Categoria: Higiene Bucal

  • Argila serve pra escovar os dentes?

    Argila serve pra escovar os dentes?

    Em 2015 eu falei sobre flúor, Bela Gil e açafrão. Naquela oportunidade expliquei a ação e os benefícios comprovados do flúor na escovação dos dentes, bem como a ausência de comprovação de benefícios do uso da cúrcuma em pó como “pasta de dentes”. Eis que a culinarista Bela Gil volta a polemizar nas redes sociais. Dessa vez, ela postou um vídeo em que sua filha escova os dentes com argila, o que, segundo a moça, seria uma opção mais natural de dentifrício.

    Argila para escovar os dentes
    Argila para escovar os dentes?

    Minha intenção com este post não é brigar com a Bela Gil. Ela é maior de idade e eu não sou mãe dela. Ela pode usar o que quiser pra escovar os dentes e, da mesma forma, escovar os dentes dos filhos dela com o que achar mais conveniente. Mas eu sou dentista – o que Bela Gil não é -, portanto acho pertinente esclarecer essa questão do uso da argila pra se escovar os dentes.

    E argila serve pra escovar os dentes?

    Existem pastas de dentes industrializadas à base de argila, sim. Encontrei uma, por exemplo, de fabricação italiana, chamada Dentifricio Argilla Bianca. Os ingredientes desse creme dental são: sorbitol, aqua (água), silica, kaolin, xanthan gum, xylitol, sodium cocoyl glutamate, salvia officinalis extract, glycerin, citrus medica limonum oil, limonene, citral, geraniol, linalool, coumarin, potassium sorbate e sodium dehydroacetate. Dois ingredientes aí me chamaram a atenção: a sílica e o caulim.

    Pasta de dentes à base de argila
    Pasta de dentes industrializada à base de argila

    O caulim (kaolin) é um tipo de argila branca muito utilizada como cosmético para a pele. Refere-se às argilas constituídas principalmente por caulinita (silicato de alumínio hidratado) e provém da alteração de rochas ricas em feldspatos. Devido à baixa reatividade química, alvura e maciez, tem larga utilização na cosmética. É a mais leve de todas as argilas, possui propriedades cicatrizantes, devido à elevada porcentagem de alumínio presente na sua composição.

    Já a sílica é o nome popular do dióxido de silicato, componente da areia e a principal matéria prima do vidro. Também é usado na fabricação de cimento.

    Vocês perceberam qual a propriedade comum da sílica e do caulim? Eles são abrasivos usados como esfoliantes. E esfoliação é, por definição, a remoção, em fólios, escamas ou lâminas, de tecido superficial de animais ou vegetais. Isso na pele, ok… é legal, remove células mortas e a pele se regenera, se renova.

    Só que dente não é pele, e o tecido superficial do dente é o esmalte… que NÃO SE REGENERA. Ou seja: o esmalte, uma vez desgastado, já era. E o que o desgaste do esmalte pode causar? Vários problemas, que vão desde a parte estética até a hipersensibilidade dentinária, já que a remoção do esmalte pode expor a dentina, tecido que fica logo abaixo dele. Dói, viu?!

    Mas eu não uso produtos industrializados, uso argila mesmo!

    Na minha opinião é pior ainda. Eu não sei exatamente o que tem no potinho que a Flor Gil segura na foto aí em cima, mas me parece… terra (argila é um tipo de solo, né?!). Nem é a argila branca que o pessoal usa por aí.

    Eu vejo valor em pessoas que buscam alternativas mais naturais, de verdade. A gente consome um monte de porcarias, e quase nunca lê o rótulo. Realmente admiro quem come o que planta no quintal, quem sempre lê o rótulo do que compra, quem prefere não consumir produtos de origem animal ou que são testados em animais. Ponto pra vocês. Mas tudo tem limite, e natural não é sinônimo de saudável. Se você escova os dentes com argila, conte isso para o(a) seu / sua dentista e pergunte a opinião dele(a). Conversem sobre isso, leve em conta o tempão que ele(a) estudou pra estar aí atendendo você.

    Mas eu uso e funciona!

    Ok! Você é adulto (suponho), responsável, pode tomar decisões e conviver com as consequências delas. Se você quer escovar os dentes com terra, com uma pasta de dentes à base de argila ou com pó de pirlimpimpim, você pode. Eu só gostaria que você fizesse isso de forma consciente, e não porque viu alguém que você admira fazendo isso no Instagram.

    Escovar os dentes com argila desgasta os seus dentes, e é justamente por isso que eles ficam tão brancos e lisinhos depois de escovar. Lisinhos porque foram – literalmente – lixados, e brancos porque o desgaste superficial do esmalte remove manchas superficiais do dente. Junto com o esmalte.

    O outro problema de usar argila pra escovar os dentes é que argila não tem flúor. Citando nota recente do CROSP (Conselho Regional de Odontologia de São Paulo), motivada por esse episódio com a filha da Bela Gil, “o flúor nos cremes dentais e nas águas de abastecimento público possibilita a redução no número de cáries. Em média, crianças que utilizam o creme dental fluoretado têm 30% a menos de cárie. O flúor vem sendo utilizado no mundo há 60 anos e já há milhares de artigos científicos comprovando os seus benefícios para saúde das populações”. Sobre a ação e a importância do flúor eu explico direitinho lá no outro post.

