Tag: dentista

  • Acidentes com material biológico (perfurocortante) em Odontologia

    Acidentes com material biológico (perfurocortante) em Odontologia

    A exposição do cirurgião-dentista a material biológico (sangue ou outros líquidos orgânicos) pode resultar em infecção por HIV, pelos vírus das hepatites B e C e outros vírus / bactérias. Esse tipo de exposição pode ocorrer através de ferimentos com agulhas, material ou instrumentos cortantes, assim como pelo contato direto de sangue ou fluidos com mucosas e pele não-íntegra. O fato é: dá prevenir, porque a melhor profilaxia para a exposição ocupacional com material biológico é o respeito às normas de biossegurança.

    Quanto aos fatores de risco para a ocorrência de infecção, tudo depende de:

    • Patogenicidade do agente infeccioso
    • O volume e o material biológico envolvido
    • A carga viral/bacteriana da fonte de infecção
    • A forma de exposição
    • A susceptibilidade do profissional de saúde

    No caso da Hepatite B e C, o sangue é o veículo de transmissão mais importante, mas o vírus também pode ser transmitido, com menor chance, via sêmen, secreção vaginal, leite materno, líquido cefalorraquidiano, líquido sinovial, lavados nasofaríngeos e saliva. Já no caso do HIV, sangue e fluidos são veículos de transmissão importantes.

    Considerando tudo isso, é essencial ter cuidado com o manuseio de material perfurocortante no exercício da Odontologia. A saber:

    • Ter máxima atenção durante a realização de procedimentos invasivos
    • Jamais utilizar os dedos como anteparo durante a realização de procedimentos que envolvam material perfurocortante
    • Nunca reencapar, entortar, quebrar ou desconectar a agulha da seringa
    • Descartar agulhas, scalps, lâminas de bisturi e vidrarias, mesmo que estéreis, em recipientes rígidos
    • Utilizar os EPIs próprios para o procedimento a ser realizado
    • Usar sapatos fechados de couro ou material sintético

    Não reencape agulhas

    Ok. Você fez tudo direitinho mas, mesmo assim, acabou se cortando ou furando. Nesse caso, são procedimentos recomendados pós-exposição a material biológico:

    • Após exposição em pele íntegra, lavar o local com água e sabão ou solução antisséptica com detergente (PVPI, clorexidina) abundantemente. O contato com pele íntegra minimiza a situação de risco
    • Nas exposições de mucosas, deve-se lavar exaustivamente com água ou solução salina fisiológica
    • Se o acidente for percutâneo, lavar imediatamente o local com água e sabão ou solução antisséptica com detergente (PVPI, clorexidina). Não fazer espremedura do local ferido, pois favorece um aumento da área exposta
    • Não devem ser realizados procedimentos que aumentem a área exposta, tais como cortes e injeções locais. A utilização de soluções irritantes (éter, hipoclorito de sódio) também está contra-indicada.

    Em seguida, é preciso avaliar o tipo de acidente, com base na anamnese do paciente, sua caracterização, análise do risco, notificação do acidente e orientação de manejo e medidas de cuidado com o local exposto. A exposição ocupacional a material biológico deve ser avaliada quanto ao potencial de transmissão de HIV, HBV e HCV com base nos seguintes critérios:

    • Tipo de exposição
    • Tipo e quantidade de fluido e tecido
    • Situação sorológica da fonte (paciente)
    • Situação sorológica do acidentado (você)
    • Susceptibilidade do profissional exposto

    O paciente deverá ser avaliado quanto à infecção pelo HIV, Hepatite B e C, no momento da ocorrência do acidente. Será necessário realização de exames diagnósticos. Caso haja recusa ou impossibilidade de realizar os testes, deve-se considerar o diagnóstico médico, sintomas e história de situação de risco para aquisição de HIV, HBC e HCV. Quando a fonte é desconhecida, é necessário levar em conta a probabilidade clínica e epidemiológica de infecção pelo HIV, HCV, HBV (prevalência de infecção naquela população, local onde o material perfurante foi encontrado (emergência, bloco cirúrgico, diálise), procedimento ao qual ele esteve associado, presença ou não de sangue, etc..

    Quando não houver informações sobre a fonte, o setor médico do hospital procurado orientará sobre a realização de quimioprofilaxia. A exposição ocupacional ao vírus HIV deve ser tratada como emergência médica, uma vez que a quimioprofilaxia deve ser iniciada o mais precocemente possível, quando indicada, idealmente até duas horas após o acidente e, no máximo, até 72 horas.

