outros olhos. Os olhos de um ser humano grato por ter sido tratado como… ser humano.

    Leia também:

    Chovendo no Molhado: Começando a Desenvolver Uma Visão Empresarial —> excelente artigo do Leo Augusto no Ortoblog!


  • O Dentista do Postinho

    O Dentista do Postinho

    No último fim de semana prestei concurso para a Prefeitura de São José dos Pinhais, cidade da região metropolitana de Curitiba. Pertinho daqui mesmo, morei lá toda a minha infância e adolescência. Apesar da prova ser num domingo de manhã, até que foi divertido… caí na sala com as fiscais de prova mais trapalhonas EVER, duas senhoras com seus 50 e poucos anos.

    Potenciais "dentistas do postinho"
    Logo na entrada, procurei meu nome na listagem afixada na porta. Check! Uma das fiscais, que estava ao meu lado o tempo todo em que eu conferia minha presença na lista de candidatos, olhou pra mim e disse: “Confira se o seu nome está na lista”. Fiquei imaginando o que ela achou que eu estava fazendo até então… sei lá, procurando algum conhecido, talvez…

    Entrei. A outra senhora pediu minha identidade. Passou o dedo por cima do meu nome várias vezes e não me achava na lista. Apontei pra ela onde eu estava. “É mesmo! Sua fila é esta aqui”, indicou. Lá fui eu procurar o cartão de respostas que me pertencia. Fui e voltei umas 2 vezes e nada. Ela percebendo que eu não “me achava”, perguntou: “Qual é a sua posição?” Respondi: “Não sei, a senhora não me disse”. E dá-lhe procurar meu nome na lista novamente para descobrir a minha posição. Era 21. Era só seguir a ordem e pronto. Pronto? Nada! O critério de ordem de distribuição dos cartões deve ter sido o randômico. Só pode. Mas finalmente, com a ajuda de outra candidata, achei meu lugar: duas filas além do que havia sido indicado…. Acomodei-me. Vi o mesmo acontecer com os colegas que chegavam.

    Mesmo sendo Curitiba, sala de aula no verão é sempre quente. A sala tinha 2 ventiladores, dos quais 1 já estava ligado. O botão para acioná-los ficava mais ou menos a 3 metros do chão. A fiscal, a mais baixinha delas, se esticou e, ÓBVIO, não chegou nem perto. Um gentil rapaz com mais de 2 metros de altura se ofereceu para a tarefa. Mas a senhora achou que o vento estava fraco. “Aumenta pra mim um pouquinho?”, pediu. Na hora, ok. Mas quando 10 segundos depois o ventilador apontou para a classe… “…e o vento levou”. Cartões e mais cartões de respostas voando. Como eu estava de pé porque tinha me oferecido para assinar a declaração de que eu testemunhava que o pacote com as provas estava lacrado e blá-blá-blá, o meu foi junto. Aí uma das senhoras olhou pra mim e disse: “Querida, você diminui o ventilador pra mim?”. Olhei pra ela, olhei pro ventilador. Dei um pulinho, todo mundo riu. Eu posso ter essa pele de anjo, mas isso não justifica ela achar que eu sei voar :). O rapaz grandão veio e nos salvou.

    “Como vocês podem verificar, o pacote com as provas está lacrado”. Verificamos. Quando ela foi abrir o pacote… caiu TUDO no chão. Ela soltou um “Que bom, hein?!”. E a gente segurando a risada, porque ela ficou visivelmente constrangida. A outra senhora catou os cadernos e, com uns 15 minutos de atraso, nossa turma começou a prova. Ufa! 😀

    Nunca vi tanto dentista junto. E tudo isso pra ser o dentista do postinho.  Na verdade, o dentista da Unidade de Saúde (como dizia uma professora minha na época da faculdade, “posto” é onde se enche o tanque do carro de combustível). O serviço publico costuma ser interessante para profissionais liberais como nós porque oferece aqueles benefícios que, via de regra, não nos pertencem:  salário fixo, plano de saúde, férias, 13o salário… por isso tanto colega interessado. E como o salário oferecido era bem razoável para uma jornada de meio período…

    É importante lembrar, e o objetivo deste post é este: o dentista do postinho (aquele que você diz que fez um buracão onde tinha só um buraquinho) não é pior do que o dentista que atua em clínicas particulares. O brasileiro tem o costume de desdenhar do que é “de graça”. Se é gratuito é pra pobre, se é pra pobre não é bom. Mas, pra chegar a atender em uma Unidade de Saúde, o profissional teve que prestar concurso e passar por um funil que deixou muitos colegas pra trás… pense nisso.