    Juízo, ok?! 😉

    Leia também:

    Escovação dental com argila causa reboliço nas redes sociais no DicasOdonto 

    CROSP alerta: argila não substitui o creme dental no Blog do Dentista

    A argila como um novo dentifrício: uma abordagem clínica no OdontoDivas 


  • Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Se você não esteve em coma nas últimas 72 horas, sabe que a apresentadora Bela Gil alvoroçou a dentistaiada ao sugerir para seus seguidores no Instagram e Facebook que usassem cúrcuma em pó para escovar os dentes, pois essa supostamente seria uma opção mais natural, principalmente pela ausência de flúor. O post está abaixo:

    Bela Gil e Cúrcuma

    A cúrcuma serve pra escovar os dentes?

    Cúrcuma é uma planta herbácea da família do gengibre, e de sua raiz seca e moída se extrai o pó conhecido como açafrão, utilizado como condimento e corante. Eis que, na opinião da moça, escovar os dentes com açafrão é um ótima ideia, por causa de suas propriedades “antissépticas, antibióticas e anti-inflamatórias”. E o açafrão tem essas propriedades? Sim. Não ele especificamente, mas uma substância que ele contém chamada curcumina. Isso significa que colocar o pó na escova e esfregar os dentes é melhor que usar pasta de dente? Não. Explico.

    A curcumina é tudo de bom, mas o açafrão contém apenas 2% dela. Isso significa que pra se obter curcumina suficiente pra ser proveitada pelo nosso organismo (biodisponibilidade), seria preciso uma quantidade enorme de açafrão… tipo, um caminhão do condimento. A alternativa seria utilizar a curcumina purificada, que tem alto custo (10g = US$ 1,000.00) e não se acha pra vender no mercado… é coisa de pesquisador. Não bastasse a quantidade enorme de curcumina necessária pra fazer alguma diferença na sua utilização como dentifrício, ela é altamenta insolúvel, o que significa que, mesmo que houvesse quantidade suficiente dela, o nosso organismo não a absorveria (a curcumina não entraria nas células). Quem explica isso é a Nanda Moura, que está estudando pra ser dentista e é bióloga, além de mestre em Biologia Celular e Molecular. Ela conta que durante 2 anos teve a oportunidade de trabalhar junto à sua equipe numa pesquisa com o objetivo de desenvolver um nanocarreador capaz de colocar a curcumina dentro de células cancerígenas com o objetivo de destruí-las. Me parece que ela entende do assunto. 😉

    Compreenderam o que isso significa? Que por mais que a curcumina tenha propriedades incríveis, esfregar açafrão em pó nos dentes não beneficia você em nada. É em vão.

    Isso entendido, falemos do flúor.

    Pra que serve o flúor da pasta de dente?

    Vou tentar explicar da forma mais simples possível: o esmalte dos dentes é composto por cristais (hidroxiapatita) que contêm cálcio e fosfato. Esses cristais trocam cálcio e fosfato com a saliva o tempo todo: às vezes eles ganham e às vezes eles perdem. De forma geral há equilíbrio nessa troca, mas quando a boca fica mais “ácida” (e o que deixa a boca ácida é principalmente a ingestão de açúcar), o esmalte perde mais fosfato e mais cálcio do que o normal, o que o deixa mais solúvel, ou seja, mais suceptível à perda de cálcio e fosfato. O nome disso é desmineralização, que é a causa da cárie, em si. Porém quando há flúor presente na saliva, a chance de desmineralização diminui, porque o flúor deixa o esmalte menos solúvel e mais resistente à cárie, portanto. De que forma? Ao favorecer a deposição de cálcio e fosfato nos dentes e ao se ligar ao esmalte formando cristais de fluorapatita e hidroxiapatita fluoretada, mais resistentes que os cristais apenas de hidroxiapatita.

    O flúor presente nas pastas de dente é tóxico?

    Numa segunda publicação no Instagram, Bela Gil disse o seguinte:

    Bela Gil no Instagram

    Segundo a apresentadora, a ingestão do flúor presente nas pastas de dente pode causar um monte de problemas. E ele está certa! A questão é: pastas de dente não foram feitas pra serem ingeridas. Você escova os dentes e cospe, e o que fica é apenas o flúor que interessa, agindo por um certo tempo da forma que eu expliquei anteriormente. Já o flúor adicionado à agua de abastecimento é de fato ingerido e tem papel fundamental na manutenção da concentração de flúor na saliva, mas gente, há normas rígidas de biossegurança quanto a isso. O flúor em excesso é tóxico sim, isso nunca esteve em discussão!

    Experimenta quem quiser!

    Sim! Você é livre pra escovar os dentes com açafrão, com babosa, com água de salsicha. Pra usar pasta de dente com flúor, sem flúor ou nem usar pasta de dente. Bela Gil – que fez questão de frisar que não é dentista – escova os dentes com cúrcuma. É um direito que ela tem. Então qual o problema? Os problemas são dois, a meu ver: a influência desse tipo de publicação e usar experiências pessoais como base pra argumentação. Estou certa de que a apresentadora não esperava que seu post tivesse a repercussão que teve. Mas teve. E assim milhares de pessoas que admiram o trabalho da moça como orientadora alimentar tendem a acreditar, sem questionar, que cúrcuma é melhor que pasta de dente. Bela Gil afirma que só teve cárie uma vez na vida, e quando ainda usava pasta de dente com flúor. Isso prova que a cúrcuma combate cáries ou que o flúor não combate? Não. Considerando que a apresentadora vem de uma família com bom poder aquisitivo, esclarecida e com acesso a meios de prevenção, acho coerente que ela tenha tido uma cárie só. Infelizmente essa não é a regra no Brasil… para o brasileiro comum, pasta de dente com flúor faz muito mais sentido que escovar os dentes com açafrão. Mas experimenta quem quiser.