    Situação sorológica do acidentado (dentista):

    • Verificar realização de vacinação para hepatite B
    • Comprovar a imunidade através do Anti-HBs
    • Realizar sorologia do acidentado para HIV, HBV e HCV

    Manejo frente ao acidente com material biológico:

    • Paciente-fonte HIV positivo: um paciente-fonte é considerado infectado pelo HIV quando há documentação de exames Anti-HIV positivo. Conduta: análise do acidente e indicação de quimioprofilaxia anti-retroviral
      (ARV).
    • Paciente-fonte HIV negativo: envolve a existência de documentação laboratorial disponível e recente (até 60 dias para o HIV) ou no momento do acidente, através do teste convencional ou do teste rápido. Não está indicada a quimioprofilaxia antiretroviral.
    • Paciente-fonte com situação sorológica desconhecida: um paciente-fonte com situação sorológica desconhecida deve, sempre que possível, ser testado para o vírus HIV, depois de obtido o seu consentimento, deve-se colher também sorologia para HBV e HCV.
    • Paciente-fonte desconhecido: na impossibilidade de se colher a sorologia do paciente-fonte ou de não se conhecer o mesmo (por exemplo, acidente com agulha encontrada no lixo), recomenda-se a avaliação do risco de infecção pelo HIV, levando-se em conta o tipo de exposição, dados clínicos e epidemiológicos.

    Indicação de Profilaxia Pós-Exposição (PPE)

    Quando indicada, a PPE deverá ser iniciada o mais rápido possível, preferencialmente, nas primeiras duas horas após o acidente. A duração da quimioprofilaxia é de 28 dias. Atualmente, existem diferentes medicamentos anti-retrovirais potencialmente úteis, embora nem todos indicados para PPE, com atuações em diferentes fases do ciclo de replicação viral do HIV.

    Para mulheres em idade fértil deve-se oferecer o teste de gravidez para aquelas que não sabem informar sobre a possibilidade de gestação em curso. Na dúvida sobre o tipo de acidente, é melhor começar a profilaxia e posteriormente reavaliar a manutenção ou mudança do tratamento.

    É impossível afirmar que o profissional ou aluno se infectou em serviço se o acidente ocupacional não for devidamente notificado, portanto, medidas que viabilizem esse procedimento devem ser implementadas em todos os serviços de saúde.

    Via Manual de Biossegurança CESMAC


  • Atestados, prescrições e pedidos de exames de dentistas não podem ser recusados

    Atestados, prescrições e pedidos de exames de dentistas não podem ser recusados

    E empregadores, farmácias, convênios, laboratórios, etc. sabem disso… só fazem de conta que não sabem! Esses documentos têm validade garantida juridicamente e valem tanto quanto os assinados por qualquer médico.

    Atestados

    Atestados de dentistas não podem ser recusados. Tá na Lei 5081 de 1966. Mas mesmo assim, tem RH querendo treta. Seu chefe não aceitou o atestado do seu dentista e descontou de você? Denuncie na Delegacia Regional do Trabalho.

    Prescrições e receitas

    Segundo a mesma lei, dentistas têm o direito de prescrever e aplicar especialidades farmacêuticas. Medicações de urgência, antibióticos… ansiolíticos se houver necessidade no atendimento. O cirurgião-dentista pode prescrever qualquer classe de medicamentos que tenha indicação comprovada em Odontologia, inclusive os de uso controlado, como antidepressivos. Se o balconista da farmácia não quiser vender, mostra a lei pra ele. 🙂

    Pedidos de exames

    Operadoras de Planos Odontológicos ou MÉDICOS (sim) não podem recusar pedidos de exame feitos por dentistas. Segundo a Súmula Normativa número 11 da Agência Nacional de Saúde Suplementar é ilegal que planos de saúde só aceitem documentos com carimbo do CRM (Conselho Regional de Medicina).

    Fiquem de olho e não deixem que interfiram nos direitos de vocês! 😉


  • O que é aumento de coroa clínica?

    O que é aumento de coroa clínica?

    Aí você foi ao dentista e ele(a) informou que você precisa fazer uma cirurgia chamada aumento de coroa clínica. Você não entendeu nada e veio procurar na Internet o que isso significa, afinal você só queria restaurar aquele dente que quebrou perto da gengiva… pra que cirurgia?

    Pra entender a necessidade dessa pequena cirurgia gengival, primeiro vamos compreender o conceito de…

    Espaço Biológico Periodontal

    O espaço biológico periodontal é uma região que fica entre a base do sulco gengival e o topo da crista óssea alveolar, tendo de 2 a 3 mm. É importante que, ao se restaurar um dente ou fazer uma coroa, esse espaço seja respeitado, pois disso depende a saúde da gengiva. Não dá pra simplesmente “enfiar” uma restauração num dente quebrado abaixo da linha da gengiva e achar que vai ficar tudo bem, porque não vai. Antes do dente ser restaurado é preciso recuperar o espaço biológico.