    O SUS é o melhor sistema de saúde do mundo… no papel, infelizmente. Nem sempre funciona a contento, mas quando funciona é excelente. Acredite, os profissionais que estão lá (dentistas, médicos, enfermeiras, etc.) são sim capacitados para lhe dar o melhor atendimento, mas nem sempre as condições de que dispõem são as mais adequadas ou as necessárias, quadro muito comum em áreas afastadas dos grandes centros urbanos. Brasil.

    Se eu vou ser a dentista do postinho? Pela minha performance, duvido :D. Só por garantia, se quiser marcar consulta, ligue pro meu consultório mesmo. É mais provável que eu ainda esteja lá… 😛


  • Alô… aí se cobra pra fazer orçamento?

    Alô… aí se cobra pra fazer orçamento?

    Vez ou outra recebemos em nossos consultórios uma ligação assim. E aproveitando o gancho das aventuras oftalmológicas do Dr. Fabrício, acho oportuno tocar no assunto: prezado colega, você cobra consulta? 

    Olhadinha… sei…

    Se você não é dentista, talvez ache essa pergunta um tanto estranha. “Como assim consulta de graça? Onde? Eu quero!”. Então… a consulta da qual eu estou falando é o tal do “orçamento”, termo que faz sentido quando fazemos a revisão periódica dos nossos veículos, mas que definitivamente não combina com o consultório odontológico. “Ah, então não é consulta, é orçamento! Orçamento tem que ser de graça mesmo!”. Concordo plenamente. A questão é: o que nós dentistas fazemos na primeira visita do paciente aos nossos consultórios se resume a um orçamento? Eu estou convencida que não. Explico.

    Há quem ache que nós somos formados em Matemática, e não em Odontologia: nós vamos somar o número de dentes cariados, multiplicar pelo custo da resina usada na restauração, diminuir o valor encontrado pra dar um “descontinho”, dividir o pagamento em 15 vezes e… voilà, eis a sua conta. Não é assim tão simples… um plano de tratamento personalizado é algo que está muito além da “olhadinha”.

    Uma avaliação odontológica tem várias etapas. Alguns casos são simples mesmo, o paciente tem uma pequena cárie e precisa de uma “limpeza”; a restauração custa X, a limpeza custa Y, o que dá um valor Z em honorários. Mas, na maioria das vezes, a formulação de um plano de tratamento não é assim tão “direto ao ponto”. Muitos pacientes precisam de várias intervenções: periodontais, restauradoras, protéticas… precisam de implantes. Tudo isso tem uma ordem determinada e um tempo apropriado pra acontecer, e não dá pra se basear apenas no olhômetro do dentista. Exames de imagem são fundamentais em muitos e muitos casos.

    O mais importante e o menos considerado pelo paciente que escolhe dentista pelo valor do “orçamento”: o profissional precisa, munido de todos os dados do exame clínico e dos exames de imagem, PENSAR. Usar o que aprendeu em anos de estudo para determinar as saídas possíveis para o seu caso e, não menos importante, fazer a solução encontrada caber no seu bolso. Afinal, quem paga os nossos honorários é o paciente. Isso tudo demanda tempo, e na Odontologia tempo é dinheiro. Nosso tempo, tanto quanto nosso conhecimento, tem um custo.

    Conhecem a história do mecânico que consertou um navio? É mais ou menos assim…

    O navio não saía do lugar. Na casa de máquinas reinava o silêncio. O capitão chamou vários técnicos e funcionários da manutenção, mas nenhum resolveu o problema. Por sorte havia um mecânico a bordo. O capitão, ao saber disso, mandou chamar o rapaz e pediu a ele que desse uma “olhadinha” na casa de máquinas. Ele foi até lá e, sob os olhares dos demais, passou cerca de meia hora apenas observando o maquinário. Quando todos já estavam irritados com a demora e descrentes de que aquele rapaz pudesse dar conta do serviço, ele pediu:

    “Por favor, alguém poderia me arranjar um martelo?”