    Veja também:

    A polêmica da cúrcuma para escovar os dentes no Dicas Odonto

    A cúrcuma ou açafrão serve para escovar os dentes? no Profissão Dentista

    A moda natureba na Odontologia no OdontoDivas


  • 7 dicas pra manter sua escova de dentes livre de bactérias

    7 dicas pra manter sua escova de dentes livre de bactérias

    Bactérias: esses pequenos serzinhos odiados…

    Muita gente acha que bactéria é sinônimo de doença, mas existe uma infinidade de bactérias boas que nos ajudam. Digo mais: sem elas, não poderíamos viver. Mas é fato: certas bactérias realmente transmitem doenças, além de que algumas bactérias, mesmo sendo boas em pessoas sadias, podem ser ruins em organismo debilitados ou com problemas de imunidade. Dessa forma, é bom tomar cuidado com as bactérias que nos cercam. E se existe um “depósito” extracorpóreo de bactérias neste mundo, ele se chama: escova de dentes.

    Você acha que sua escova de dentes está limpa só porque está frequentemente em contato com água e pasta de dentes? Não, engano seu. Coisinhas que você pode encontrar na sua escova de dentes, além de bactérias: coliformes fecais (ela fica no banheiro, lembra?), vírus, restos de comida, sangue e células mortas. Tentando minimizar esse coquetel de nojeiras, seguem algumas dicas pra manter sua escova de dentes livre de bactérias y otras cositas más.

    7 dicas pra manter sua escova de dentes livre de bactérias

    1. Escolha uma escova de dentes simples e eficiente

    Não se deixe levar pelo banho de marketing que as empresas de produtos de higiene bucal dão nos seus produtos. Aquele monte de cerdas coloridas, em vários níveis e orientações, com cabo de sabe-Deus-o-quê e testadas por astronautas geralmente não ajudam em nada, além de muitas vezes atrapalharem. Escolha uma escova simples. Algumas recomendações são básicas, como: cabeça não muito grande (pra chegar em todos os lugares) e cerdas macias (cerdas duras não limpam mais e ainda podem machucar a sua gengiva). Outras caracteríscas podem ajudar, é claro, como um cabo confortável e anti-derrapante. Mas, de forma geral, tendo-se uma escova básica e escovando os dentes dentro da técnica correta, não tem erro. Veja aqui qual a melhor escova de dentes.

    2. Lave sua escova antes e depois de escovar os dentes

    Passe pelo menos uma “aguinha” na sua escova antes de escovar os dentes. Isso já remove uma boa parte das bactérias e sujidades que se acumulam nela. Outra dica nesse sentido é lavar as mãos com água e sabão antes de escovar os dentes. Ai que exageeero, doutora! Pode ser… mas quem nunca passou o dedão nas cerdas da escova de dentes pra ajudar a secá-la – espirrando gotículas de água pra todo lado – que atire a primeira pedra! E não custa nada enxaguar sua escova com um pouquinho mais de atenção depois de escovar os dentes, às vezes se prendem nas suas cerdas restos grandes de alimento ( = comida de bactéria), que podem ser removidos facilmente, além de resíduos de creme dental. Usar enxaguante bucal é uma boa dica pra fazer o enxágue da escova depois de usá-la.

    3. Deixe sua escova longe do vaso sanitário!

    Sabe o que acontece quando você puxa a descarga sem fechar a tampa da privada? Você não é Red Bull, mas dá asas aos coliformes fecais. E eles curtem sua escova de dentes, esteja certo disso. Portanto, pelo menos, ao puxar a descarga, faça isso com a tampa do vaso abaixada. Antigamente as escovas eram guardadas em gabinetes acoplados ao espelho do banheiro, o que ajudava na tarefa de defender sua escova de dentes dos nano-cocôs, hoje esses armários estão em desuso. Pena.

    4. Use um protetor de cerdas pra guardar sua escova

    Sabe aquelas caixinhas que vão encaixadas na cabeça da sua escova de dentes? Tenha uma. Apenas tome o cuidado de escolher uma que tenha “buraquinhos” e que não abafe as cerdas da sua escova, afinal um ambiente úmido é tudo que fungos e bactérias desejam. E, uma vez por dia, lave sua capinha pelamordedeus… aquele limo verde dentro dela não favorece (aliás, favorece… os bichinhos que vivem nele)!

    5. Mantenha as escovas longe umas das outras

    Sabe o que tem mais bactérias que uma escova de dentes? DUAS. Imagine só três, quatro…. Procure não deixar que as cerdas de escovas de outras pessoas se encostem enquanto estão descansando ao lado da pia.

    6. Não compartilhe sua escova de dentes com outra pessoa!

    Não. Nem com a namorada? Não. Nem com o marido? Não. Nem com… NÃO. Escovas dentais são de uso pessoal e intransferível. Assunto encerrado.