    Espaço biológico
    Espaço biológico periodontal

    Isso entendido, é possível explicar…

    O que é aumento de coroa clínica?

    É uma cirurgia (geralmente) que precisa ser feita pra recuperar o espaço biológico periodontal. Só que o aumento de coroa clínica não é uma cirurgia específica, mas uma série de possíveis procedimentos de levam à recuperação do espaço biológico (aqueles 2 a 3 mm entre a margem da restauração ou coroa até o topo da crista óssea). Cada caso é um caso, então é preciso avaliar cada situação separadamente pra se decidir qual estratégia será usada.

    Quais os tipos de aumento de coroa clínica?

    A recuperação do espaço biológico pode exigir vários tipos de procedimentos. Pode ser necessário remover só gengiva, pode ser necessário remover gengiva e um pouco de osso em volta do dente e, ainda, o dente pode ser “puxado” pra fora da gengiva com aparelho ortodôntico. Às vezes a osteotomia (remover osso em volta do dente) é contraindicada por questão estética, e isso é comum em dentes anteriores, por exemplo. Nesse caso, em vez de remover osso e gengiva, pode-se fazer a extrusão ortodôntica do dente / raiz. Durante o processo de extrusão (quem faz isso é o ortodontista), o periodontista realiza sessões de fibrotomia e raspagem, com o objetivo de manter a margem gengival e a crista óssea em suas posições.

    Em resumo, as técnicas de aumento de coroa clínica são:

    • Gengivectomia
    • Gengivectomia + osteotomia
    • Reposicionamento apical de retalho
    • Cunha distal
    • Tracionamento ortodôntico.

    Não é uma questão de escolher entre essas técnicas, mas de indicação. Seu dentista vai explicar pra você qual delas é a mais indicada no seu caso.

    Veja também:

    Espaço Biológico – O que é isso? no DicasOdonto 

    Excelente vídeo demonstrativo – Periodontia – Aumento de Coroa Clínica no Ortoblog 


  • Bichectomia: a cirurgia que reduz as bochechas

    Bichectomia: a cirurgia que reduz as bochechas

    Já ouviu falar em bichectomia? É a “cirurgia da moda” pra quem quer o rosto mais fino e as maçãs do rosto bem marcadas.

    O que é bichectomia?

    Bichectomia é o nome popular de uma cirurgia plástica chamada lipoplastia facial. Consiste na remoção do corpo ou coxim adiposo da bochecha, as bolas de Bichat. Esses acúmulos de gordura nas bochechas inicialmente receberam o nome do anatomista francês que os descreveu pela primeira vez, em 1802, Marie François Xavier Bichat.

    Pra que servem as bolas de Bichat?

    Essa gordura nas bochechas tem várias funções. Quando ainda somos bebês, ela auxilia na sucção durante a amamentação. Já em adultos, serve como proteção de estruturas nobres da face (nervos, vasos sanguíneos, etc.). Como a bola de Bichat fica entre os músculos da bochecha, outra função importante é evitar o atrito entre esses músculos (músculo masseter e músculo bucinador).

    Qual o objetivo de remover as bolas de Bichat?

    Em princípio, estético. Algumas pessoas têm mais gordura na face e outras menos. Nas pessoas que têm mais, o formato do rosto pode ficar arredondado, e essa é uma gordura difícil de perder quando se emagrece, pois é uma das últimas a serem consumidas pelo organismo. A pessoa emagrece e continua com o rosto redondo…

    Mas nem todo mundo tem o rosto “largo” por causa das bolas de Bichat… pessoas com rostos mais retangulares, por exemplo, podem ter o músculo masseter mais desenvolvido. Nesse caso, o tratamento pode envolver a aplicação de toxina botulínica (botox), e não a bichectomia. Já a “papada” (aquela gordurinha embaixo do queixo) também pode dar um aspecto arredondado ao rosto, e aí o tratamento costuma ser a lipoaspiração. No caso de flacidez, o lifting facial pode ser considerado em conjunto com a bichectomia.

    Outra indicação dessa cirurgia é quando a bochecha invade a área dos dentes e, recorrentemente, a pessoa acaba se mordendo e se machucando. A remoção desse corpo adiposo diminui as bochechas por dentro também, e aí a pessoa não se morde mais.

    Então, não se faz bichectomia só porque o paciente quer… são necessários o diagnóstico correto e a indicação adequada.