    Com o martelo em mãos, ele foi até uma determinada parte do equipamento e TUM! Eis que os motores ligaram, e o navio já podia seguir viagem. O capitão ficou muito grato e disse ao mecânico:

    “Meu rapaz, muito obrigado! Quanto lhe devo?”

    Ao que ele respondeu: “São R$ 20.000,00, senhor.”.

    O capitão quase caiu duro… “Isso é muito caro por uma martelada!”

    Foi quando o mecânico lhe entregou o orçamento: Martelada: R$ 10,00. Saber onde dar a martelada: R$ 19.990,00.

    Conhecimento é tudo. 🙂

    Voltemos à questão principal: cobrar ou não cobrar. Li ontem o comentário de alguém num blog eugenólico que dizia que a consulta odontológica deveria ser cobrada de forma obrigatória, ou seja, que deveria ser lei. Fiquei pensando a respeito e concluí que… JÁ É LEI! Vejam só o que diz o Código de Ética Odontológica:

    Capítulo VIII – Dos Honorários Profissionais (Art. 11o, I):
    “Constitui infração ética oferecer serviços gratuitos a
    quem possa
    remunerá-los adequadamente”.

     

    O que isso quer dizer? Quer dizer que o dentista não pode, salvo em caso de paciente carente, deixar de cobrar por um procedimento (muito menos dá-lo como brinde). Então: convenci você de que planejar um tratamento personalizado é um procedimento odontológico (o mais importante deles!), mesmo que nenhum dentinho seu tenha sido tocado? Se não, esqueça tudo isso aí em cima! Vem cá que eu dou uma “olhadinha” pra você… 😀

    E você dentista, o que acha? Deve-se cobrar consulta sempre? Há casos em que não se deve cobrar? A cobrança deveria ser algo obrigatório e fiscalizado pelos CROs? Ou cada um sabe da sua própria vida? Opine! 🙂

    Veja o que outros blogs pensam a respeito:

    Netdentista: Consulta grátis? Não, obrigado.

    Maldito Bruxismo: Cobrar Consulta?

    OdontoDivas: Avaliação Clínica: Cobrar ou Não?

    Saudálito: Cobrar Consulta? Sim, Senhor.

    Vida de Dentista: Vamos no dentista??? É de graça mesmo…

    Doctor Victor: Consulta Grátis – Não Pooode!

    DicasOdonto: O Orçamento Grátis

    Ortodontiaparatodos: Como Cobrar? Visão de Um Profissional Que Um Dia Não Podia Cobrar!

    Ricardo Dentista: Consulta Grátis: Como Isso Funciona?

    Sorriso CASOall: Quanto Vale?!

    OdontoBLOGia: O dia em que me dei mal por não cobrar avaliação inicial

    Por Dentro da Dor Orofacial: Orçamento Grátis


  • “É que surgiu um imprevisto…”

    “É que surgiu um imprevisto…”

    Ouvi essa frase ontem, de uma paciente que, horas antes, ao telefone, relatava fortes dores. A frase foi usada para justificar, 5 minutos antes da consulta marcada, que ela não poderia comparecer ao compromisso acordado. “Apenas” mais um cano como muitos que eu e você, prezado colega cirurgião-dentista, estamos acostumados a levar.

    Porém, nem era minha paciente propriamente dita. Não nesse caso, pelo menos. Ela passou por uma remoção cirúrgica de 3o molar no meu consultório, em dezembro, realizada por um colega meu que é cirurgião bucomaxilofacial. Entrei em contato com ele, num dia em que eu não viria ao consultório até então, e perguntei se ele poderia atendê-la. Ele cancelou alguns compromissos e veio especialmente para vê-la… afinal, ela sentia dor. Eis que, momentos antes do nosso encontro… a fatídica ligação.