    7. Troque sua escova de dentes regularmente

    Não adianta fixar prazos como “de 2 em 2 meses” ou de “de 3 em 3 meses”, cada caso é um caso. A dica que eu dou é: quando as cerdas da sua escova começarem a entortar, troque-a. Tanto faz se você a usa há 2 semanas ou há 3 meses. E não tenha pena de jogar a sua escova de dentes fora… aliás, se ela não for muito cara, vai até ser mais fácil de fazer isso. 😉

    Dadas as dicas, mãos à obra! Sua saúde agradece. 😉


  • Como Escovar a Língua

    Como Escovar a Língua

    Você sabia que a língua saburrosa é uma das principais causas do mau hálito? A saburra é uma substância esbranquiçada composta por restos de alimentos que, ao não serem removidos na escovação, se acumulam sobre a língua. A saburra também contém células mortas que descamam da mucosa bucal e, dessa forma, serve de alimento para certas bactérias que liberam odores. Resultado: b-a-f-o.

    Claro, a saburra não é o único fator que leva à halitose, mas a sua presença é pra lá de indesejável. E eliminá-la é algo relativamente simples: se escovar os dentes elimina a sujeira dos dentes… escovar a língua elimina a sujeira da língua!

    Sim, queridos leitores: a higiene bucal não se restringe a escovar os dentes. A língua (também) foi feita pra ser escovada. E ultimamente esse negócio de escovar a língua anda na moda, o que eu acho ótimo. Você já deve ter percebido que as empresas que vendem produtos de higiene bucal têm investido em produzir limpadores de língua e escovas de dentes com dispositivos que prometem ajudar nessa tarefa. Sobre os limpadores de língua que vêm acoplados nas escovas, esclareço: não são eficazes. Portanto, sua presença não é algo que você deva considerar como importante ao escolher uma escova de dentes.

    Limpadores de língua
    Limpadores de língua: não são essenciais

    Note que eu sempre uso o termo “ESCOVAR a língua”. Sim, a própria escova de dentes é eficaz pra fazer a limpeza da língua. O raspador lingual (veja modelos na imagem) existe para ajudar na remoção da saburra, mas é preciso escovar a língua antes de usá-lo, pois isso garante que os resíduos sejam desorganizados e mais facilmente removidos. Fazendo uma analogia, a escova é o esfregão e o limpador de língua é o rodo… e rodo não limpa nada sozinho, só puxa a água suja. Em resumo: se você quer usar um raspador lingual, use. Mas, de qualquer forma, você terá que escovar a língua antes, porque o raspador, sozinho, não é eficaz.

    Escovar a língua não tem segredo: escove os dentes normalmente e, após enxaguar a boca e a escova (sim, não se usa pasta de dentes pra escovar a língua), coloque a língua bem pra fora vá fazendo movimentos de dentro para fora com a escova, de forma a trazer os resíduos do fundo para frente, como se você estivesse “varrendo” a língua. Enxágue a boca novamente, e pronto.

    Ah… mas dá vontade de vomitar! 

    Uma das justificativas mais usadas por quem não escova a língua é que fazer isso dá ânsia de vômito. E faz sentido. Quem nunca enfiou a escova na garganta e quase chamou o Hugo, que atire a primeira pedra. Mas isso tem uma explicação bem simples: a úvula (a “campainha”) é um apêndice que serve como um alarme de que algo está passando pela garganta, portanto, nosso organismo entende que é hora de fechar as vias respiratórias e, se for preciso, botar o intruso pra fora. Se ao escovarmos a língua encostarmos a escova de dentes na úvula, a chande de vomitar é grande. Portanto, a dica é a seguinte: levante a sua úvula!

    Oi?

    Faça o seguinte exercício em frente ao espelho:

    1. Abra bem a boca e enxergue a sua garganta (consequentemente, a úvula);
    2. Ainda com a boca aberta, feche a sua garganta. Ao fazer isso, a úvula “encolhe” e vai lá pra cima. Ou seja, você antecipou o movimento reflexo que sua garganta faria por conta própria… só que sem  ânsia de vômito.
    Exercício de levantamento de úvula :)
    Exercício de levantamento de úvula 🙂

    Dessa forma, a chance de você acertar a úvula com a escova diminui drasticamente, e você não terá mais ânsia de vômito ao escovar a língua. E a partir de agora, você não tem desculpa: sempre que escovar os dentes, escove a língua também! 🙂

    Com assessoria técnica da Dra. Paula Rollemberg


  • Pasta de dente faz clareamento?

    Pasta de dente faz clareamento?

    Pasta de dente “clareadora”

    Não. Mas vamos por partes.

    Nos últimos tempos as empresas que vendem produtos de higiene bucal lançaram uma infinidade de cremes dentais com sobrenome whitening e enxaguantes bucais que prometem clarear os dentes. Slogans do tipo seus dentes mais brancos em 1 semana inundam os intervalos dos nossos programas favoritos na TV e as prateleiras de farmácias e supermercados. E sem necessidade alguma de comprovação de que isso realmente aconteça…

    Como eu já adiantei na primeira palavra deste texto, pastas de dente não fazem clareamento. E isso por um motivo simples: elas não contém os peróxidos (de hidrogênio ou de carbamida), que são as substâncias que promovem um clareamento dental real. Alguns produtos ainda tentaram, certa época, trazer esses compostos na fórmula… mas a concentração era tão baixa que não fazia nem tchum.