    Angelina Jolie antes e depois da bichectomia
    Angelina Jolie antes e depois da bichectomia

    Quais as consequências dessa cirurgia na velhice?

    Você já notou que, quanto mais velhos, menos bochechudos ficamos (a não ser em pessoas que engordaram muito com a idade, claro)? Pois é. Nas crianças as bolas de Bichat são maiores, sendo que elas diminuem de tamanho conforme a idade. Há uma tendência de ficarmos com o rosto flácido com o envelhecimento, o que é normal e esperado, mas é essencial ter em mente que a remoção da gordura da face na juventude pode colaborar com esse processo no futuro. Portanto, o cirurgião deve estar atento à quantidade de gordura a ser removida e o(a) paciente tem que pensar direitinho se quer mesmo fazer uma bichectomia, pra não ter que acabar fazendo preenchimento facial quando for mais velho(a).

    Dói? Como é a recuperação?

    A cirurgia não dói, pois é feita sob anestesia local. O pós-operatório é parecido com o de uma cirurgia de extração dos sisos. Algumas pessoas sentem mais dor, outras menos, mas todo mundo sobrevive. 😉

    A bichectomia é uma cirurgia relativamente simples, feita sob anestesia local. Mas mesmo assim, ainda é uma cirurgia, e tem que ser feita com indicação e por um cirurgião que realmente domine a anatomia da região. Como em toda cirurgia, pode haver complicações, sendo as mais comuns sangramentos persistentes e infecção.

    É essencial que o cirurgião observe a íntima relação das fibras terminais do nervo facial com a região da cirurgia, pois essas terminações são responsáveis pela movimentação dos músculos bucinador e orbicular dos lábios… qualquer descuido pode ter consequências sérias, como a assimetria da face e do sorriso, além da dificuldade no selamento labial do paciente.

    Quero fazer bichectomia. Que profissional eu procuro?

    Um cirurgião-dentista ou cirurgião plástico.

    Há controvérsias sobre se dentistas podem ou não realizar cirurgias de bichectomia por causa do seguinte artigo da resolução 003/1999 do CFO e 1536/1998 do CFM, que diz:

    Art. 2°. É da competência exclusiva do médico o tratamento de neoplasias malignas, neoplasias das glândulas salivares maiores (parótida, submandibular e sublingual), o acesso pela via cervical infra-hioídea, bem como a prática de cirurgia estética, ressalvadas as estéticas funcionais do aparelho mastigatório que é de competência do cirurgião-dentista.

    Note que ao dentista é vedado fazer cirurgia puramente estética. A questão é que a lipoplastia facial é apenas mais uma cirurgia estética dentre tantas outras que o cirurgião-dentista já faz… e quanto às outras ninguém discute (exemplo: plástica gengival). A área de atuação do dentista é: limite frontal = do osso hióide até a inserção do cabelo / limite lateral = de tragus a tragus, inclusive estruturas do sistema estomatognático). A incisão da bichectomia, além de respeitar esses limites, é feita por dentro da boca, portanto faz parte da área de atuação do cirurgião-dentista.

    Isso esclarecido, o artigo garante “ressalvadas as estéticas funcionais do aparelho mastigatório”. Uma das indicações da cirurgia de bichectomia, como esclareci anteriormente, é naqueles casos em que o paciente morde a bochecha por dentro recorrentemente. Essa é uma questão estética e funcional do aparelho mastigatório, concordam?

    Outra situação que ocorre: o uso do corpo adiposo da bochecha para o fechamento de comunicações buco-sinusais (comunicação não desejada entre a boca e o seio maxilar, um “canal” que passa a ligar essas duas regiões anatômicas e que não deve existir. Isso às vezes acontece na extração de dentes superiores). Há alguma razão pra que um cirurgião-dentista não use as bolas de Bichat pra fechar uma fístula buco-antral? Não vejo nenhuma.

    Portanto, considerando as resoluções a respeito e o profundo conhecimento anatômico facial inerente à formação do cirurgião-dentista, não vejo qualquer impedimento para que dentistas realizem cirurgias de bichectomia. Claro, há quem discorde, mas enquanto isso inúmeros cirurgiões-dentistas vêm fazendo esse tipo de procedimento no Brasil todo, sem qualquer impedimento legal.