    É fato: imprevistos acontecem. Estamos à mercê deles. Neste caso específico, não fui informada do tipo de compromisso que cancelou nossa consulta. Fico imaginando, inevitavelmente, que tipo de imprevisto é mais importante que uma dor pulsante. O pai na forca?

    Os pacientes não fazem ideia do transtorno que causam quando cancelam suas consultas em cima da hora, ou quando, simplesmente, não aparecem. A paciente do meu relato ligou avisando que não viria. Mas não havia nada mais a ser feito naquele momento, a não ser esperar a chegada do meu colega e pedir desculpas a ele.

    Nós, dentistas, somos profissionais liberais. Ou seja, a maioria de nós não trabalha naquele regime de um número determinado de horas por dia, com salário fixo no final do mês. Para nós, o ditado “tempo é dinheiro” não é só um adágio popular… é a nossa rotina. Como trabalhamos com hora marcada, nosso tempo é reservado para cada paciente em especial. Quando o paciente não aparece, ficamos ociosos. Quando ficamos ociosos… tuitamos! 😀

    Os pacientes costumam ficar bravos quando atrasamos o atendimento deles. Afinal, “eu já estou aqui esperando há 10 minutos!”… e, devo reconhecer, eles têm toda razão. Atender no horário é uma questão de respeito. O tempo dele é precioso, assim como o nosso. Tem colega que marca paciente a cada 10 minutos… a chance de atender a cada um deles no horário certo é quase nenhuma. Veja, cada profissional sabe do tempo clínico que precisa…. mas um pouquinho de “tempo de manobra” não faz mal, né?

    Porém, para os casos de atraso, nós temos algumas “desculpinhas” bem aceitáveis… 🙂

    –> Os encaixes: são os pacientes de emergência. Na Odontologia, as emergências costumam ser ligadas à dor e à estética. Dor eu não preciso nem explicar. Estética pode ser quando, por exemplo, a pessoa perde a prótese do dente da frente. Tem que fechar o 1001, né?! E tem que ser AGORA.

    –> Complicações durante o procedimento: aquele dente que estava “pulando para fora” deu mais trabalho do que parecia que ia dar. Acontece. Ou pior: sem motivo aparente que conste na anamnese, o paciente não pára de sangrar. Vai mandar ele pra casa “pingando” porque é a vez do próximo?

    –> Dependência de outros profissionais: o protético. O protético é o cara que devia ter entregado aquela dentadura há meia hora. Mas ele não entregou. E o paciente está na sala de espera, puto. Com o dentista.

    –> O atraso dos outros pacientes: sua consulta era 14:00h. Mas você chegou 14:15h. Os 15 minutos em questão foram “tirados” do próximo paciente, o que gerará um efeito cascata que fará a agenda do seu dentista entrar em combustão espontânea. Se o dentista disser para os outros pacientes que a culpa é sua, inevitavelmente ouvirá: “Por que atendeu se ele estava atrasado?”. Mas se os atrasados forem eles… “é só 15 minutinhos, doutor! Dia desses esperei por você mais de meia hora!”.

    Para o bem da nossa relação, por favor prezado paciente:

    –> Se você sabe que não poderá vir, não marque a consulta “só pra garantir” seu lugar na agenda.

    –> Se você não sabe se poderá vir no momento de marcar a consulta, não marque. Aguarde ter certeza. Ou pelo menos, quase.

    –> Se você não pretende aparecer, não confirme sua presença quando a secretária ligar perguntando se você vem.

    –> Se realmente precisar faltar, ligue avisando. E isso deve ser feito com, no mínimo, 1 dia de antecedência. Outros pacientes estão doidinhos por aquele horário que nós reservamos só pra você…

    –> Você não é de açúcar. Chuva, a não ser que você more em algum morro com perigo de vir abaixo, não é motivo pra faltar.

    –> Chegue com uns 5 minutinhos de antedência. E conforme-se: talvez você tenha que aguardar.

    Seguindo esses conselhos, todos seremos mais felizes. Eu serei :). Quanto ao caso que relatei, a paciente volta hoje. Ou não… afinal, imprevistos acontecem 🙂

    UPDATE: Acreditem, não é piada. A paciente me ligou no horário exato da consulta, desmarcando.