    Bom, então o que é que esses cremes dentais fazem se eles não clareiam realmente os dentes? Nada? Não… eles servem pra alguma coisa sim. Além da função clássica de limpar os dentes, eles removem manchas. E aí é que está a jogada de marketing: essas pastas de dentes não clareiam nada, mas ajudam os dentes a parecerem mais claros ao removerem manchas superficiais de esmalte. É como dar um banho no Cascão e descobrir que ele não era tão ~~bronzeado~~ quanto se achava… 😀

    O problema desses produtos é que, via de regra, eles são bastante abrasivos. Sabe aquele aspecto “arenoso” que algumas pastas de dente têm, às vezes até com pequenas partículas presentes? Então… abrasividade, a grosso modo, é isso. O creme dental ideal é o que apresenta uma relação adequada entre abrasividade e poder de limpeza, ou seja, quanto menos abrasivo e com maior poder de limpeza, melhor. O papel principal dessas pastas é o de “lixar” o esmalte dos dentes, e é assim que manchas extrínsecas (*) superficiais (principalmente se você fuma ou toma muito café) são removidas do esmalte. A questão é que esse “lixamento” promove remoção de tecido dentário, por menos que seja, e em longo prazo pode levar a problemas de sensibilidade dentinária. Existe uma escala que demonstra o grau de abrasividade dos cremes dentais chamada RDA, mas ela não vem explícita nas embalagens. Portanto, pra saber, só entrando em contato com o fabricante mesmo.

    Enfim, o recado é o seguinte: se você quer fazer um clareamento dental, procure um dentista… não há outra forma. Se aventurar por ~~dicas caseiras~~ ou escovar os dentes com ~~pastas clareadoras~~ não vai clarear os seus dentes. No primeiro caso você arrisca a sua saúde, e no segundo caso, no máximo, você vai remover manchas superficiais ou manter o resultado de um clareamento prévio por mais tempo. É isso.

    Quer saber sobre clareamento dental de verdade? Aqui tem um guia pra você tirar todas as suas dúvidas.

    Veja o que o DicasOdonto fala sobre a promessa de clareamento com pasta de dente

    (*) Manchas extrínsecas são aquelas que não fazem parte da estrutura do dente, mas que foram causadas por algum agente externo: corantes presentes nos alimentos e bebidas, a nicotina do cigarro, bactérias cromatogênicas, etc..


  • Se você não tem escova, pasta e fio dental, você não tem higiene bucal.

    Se você não tem escova, pasta e fio dental, você não tem higiene bucal.

    Pois é.

    Na última semana vem circulando um vídeo da Turma do Bem nas redes sociais. A Turma do Bem, pra você que não conhece, é uma OSCIP (Organização da Sociedade Civil de Interesse Público) que tem como missão “…mudar a percepção da sociedade sobre a questão da saúde bucal e da classe odontológica com relação ao impacto socioambiental de sua atividade”. Em resumo: a ideia é promover, sim, o acesso da população ao tratamento odontológico, mas mais que isso: promover orientação em saúde/higiene bucal e influenciar e mudar políticas públicas a esse respeito.  O vídeo que mencionei, que pode ser visto logo abaixo, chama a atenção para um problema em princípio de solução simples: acesso a escova de dentes, pasta e fio dental. Assista:


    Ou assista aqui

    É uma realidade tão distante da nossa que parece um exagero até. Escovas de dente coletivas, pais que resolvem arrancar os próprios dentes (cuja permanência em boca já está, de qualquer forma, comprometida) para “favorecer” os filhos que ainda têm uma chance de manter alguns, gente usando sabão como sabonete e sabonete como pasta de dente, fios dentais “artesanais” fabricados a la MacGyver com pedacinhos de sacolas plásticas. Dá pra acreditar? Pois é.

    Se a parte real do vídeo nos choca (espero que sim, pelo menos), a composta por personagens fictícios nos faz pensar em como nós mesmos nos comportamos diante da realidade. Destaco o político e a socialite… o primeiro por “fazer de conta” que se importa e a segunda pela visão Maria Antonieta que representa: se não tem pão, que comam brioches! 

    Creio que vale a pena divulgar o vídeo, mas não dá pra parar por aí: é preciso cobrar de quem pode fazer alguma coisa a respeito, coisa que a TdB tem procurado fazer. E você, colega, não precisa necessariamente fazer parte da TdB pra entrar na briga. Divulgue o vídeo, vote com consciência, transforme sua indignação em vontade de agir e colaborar na solução do problema. Não dá pra cada dentista sair por aí distribuindo produtos de higiene bucal (não mais do que nós já fazemos), mas é nosso dever valorizar a higiene como método preventivo nos nossos consultórios. E exigir que a classe política não apenas “faça de conta” que se importa, mas aja de forma resolutiva.


  • Nunca Subestime um Dente “Inflamado”

    Nunca Subestime um Dente “Inflamado”

    As pessoas, geralmente, vão ao dentista quando estão com dor. Mas imaginemos uma situação em que você resolve procurar o dentista para uma avaliação de rotina, um check up. Os olhos dos dentistas se encheram de lágrimas de emoção agora… 😉

    Durante o exame clínico o dentista encontra um dente com uma cárie grande. Ele então revela a você que remover a cárie e fazer a restauração não é suficiente: é preciso tratar o canal também. Você se espanta… “mas esse dente não está doendo, pra quê tratar o canal?”. Já expliquei aqui no blog como é que se trata o canal do dente e, principalmente, o porquê.