    Leia também: 

    Bichectomia: a bola da vez no Vida de Dentista

    Bichectomia – Cirurgia para reduzir as bochechas no DicasOdonto

    O Que é Bichectomia – Saiba Agora! no Ortoblog

    Antes e depois: 15 famosas que fizeram bichectomia e você nem percebeu no Blog do Dentista

    Bichectomia: O que é? Quanto custa? no Ortodontia para Todos

    Bichectomia – cirurgia plástica da bochecha no Profissão Dentista


  • Como Limpar Sua Dentadura

    Como Limpar Sua Dentadura

    Taí uma pergunta que de vez em quando me fazem e que vale um post exclusivo pra respondê-la: “Dra., como é que limpo minha dentadura?”. Não tem segredo, mas vale dar algumas dicas. Essas dicas valem para próteses removíveis de forma geral, parciais ou totais (entenda a diferença entre esses tipos de prótese aqui: Prótese em Odontologia: Um Guia).

    Higienize sua prótese após cada refeição, da mesma forma que faria se tivesse os dentes.

    Escova para dentadura
    Escova para dentadura

    Siga os passos:

    1. Remova a prótese e CUIDADO onde você a coloca. É bem nessa hora que acontece a maioria dos acidentes que levam à quebra da prótese, quando ela cai no chão ou dentro da pia, mesmo. Deixe-a dentro da pia com um pouco de água, por exemplo, ou num copo (não um copo na beira da pia, mas dentro dela, pra diminuir a chance de acidentes). Outra dica é colocar uma toalha dentro da pia, assim, se a prótese cair, a tolha vai amortecer o impacto.
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    2. Use uma escova macia. Pode ser escova de dentes? Até pode… mas não precisa ser. O importante é que seja uma escova macia. Existem escovas próprias pra limpeza de próteses (veja a foto, acima), sugiro que você adquira uma. Essas escovas, que podem ser compradas na farmácia, têm cabo anatômico e cerdas com as pontas arredondadas, e têm 2 lados: um lado com mais cerdas pra limpeza da parte de fora da prótese e outro lado com menos cerdas pra limpar a dentadura por dentro.
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    3. Escove sua prótese usando pasta de dentes não-abrasiva (as abrasivas podem riscar a dentadura, o que a deixa feia com o passar do tempo e facilita a retenção de resíduos alimentares) ou, simplesmente, sabão neutro.
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    4. Enxágue a prótese em água corrente. Não use água quente, pra não correr o risco de deformá-la e ela perder a adaptação à sua boca.
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    5. Confira se você limpou direito! Se precisar, escove e enxágue novamente.
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    6. Pelo menos 1 vez por semana deixe sua prótese num copo d’água com 2 gotas de água sanitária durante 30 minutos. Enxágue BEM pra tirar o gosto de Quiboa. 🙂 Uma alternativa (mais cara) é usar pastilhas efervescentes pra fazer essa higienização semanal. A vantagem é que fica um gostinho de menta depois. Você pode escovar a prótese com a solução efervescente, também.
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    7. Coloque a prótese novamente. Mas antes, faça um bochecho com água ou enxaguante bucal e massageie a sua gengiva com uma escova de dentes macia. Lembre-se, ela agora está limpinha… sua boca deve estar limpa pra recebê-la, também.

    O vídeo abaixo, da Dra. Lilian Guedes, ajuda a entender:

    Precisa tirar a prótese pra dormir?

    Eu não diria que é obrigatório, mas é o ideal. A questão é que muita gente tem vergonha ou não se sente confortável em tirar a dentadura… nem pra dormir. Uma vez fiz uma prótese total superior para uma senhora e, quando recomendei que ela dormisse sem, ela me afirmou ser impossível, já que o seu marido não sabia que ela usava prótese e, assim, ele descobriria. Pois é. Num caso – surpreendente – como esse…

    De qualquer forma, é importante remover a dentadura pra dormir para que os tecidos bucais não fiquem sob a ação da prótese e, também, pra diminuir a proliferação de microrganismos. Dormir com a dentadura pode levar à diminuição da sua estabilidade e da sua retenção, já que a pessoa tende a apertar os “dentes” durante o sono, o que configura uma parafunção (hábito atípico prejudicial).

    Cuide bem da sua prótese!

    É importante ter em mente que usar prótese total não significa nunca mais ter que ir ao dentista. Já expliquei aqui no blog que dentista não cuida só de dente, então esteja ciente: sua gengiva (mucosa), língua, etc. continuam precisando de supervisão, assim como a própria dentadura, que um dia vai se desgastar e precisará ser trocada. Quer que sua prótese dure mais? Cuide bem dela. 🙂


  • Entendendo o Hemograma

    Entendendo o Hemograma

    Seu médico com certeza já pediu pra você fazer um hemograma. E seu dentista? Pois é, é bem provável que não, principalmente se você nunca precisou fazer nenhuma cirurgia odontológica mais complicada. Mas para os dentistas especialistas em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, por exemplo, é rotina.