  • Vergonha do Dentista

    Vergonha do Dentista

    Medo

    Medo de dentista é, infelizmente, algo esperado. É até meio folclórico. A mídia retrata insistentemente esse medo coletivo. É como ter medo de fantasma ou de assalto, “todo mundo tem”. Mas tenho notado, observando os relatos das pessoas que procuram o blog em busca de ajuda, que existe outro sentimento muito presente na dinâmica dentista / paciente: a vergonha.

    Todos querem dentes bonitos, hálito gostoso, muitos e muitos dentes saudáveis na boca. Mas, para uma parte das pessoas, por algum motivo, em dado momento de suas vidas, alguma coisa aconteceu e impediu que esse “sonho” se realizasse. Você colega, que já tem um pouco mais de experiência, com certeza já ouviu mil explicações na hora do exame clínico:

    “Meus dentes ficaram fracos porque eu tomei muito antibiótico quando era criança”.

    “Meus pais não me levavam ao dentista. E quando levavam, era pra arrancar“.

    “Era só um buraquinho, mas o dentista desgastou quase o meu dente inteiro”.

    “Meu hálito é ruim porque eu tenho problema no estômago”.

    “Meus dentes estragaram todos porque eu não tenho dinheiro pra tratar”.

    “Eu não escovo os dentes direito porque eu trabalho demais, não tenho tempo”.

    “A limpeza que o dentista me fez não foi boa! Não durou nem 3 meses! Tá tudo sujo de novo”.

    Dá pra passar o dia reunindo as justificativas clássicas. Algumas são legítimas, outras nem tanto. Mas o que fica clara é a intenção do paciente de convencer você de que ele é uma vítima das circunstâncias. Se hoje as coisas estão como estão, é por causa do remédio… do tempo… da falta de dinheiro… da falta de orientação… do dentista.

    Embora alguns paciente tenha essa tendência de procurar por um bode expiatório, eles sabem que têm sua parcela (importante) de responsabilidade. Tanto sabem, que ficam se explicando. Ficam tentando convencer a si próprios de que, por vários motivos, as coisas iam acabar assim mesmo, afinal não tiveram uma oportunidade melhor.

    O que é que eu quero dizer com tudo isso? Que o paciente não escova os dentes e quer se isentar da culpa da sua péssima condição bucal? É uma possibilidade. Mas não é minha interpretação. Ele, na verdade, tem VERGONHA.

    Sempre falo aqui no blog de quem foge do dentista porque tem medo. Mas muitas pessoas não vão ao dentista porque têm vergonha de mostrar seus dentes. E muitos já me confessaram isso na cadeira… “Doutora, eu tava precisando vir faz tempo, mas os meus dentes estão tão feios… o que que você ia pensar de mim?”

    Eu acho que os pacientes imaginam que, quando eles saem do consultório, a gente abre uma passagem secreta na parede e desce até as catacumbas da Odontologia, lugar com cheiro de eugenol onde os dentistas se reúnem para comentar o estado lastimável das bocas dos seus pacientes. “Noooossa! A Dona Maria deve ter mastigado uma banana de dinamite achando que era chiclete… uma destruição só! E a sujeira? Juro que vi um dente no tártaro dela… aquilo nunca viu escova! Que noooooojo!”

    Senhores pacientes, tranquilizem-se. Esse lugar não existe. Sério mesmo.

    Cuidar da sua saúde bucal é a nossa profissão. Não nos cabe achar bonito ou feio, sujo ou limpo e MUITO MENOS sair por aí comentando sobre o que vimos. Podemos até dar a nossa opinião, se você perguntar. Mas nossa tarefa é trabalhar para que a sua saúde se restabeleça, seja restaurando, seja tratando um canal, seja extraindo um dente, seja fazendo uma limpeza, seja orientando você a realizar uma higiene bucal adequada. Por isso, não tenha vergonha de abrir a boca para o seu dentista. Divida com ele essa responsabilidade. Porque, quando você se nega a isso, não há explicação que cole: a culpa é SÓ sua.


  • Doutor, arranca o meu dente?