    O que um dente “inflamado” pode causar?

    Pois bem… o motivo pra tratar um canal é bem mais nobre: eliminar um foco de infecção do seu organismo. Um dente cariado, aberto, quebrado, cheio de tártaro em volta ou aquele “caquinho” de raiz que sobrou e está lá na sua gengiva servem como meio de entrada de bactérias no seu corpo. Muitas vezes a infecção fica por ali mesmo, mas acontece (e não é assim tão raro) de uma bactéria que costuma viver apenas nas nossas bocas aparecer em outros lugares do nosso organismo, provocando grandes danos:

    • No coração: pessoas que possuem doenças cardíacas congênitas (ou não) têm mais risco de desenvolver uma infecção grave, a endocardite bacteriana. A endocardite é causada pela bactéria Streptococus viridans, que se instala em certas áreas do coração.
    • Nas articulações: quando certas bactérias bucais se disseminam pela corrente sanguínea e atingem as articulações, podem causar uma doença chamada reumatismo articular agudo (artrite séptica), que causa muita dor e restrição de movimentos.
    • Nos pulmões: embora seja menos frequente, bactérias aspiradas pela boca podem infeccionar os pulmões e a faringe, causando até pneumonia.
    • Nos rins: as bactérias bucais que chegam aos rins podem causar nefrite, que é inflamação dos rins. Essa condição, por sua vez, é a causadora de inúmeros outros problemas renais.

    E como as bactérias chegam em partes diferentes do nosso corpo? Pegando uma carona na corrente sanguínea, já que o sangue circula pelo corpo todo. Espertinhas, né?! Veja na ilustração abaixo:

    Sangue = transporte público de bactéria

    Então preste atenção!

    • Um dente contaminado por bactérias é uma bomba relógio pronta para explodir.
    • Nunca subestime um dente “inflamado” / infeccionado, por mais que o problema pareça banal e que “dá pra deixar pra depois”. Já teve gente que morreu disso.
    • Higiene bucal não é frescura. É fundamental, diminui o número de bactérias ruins na sua boca e evita doenças. Aprenda a escovar os dentes!
    • Não ache estranho quando o dentista medica você e marca a extração daquele seu dente dolorido para outro dia. Não é preguiça de trabalhar, não… muitas vezes é preciso controlar a infecção antes para que o procedimento não coloque sua vida em risco.
    • Não pense que tratamentos de canal, restaurações e extrações só servem para fazer o dente parar de doer.

    E se depois de tudo o que eu disse você ainda não acredita em mim, veja essa reportagem do Globo Repórter:


    Ou assista aqui


  • Por que EU tenho cáries e ELE não?

    Por que EU tenho cáries e ELE não?

    Ótima pergunta!

    Aposto que você, colega dentista, já perdeu algumas horinhas escutando lamúrias de pacientes que juram que escovam os dentes direitinho mas, mesmo assim, têm cáries. Não que eu duvide disso… mas escovar os dentes direitinho e ter muitas cáries não combina, sabe? Das duas uma: ou você não está fazendo direito ou você não está fazendo.

    Mas, algumas vezes, a questão está na comparação. Dia desses ouvi: “Poooooxa, eu escovo sempre os os meus dentes e ainda assim tenho cáries. Fulano não sabe reconhecer uma escova de dentes se vir uma e nunca teve cárie…”. Acontece. Tem gente que tem preguiça de escovar os dentes, aliás, MUITA gente. Mas realmente, isso não quer dizer que essa pessoa terá mais cáries do que as outras. E existem alguns motivos pra isso.

    A cárie é uma doença (sim, doença) multifatorial. Isso significa que ela não tem uma causa única, mas é fruto de uma combinação de fatores. Pra ela acontecer precisamos de 4 coisas: um dente (oh!), bactérias, comida para as bactérias e tempo (porque cárie não se forma de um dia para o outro).

    Vários fatores a se considerar…
    1. O dente: pode ser qualquer um, tanto faz se de cima ou de baixo. Os locais onde mais aparecem cáries são aqueles mais difíceis de limpar ou onde a comida “pára”. Entre os dentes, em lugares mais profundos e sulcados, etc..
    2. As bactérias: toda bactéria que produz ácidos ajuda na tarefa, mas o nome do grande vilão é Streptococcus mutans. O S. mutans é uma bactéria comum na boca e nos é transmitido, quase sempre, pelos nossos pais… mamãe, principalmente. Como? Beijinhos inocentes, assoprar a comida pra esfriá-la, compartilhar copos e talheres… é.
    3. Comida de bactérias: pode-se dizer, guardadas as devidas proporções, que as bactérias comem o que você come. E, assim como você, adoram doces. Evitar guloseimas é o grande desafio de quem quer evitar cáries. As bactérias pegam o açúcar, fermentam-no e liberam ácidos na nossa boca. Daí pra começarem a aparecer os “buraquinhos”… é um pulo.
    4. Tempo: quanto tempo leva pra uma cárie se formar? Depende, mas certamente não é de um dia para o outro. Ou seja: não é porque você deixou de escovar os dentes 1 dia que você terá cáries. Já se a “falta de memória” for recorrente…

    Só isso? Não. Os 4 elementos acima têm que estar presentes, mas existem outros fatores que predispõem ou não alguém a ter cáries. A saliva possui uma propriedade chamada capacidade tampão, que é a de manter o pH (a acidez) bucal em um padrão mais ou menos constante. Há “salivas” que são melhores e “salivas” que são piores nessa tarefa. Tem a genética. Tem a “sorte”. E a cereja do bolo fica por conta da higiene bucal… escova e pasta de dentes, se bem usadas, não dão chance pra cárie alguma!