    Não é uma dúvida assim tão comum aqui no blog, mas de vez em quando alguém me pergunta sobre as implicações dos resultados de exames de sangue nos procedimentos odontológicos. Então eu acho que vale a pena falar sobre isso.

    Entenda o hemograma
    Entenda o hemograma

    Exame de sangue e hemograma são a mesma coisa?

    Não. Exame de sangue é uma expressão genérica, que pode representar uma série de exames. No sangue existem inúmeras substâncias, e é possível pesquisar a “quantidade” de quaisquer delas em circulação: proteínas, anticorpos, potássio, cálcio, sódio, colesterol, glicose, hormônios, drogas, bactérias… e por aí vai.

    Já o hemograma avalia especificamente certas células sanguíneas, a saber: hemácias, leucócitos e plaquetas.

    É preciso estar em jejum pra fazer um hemograma?

    Não é preciso estar em jejum pra fazer um hemograma, nem deixar de comer algum tipo de alimento previamente.

    O que o hemograma avalia?

    O hemograma estuda os 3 tipos básicos de células presentes no sangue que são produzidas na medula óssea.

    • Hemácias (eritrócitos ou glóbulos vermelhos): sua função é transportar o oxigênio (principalmente) e gás carbônico aos tecidos. A contagem baixa de hemácias (eritrócitos, hemoglobina e hematócrito, analisados em conjunto) pode representar anemia, enquanto uma grande quantidade caracteriza uma policitemia (eritrocitose), o que causa o aumento da viscosidade do sangue e da chance de formação de coágulos (trombos), além de uma série de sintomas.
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    • Leucócitos (glóbulos brancos): são os responsáveis por defender o organismo de infecções e substâncias estranhas que possam prejudicar a nossa saúde. Então, quando a contagem de leucócitos está baixa, o organismo está desprotegido… e quando está alta, pode haver uma infecção bacteriana em curso. A leucemia, por exemplo, é o câncer nos leucócitos. Quando a contagem dessas células é muito alta (mais que 50.000 cel/mm3), pode ser por causa da doença. Já a grande diminuição de leucócitos costuma ocorrer por problemas na medula óssea.
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    • Plaquetas (trombócitos): são fragmentos celulares citoplasmáticos oriundos de células chamadas megacariócitos, cuja função é a formação de coágulos, participando, portanto, do processo de coagulação sanguínea. Sua diminuição ou disfunção pode levar a sangramentos por demora na coagulação, assim como seu aumento pode aumentar o risco de trombose.

    Quais os valores de referência de um hemograma?

    Primeiro é preciso deixar claro: os valores de referência são uma… referência. 🙂 Eles precisam ser interpretados pelo médico ou dentista e considerados junto a muitas outras informações pra se fechar um diagnóstico. Então não fique “neurótico” se os valores do seu hemograma estão um pouco abaixo ou um pouco acima do valor de referência, pois pode ser normal. Ainda, dependendo do laboratório que fez o exame, os valores de referência podem ser um pouco diferentes.

    Eritrograma

    É o estudo dos glóbulos vermelhos, que são as hemácias ou eritrócitos.

    CRIANÇAS

    Valores de referência no recém-nascido Valores de referência no bebê até 1 ano Valores de referência na criança
    Eritrócitos (1012/L) 4 a 5,6 4 a 4,7 4,5 a 4,7
    Hemoglobina (g/dL) 13,5 a 19,6 11 a 13 11,5 a 14,8
    Hematócrito (%) 44 a 62 36 a 44 37 a 44
    Volume corpuscular médio (fL) 77 a 101 77 a 95
    Hemoglobina corpuscular média (pg) 28 a 33

    HOMENS

    Valores de Referência
    Eritrócitos (1012/L) 4,32 a 5,52
    Hemoglobina (g/dL) 13,5 a 18
    Hematócrito (%) 40 a 50
    Volume corpuscular médio (fL) 87 a 103
    Concentração de hemoglobina corpuscular média (g/dL) 32 a 37

    MULHERES

    Valores de Referência na mulher Valores de Referência na mulher grávida
    Eritrócitos (1012/L) 3,9 a 5,03 3,9 a 5,6
    Hemoglobina (g/dL) 12 a 16 11,5 a 16
    Hematócrito (%) 35 a 45 34 a 47
    Volume corpuscular médio (fL) 87 a 103
    Concentração de hemoglobina corpuscular média (g/dL)

    Eritrócitos se refere à contagem do número de hemácias.

    Hemoglobina é uma molécula que fica dentro da hemácia e faz o transporte de oxigênio. A dosagem de hemoglobina é mais precisa na avaliação de uma anemia.