    Doutor, arranca o meu dente?

    Já ouviu essa frase no consultório? Sr. Paciente, já disse isso para o seu dentista? Já me fizeram esse pedido várias vezes. A frase acima exemplifica um comportamento muito comum dos pacientes na Odontologia: dizer ao dentista o que é que tem que ser feito.

    Esse já era!

    Funciona assim: o paciente entra no consultório, com dor ou não, e já vai dando as diretrizes: “Doutor, esse dente aí tá podre. Não adianta mais. Eu vim arrancar ele”. Aí o dentista, calmamente, diz: “Posso, primeiro, ver o seu dente?” E então, no exame clínico e, quase sempre, radiográfico, confirma-se ou não a necessidade da exodontia (extração) do elemento. Quando é constatada a real indicação de exodontia, ok. Mãos à obra. E quando o dente tem salvação?

    Já volto para essa questão. Vamos, antes, analisar esse comportamento tão corriqueiro dos pacientes odontológicos. Ninguém chega no médico e diz: “Doutor, esse coração aí tá podre. Não adianta mais. Eu vim transplantar ele”. Ah, alguém diria, não dá pra comparar dente com coração…. Não? Ambos são órgãos humanos, úteis e, se não estiverem presentes, fazem falta. O problema está na banalização da Odontologia. O paciente vê você, meu colega, como um arrancador de dentes. Um fazedor de dentaduras. Um limpador de tártaro. Ele não enxerga os anos de estudo que o prepararam e muito menos a sua verdadeira profissão: promotor de saúde. E não só bucal.

    Os maiores culpados da banalização da Odontologia somos nós, cirurgiões-dentistas. Nós não nos valorizamos como profissionais de saúde. Nós fazemos qualquer negócio! As clínicas “pop” estão aí pra quem quiser ver. Eu já trabalhei em clínica popular (como 95% dos recém-formados que nao abrem consultório), e sei como funciona: você pergunta para o paciente o que ele quer e… faz. Veja, não há problema nenhum em perguntar ao paciente o que ele deseja, e acredito que essa pergunta seja parte fundamental da elaboração do plano de tratamento. Mas simplesmente comportar-se como um macaquinho adestrado, não dá!

    Aí tem o outro lado da moeda… o paciente carente. Você planeja um tratamento incrível, uma reabilitação bucal completa, próteses fixas, enxertos ósseos, implantes… mas o paciente não pode pagar. Sem problema, existem outras opções mais baratas e igualmente saudáveis a serem propostas. Agora, voltando à questão daquele dente que “tem salvação”, imagine: seu paciente chega urrando de dor, implorando para que você faça aquilo parar. “Doutor, arranca PELAMORDEDEUS!”. Você avalia que o dente não está condenado, e uma endodontia bem feita resolveria o problema (seguida, é claro, de restauração ou coroa). Você informa isso ao paciente. Ele diz: “Não, Doutor, eu não tenho dinheiro pra fazer canal e essas coisas, eu prefiro arrancar”. E aí? QUERO SABER SUA OPINIÃO E CONDUTA NOS COMENTÁRIOS, LÁ EMBAIXO.

    Enfim…

    Sr. Paciente: respeite a opinião do seu cirurgião-dentista como profissional de saúde. Não diga a ele o que ele deve fazer. Ele estudou bastante e, após o exame clínico / radiográfico, saberá dizer para você do que você precisa. E não se preocupe, ele não fará nenhum procedimento na sua boca que você não queira ou pelo qual não possa pagar.

    Caro colega: ouça o que o seu paciente tem a dizer, mas não siga ordens. Você é um profissional habilitado a decidir e realizar o melhor tratamento para o seu paciente. A opinião dele é fundamental, mas não é a regra. Se o que ele lhe pede não combina com o embasamento científico que você tem, reserve para si o direito de não atendê-lo. O paciente que pede pra você extrair aquele dente porque “prefere assim” é o mesmo que processa você por lesão corporal. E ganha.


  • Os Dentistas Contra a Placa!

    Os Dentistas Contra a Placa!