    Concluindo e respondendo à pergunta: Por que EU tenho cáries e ELE não? Pense nas variáveis… pode ser que fulano escove menos os dentes, mas quando o faz sabe fazê-lo; pode ser que você tenha S. mutans na sua flora bucal e beltrano não; pode ser que você coma muito açúcar e sicrano não seja muito chegado… enfim, combinações não faltam. Por via das dúvidas, seja pessimista: escove os dentes direitinho e não conte com a sorte. 😉

    Leia também: Por que algumas pessoas têm cáries mesmo cuidando bem dos dentes? (texto com o qual eu não concordo por completo – principalmente com a afirmação de que pessoas com higiene bucal excelente podem ter cáries recorrentes – mas vale pela curiosidade).


  • Bochechos: 5 Razões para Não Utilizá-los Sem Indicação

    Bochechos: 5 Razões para Não Utilizá-los Sem Indicação

    Ontem tivemos uma introdução com relação aos bochechos. Hoje, veja as razões pelas quais não utilizá-los sem a indicação do seu cirurgião-dentista:

    Podem causar o desequilíbrio da ecologia bucal

    Da mesma forma que há uma flora intestinal, há uma flora bucal. Por increça que parível, a maioria das bactérias da nossa boca são benéficas, ou não causam mal se não forem perturbadas. Algumas bactérias protegem a nossa boca de outros tipos de infecções, inclusive contra protozoários, ou fungos que estão no ar, águas e alimentos. E podem ter certeza, infecções fúngicas são muito mais preocupantes e difíceis de serem tratadas que a maioria das infecções bacterianas. As bactérias da nossa flora bucal são também responsáveis pelo auxílio da digestão ao quebrarem algumas proteínas e açúcares.Cada pessoa possui centenas de diferentes espécies de bactérias na boca que vivem em equilíbrio. Porém esse equilíbrio pode ser quebrado caso cresçam demais.”E quando isso acontece???”

    Quando você deixa de escovar e usar o fio dental, homem de Deus! Ou, ainda, pode ocorrer o desequilíbrio com o uso de antibióticos e bochechos em exagero.

    Podem mascarar a principal causa de um mau hálito

    Os bochechos são muitas das vezes utilizados para melhorar o hálito e dar aquela sensação de beijo ardente, aquele frescor de higiene e limpeza. O problema que quando alguém tem mau hálito, não adianta fazer bochecho. É a mesma coisa de não tomar banho e usar perfume! Talvez pior… e saiba que problema de mau hálito não é doença, mas algumas vezes é causado por doenças que nem sempre doem.

    Álcool pra quê, me diga?!

    O álcool que se utiliza na maioria dos produtos chega até a 12%, com exceção do produto X que deixou de indicar a quantidade de álcool no rótulo para não assustar, pois varia de 21 a 27%. Muitas pessoas pensam que justamente por ser forte, mata mais bactérias. O álcool a 12% ou 27% não mata bactérias, mas é suficiente para desidratar as células epiteliais e causar a sensação de ardência e frescor prolongada. Coloque álcool 20% na pele e vai sentir um frescorzinho causado pelo ressecamento da pele. Algumas empresas sabem que algumas pessoas precisam disso para terem a (falsa) sensação de limpeza e estimulam-nas a se acostumarem desde jovem com essa (falsa) sensação, a ponto de não acreditar mais que a boca está limpa de verdade após “apenas” o uso de fio dental e escovação. Álcool precisa ter valores acima de 50-60% de álcool para matar bactérias.”Então aqueles 20% de álcool não servem para matar os germes maus da boca?”

    Aaahhh… Que pena… Entaumm, num servem, nãummmm!

    Inclusive se a pessoa tiver acabado de fazer um piercing na língua e usar o produto X, ao ressecar as células, atrasará a cicatrização.

    E mais um alerta: alguns estudos lá fora e no Brasil demonstraram um maior risco de câncer bucal em pessoas que fazem uso contínuo de bochechos com álcool. Provado, não está, mas se já há fortes indícios com estatística… Eu não arrisco a minha boca! Nem dos meus pacientes…

    Unidos venceremos

    Imaginem um vaso sanitário. Imaginaram? É comum pensar em um banheiro limpinho. Vou ser estraga-prazeres e vamos pensar que esse vaso sanitário, ficou alguns dias sem ver limpeza. hmmmm.. 🙂 Sabe aquela crostinha? Mas o quê que isso tem a ver com boca?!! Bom, tudo isso que se formou, como um LODO é chamado, pelos biólogos, de biofilme – uma película viva de micro-organismos que se unem e juntam forças. Os dentistas e biólogos descobriram que esses biofilmes são iguaizinhos em estrutura, apesar de espécies diferentes da placa bacteriana nos dentes e língua. E daí?Bom vamos começar a limpar tudo então pra acabar com essa bagunça! Primeiro jogue todos os detergentes que você conhece no vaso. Depois , sem usar aquele esfregão, dê a descarga no vaso. Repita quantas vezes quiser. Veja se limpou. Não limpou, né? Você acha que esses produtos que vão na nossa boca são mais ou menos fortes do que esses que vocês vão jogar para limpar o vaso?