    Hematócrito é o percentual de sangue que é ocupado pelas hemácias. Um hematócrito de 40 significa que 40% do sangue é compostos por hemácias. Portanto, praticamente metade do sangue é composto por células vermelhas.

    Volume corpuscular médio mede o tamanho das hemácias. Quanto maior o valor, maiores as hemácias. Pelo tamanho das hemácias, diferenciam-se os tipos de anemia (embora existam anemias com hemácias de tamanho normal). Quando há anemia por carência de ácido fólico, por exemplo, as hemácias são grandes, e quando há anemia por falta de ferro (ferropriva) as hemácias são pequenas.

    Concentração de hemoglobina corpuscular média avalia a concentração de hemoglobina dentro da hemácia.

    Lembrando: tenha em mente que é preciso INTERPRETAR esses valores pra se fazer um diagnóstico, ok?!

    Leucograma

    É a parte do hemograma que avalia os leucócitos, conhecidos como glóbulos brancos, que são células de defesa do organismo. Existem vários tipos de leucócitos, com funções diferentes.

    HOMENS E MULHERES

    Valores de Referência
    Leucócitos (109/L) 4,5 a 11
    Neutrófilos (%) 40 a 80
    Eosinófilos (%) 0 a 5
    Basófilos (%) 0 a 2
    Linfócitos (%) 20 a 50
    Monócitos (%) 0 a 12

    Leucócitos se refere à contagem geral dessas células.

    Até 75% dos leucócitos circulantes são neutrólifos. Eles combatem bactérias. Quando há uma infecção bacteriana, o número deles se eleva, aumentando o número de leucócitos totais. Os bastões são os neutrófilos jovens. A maior presença de células jovens é um sinal de que pode haver um processo infeccioso em curso, o que se chama comumente de “desvio à esquerda”. Quando há mais neutrófilos segmentados (maduros) do que bastões, é sinal de que não há doença ou que ela já passou.

    Eosinófilos são os leucócitos responsáveis pelo combate aos parasitas e pelo mecanismo da alergia. Portanto, pessoas alérgicas, asmáticas ou com infecção intestinal por parasitas têm o número de eosinófilos aumentado.

    Basófilos são só 0 a 2% dos glóbulos brancos. Sua elevação normalmente ocorre em processos alérgicos e estados de inflamação crônica.

    Linfócitos são o segundo tipo mais comum de glóbulos brancos. São a primeira linha de defesa nas infecções por vírus e contra o surgimento de tumores. São eles que produzem os anticorpos (proteínas usadas pelo sistema imunológico para identificar e neutralizar agentes invasores), também. Quando há uma infecção viral, o número de linfócitos aumenta.

    Monócitos são ativados tanto nas infecções por bactérias quanto por vírus. O sistema imune os envia para o local da infecção, onde eles viram macrófagos, que literalmente comem micro-organismos invasores. Os número de monócitos costuma estar aumentado no caso de infecções crônicas.

    Lembrando: tenha em mente que é preciso INTERPRETAR esses valores pra se fazer um diagnóstico, ok?!

    Plaquetas

    As plaquetas são fragmentos de células responsáveis pelo início do processo de coagulação, são elas que formam a “casquinha” da ferida que estanca o sangramento. Mas mesmo com o valor das plaquetas baixo, em cerca de 50, o organismo ainda dá conta de fazer a coagulação. Abaixo de 10, há risco de morte.

    HOMENS E MULHERES

    Valor de Referência
    Plaquetas (1019/L) 150 a 450

    O número de plaquetas precisa estar dentro de valores aceitáveis pra se fazer qualquer cirurgia (odontológica ou não), se não pode haver hemorragia.

    * * *

    Espero que esse resumo ajude a desmistificar o hemograma. Caso você tenha dúvida quanto às unidades, pode usar esse conversor, basta escolher as unidades adequadas pra conversão (talvez as usadas aqui não sejam as mesmas do seu hemograma).

    Deixo claro que perguntas do tipo “Dra., o que eu tenho?” baseadas em valores encontrados em hemogramas não serão respondidas aqui, ok?! Se você fez um hemograma, é porque seu médico ou dentista pediu… então converse com ele(s) sobre os resultados. 


  • Tomo antidepressivo. Posso tomar anestesia no dentista?

    Tomo antidepressivo. Posso tomar anestesia no dentista?

    Entre 10 e 25% das mulheres e 5 e 12% dos homens vão ter depressão um dia. Isso quer dizer que a quantidade de usuários de antidepressivos é crescente, e é certo que algum dia todo dentista vai atender um paciente que toma esse tipo de medicação. Portanto é essencial que o dentista conheça as interações medicamentosas entre antidepressivos e anestésicos locais, mais precisamente os vasoconstritores que os anestésicos possuem.