    Bacteriana? Também… 🙂 Mas hoje eu queria falar da placa aí da foto. Tirei essa foto há uns 2 anos. A primeira coisa que pensei foi… putz. Mesmo. Foi minha primeira reação. Um misto de surpresa e de vergonha.

    Putz.

     

    Então passei por 4 dos “5 estágios da dor” 🙂 :

    1. Negação. (“Fobia? Que exagero…”)
    2. Raiva. (“Isso é frescura. Até parece… não escova os dentes e depois fica com ‘medinho’”)
    3. Negociação. (“Tá. Medo até que vai. É meio assustador mesmo.”)
    4. Depressão. (“Que tipo de dentista eu sou? As pessoas têm FOBIA de mim! Buáááá!”)
    5. Aceitação. Não. De jeito nenhum.

    Não dá pra simplesmente aceitar o medo de dentista. Eu não aceito. Por que tem tanta gente com medo de dentista? Vamos tentar entender:

    • Síndrome do Jaleco Branco (White Coat Syndrome): esta condição não se refere exclusivamente a nós cirurgiões-dentistas. Pode ser definida como o “aumento da pressão arterial motivada pelo contato com o profissional de saúde”. Ansiedade. Você não sabe o que te espera e fica ansioso.
    • A Odontologia de antigamente: em outros tempos, doeu = arrancou. Era assim que se fazia. Não adianta ficar bravo com aquele dentista, hoje velhinho, que extraiu vários dentes seus na sua adolescência. Ele só estava fazendo o trabalho dele. Não existia o conceito de prevenção, de cuidar pra não ter que tratar. E toda uma geração ficou marcada pelo medo de dentista.
    • Experiências ruins de outras pessoas: “Ah doutor, uma amiga da prima da minha mãe fez um tratamento de canal e ela quase morreu de tanta dor!” Três coisas me ocorrem ao ouvir essa declaração: a) O que doeu? O dente ou o tratamento de canal? São coisas diferentes. b) A dor não é sua! Se o dente dela doeu, doeu nela. Por que o seu tem que doer também? c) Passa pra mim o número dela que a gente precisa conversar! 🙂
    • Suas experiências ruins: um dentista te fez sofrer. Sim, isso acontece. Às vezes você passou por maus bocados sob os refletores do seu ex dentista e ficou traumatizado. Existem dois fatores a serem analisados aqui. Pode ser que o seu dentista seja um mau profissional e pode ser que você seja um mau paciente. Como assim “mau paciente”? Explico: sabe a amiga da prima da sua mãe? Então… a amiga da prima da sua mãe não foi ao dentista ANTES do dente doer (ou no comecinho da dor); ela foi quando a dor de dente já era insuportável. Tratar o canal do dente não é o que causa a dor… é o que resolve o problema! Pode ter doído durante o tratamento porque, quando a região está muito infeccionada / inflamada o pH (“acidez”) tecidual fica alterado… aí a anestesia não se instala a contento. Viu?! Tivesse ido antes…
    • Como os seus pais se relacionam / relacionavam com o dentista: que exemplo você tem / teve dos seus pais com relação às visitas ao dentista? “Se você não ficar quieto aquele tio ali vai te dar uma injeção DESTE tamanho!” [ironia] Parabéns [/ironia]. Você traumatizou seu filho para o resto da vida. Sim VOCÊ, não o dentista. A partir de agora o que deveria ser rotina, e poderia ser até divertido, passa a ser punição. Talvez você tenha escutado isso dos seus pais. Por favor, não faça isso com os seus filhos. Em vez disso, introduza na vida deles o conceito da prevenção, da visita de rotina, da higiene como um hábito.

    É claro, eu estou falando de medo e ansiedade, que são coisas normais. Já a fobia é patológica, é doença, e como tal, precisa de tratamento. A clínica da placa da foto pode ajudar. Se for o seu caso, procure ajuda. Em casos extremos, a fobia pode levar até à morte. Deixo, para reflexão dos colegas, a história de Sophie Waller, uma menina que morreu de fome aos 8 anos, porque não abria a boca por fobia. De dentista.

    Veja também: Chega de Ter Medo, no Blog do Tio Dentista e Você Tem Medo de Dentista? no Vida de Dentista.