    Agora sem produto nenhum, passe um esfregão uma única vez por dia e dê descarga. O que vai acontecer? Limpo novamente! Tudo limpo de novo! Incrível, não?! Os biofilmes são 1000x mais fortes a antibióticos que bactérias livres, não unidas em biofilmes e só podem ser removidos mecanicamente. Quer fazer um teste em sua boca? Melhor não… 😉

    Seja responsável! Pense no verde e no amanhã!

    Onde você pensa que vão parar todos esses produtos que você cospe no dia a dia? Boa parte nos rios, lagos, mar. Imagine se todo mundo usa uma pasta com antimicrobiano, um bochecho com antimicrobiano… é o velho exemplo do uso racional do antibiótico. E qual dos dois é mais utilizado no dia a dia? Antibióticos, ou bochechos? E a questão da resistência bacteriana? O triclosan, principal produto antimicrobiano do Colgate 12 e de alguns bochechos não é biodegradável e já foi encontrado em peixes de lagos da Inglaterra e Suíça e começam a ser encontradas bactérias resistentes ao triclosan.

    Veja também: Bochechos: Quanto mais forte, melhor! Verdade ou mito?


  • Bochechos: Quanto mais forte, melhor! Verdade ou mito?

    Bochechos: Quanto mais forte, melhor! Verdade ou mito?

    É da nossa rotina escutar perguntas dos pacientes como:

    “Qual a melhor pasta?“, “Qual a melhor escova?“, “O que é melhor: fita, ou fio?“, “Qual o melhor bochecho?” etc..

    E sempre temos a falsa percepção do “melhor”. Como assim melhor? Melhor pra quê? Até mesmo quando se discute quem foi o melhor jogador de futebol, os argentinos falam de pronto: “Maradona!“. Deixa quieto… Melhor pra eles.  😉

    O que gostaria de colocar, inicialmente, é o seguinte: esqueçam a palavra “melhor”.

    Bochecho…

    Os bochechos, ou colutórios, ou ainda soluções antimicrobianas, ou antissépticos bucais (é bom parar antes de complicar mais ainda esse nome!) são líquidos com ação terapêutica, ou seja, com função de tratar doenças, apesar de serem aceitos pelo Ministério da Saúde e ANVISA e vendidos como simples cosméticos. E com isso fica a pergunta: Se possuem ação terapêutica contra doenças, por que são vendidos como cosméticos?!

    As principais ações terapêuticas dos bochechos na Odontologia são basicamente:

    • Ação anti-cárie: geralmente possuem flúor.
    • Ação anti-tártaro: possuem pirofosfato/ortofosfato de alguma coisa que são substâncias que precipitam os sais de cálcio e fosfato da saliva antes que formem aquelas pedras e em alguns casos, verdadeiras muralhas de tártaro nos dentes.
    • Ação dessensibilizante: possui um produto que auxilia no fechamento de pequenos canais que ligam a parte externa do dente ao seu “nervo”. Geralmente um nitrato de potássio.
    • Ação anti-placa (placa bacteriana): são aqueles que possuem um ou mais antimicrobianos (substâncias que matam germes). Triclosan, cetilpiridínio, clorexidina, fluoreto estanhoso, eucaliptol, mentol, timol, salicilato de metila, são algumas.
    Produtos químicos

    “Nossa quanto nome de produto químico esquisito, né? Dá até medo!“

    “Pois é, mas tem tanta propaganda tão bonitinha, tão legal e divertida, e mata as bactérias que são más. Não tem?“

    Ter, tem, mas uma coisa é a realidade e outra, a didática da propaganda. Tem umas empresas que até contrataram “pesquisadores” do grupo Caçadores de Mitos (MythBusters) para “provar” que só o produto X limpa de verdade ou até umas propagandas nos EUA de que esse produto X chega a ser melhor que fio dental!!! Fora alguns abusos desse produto X ao mostrar o tanto que é bom beijar depois de usá-lo. Apelo muito bom para assediar jovens e aumentar a “indicação” do produto X.

    Essas empresas estão preocupadas em vender e precisam disso para sobreviver, eu sei. E com certeza há muitos produtos bons de algumas delas. Entretanto é bom ter cuidado com o exagero e vale a pena dizer  que poucas pesquisas com bochechos se baseiam na realidade do dia-a-dia do paciente, com isso, muitas possuem conclusões exageradas.

    Isso quer dizer que não se pode utilizar bochechos? Não! Com certeza não! Mas não deveria ser utilizado indiscriminadamente, assim como os antibióticos.

    Eu sei que alguns virão criticar, porém é fácil provar por A+B que não há como dar segurança no uso desses produtos para uso contínuo. Sendo que há riscos, inclusive de agravamento de algumas doenças bucais, principalmente gengivais, caso o produto seja utilizado de forma inadequada e sem acompanhamento odontológico adequado.

    E seria verdadeiramente necessário matar tanta bactéria diariamente?

    Arde!

    Como o assunto é extenso, amanhã apresentaremos algumas razões do porquê de não utilizar bochechos sem orientação odontológica. Não perca!