    Só pra você entender: vasoconstritor é uma substância que a maioria dos anestésicos têm e que serve para aumentar o tempo de ação da anestesia já que, pela diminuição do calibre dos vasos sanguíneos, o líquido anestésico fica mais tempo no local em que foi injetado. É mais ou menos isso. 🙂

    Antidepressivos e anestesia combinam?
    Antidepressivos e anestesia combinam?

    Quem toma antidepressivo pode ir ao dentista?

    Não só pode como deve! É bem comum as pessoas acharem que ter certos problemas de saúde e/ou tomar alguns tipos de remédio são motivos pra não ir ao dentista. Em parte isso é desculpa pra não ir (CONFESSEM 😉 ), e em parte é por medo de alguma “reação”, principalmente na hora da anestesia.

    O que eu quero deixar bem claro é: nenhum problema de saúde contraindica o atendimento do dentista, assim como nenhum remédio impede que você procure atendimento odontológico. Se você vai ou não se submeter a algum procedimento, já é outra história… cabe ao dentista, após examinar você e provavelmente fazer ou pedir outros exames (exame de sangue, radiografias, etc.), decidir. Se ele achar que é melhor não atender você ou aguardar um momento mais adequado, ok. Mas entenda: você não tem que fugir do dentista porque tem pressão alta, diabetes, toma antidepressivos ou tem unha encravada. O dentista sabe o que está fazendo e não vai colocar sua vida em risco por bobagem, ok?!

    Quais os principais grupos de antidepressivos?

    Inibidores seletivos de recaptação de serotonina (ISRS):

    • Fluoxetina (ProzacTM)
    • Paroxetina (PaxilTM)
    • Sertralina (ZoloftTM)
    • Fluvoxamina (LuvoxTM)
    • Citalopram (CelexaTM)
    • Escitalopram (LexaproTM)

    Antidepressivos tricíclicos e inibidores seletivos de recaptação de norepinefrina:

    • Nortriptilina (PamelorTM)
    • Maprotilina (LudiomilTM)
    • Desipramina (NorpramineTM)
    • Amitriptilina (ElavilTM)
    • Clomipramina (AnafranilTM)
    • Imipramina (TofranilTM)

    Inibidores de recaptação de serotonina e norepinefrina (IRSN):

    • Bupropiona (WellbutrinTM) – bloqueia a recaptação da dopamina e da norepinefrina
    • Duloxetina (CymbaltaTM)
    • Venlafaxina (EffexorTM)

    Inibidores da monoamino-oxidase (IMAO):

    • Fenelzina (NardilTM)
    • Tranilcipromina (ParnateTM)
    • Selegilina (EldeprylTM)
    • Isocarboxazid (MarplanTM)
    • Moclobemida (ManerixTM)

    Inibidores de recaptura/antagonistas da serotonina-2 (IRAS):

    • Mirtazipina (RemeronTM)
    • Trazodona (DesyrelTM)
    • Nefazodona (SerzoneTM)
    • Mianserina (BolvidionTM)

    E pode tomar anestesia? Tem que ser uma anestesia “especial”?

    As anestesias sem vasoconstritores são indicadas pra uma série de situações, mas não necessariamente para pacientes que tomam antidepressivos… depende do caso. Vasoconstritores simpatomiméticos (aqueles que “imitam” os efeitos da adrenalina) como a própria adrenalina, a noradrenalina e a fenilefrina, quando associados a anestésicos locais, podem potencializar os efeitos colaterais dos antidepressivos, principalmente tricíclicos e inibidores da MAO (*), sobre o sistema cardiovascular. Note que eu não estou dizendo que essa “mistura” pode matar, ou qualquer coisa assim… só que pode haver interação entre antidepressivos e anestésicos locais, e isso é relevante e deve ser levado em conta. Além disso há muitas drogas antidepressivas novas, com diferentes mecanismos de ação, sendo necessário mais pesquisas sobre o assunto.

    E como é que você vai saber que tipo de antidepressivo toma e se pode tomar anestesia com vasoconstritor? Você não tem que saber isso… quem tem que saber é o seu dentista! Não é uma decisão que cabe a você e que você tem que levar pronta até o dentista. Informe que você toma antidepressivo (ou qualquer outro remédio) e confie nele. Simples assim. 😉

    Leia uma ótima revisão de literatura sobre o tema: Antidepressivos e anestésicos locais: interações medicamentosas de interesse odontológico


  • Ronco e Apneia do Sono: Como o Dentista Pode Ajudar?

    Ronco e Apneia do Sono: Como o Dentista Pode Ajudar?

    O ronco é um fenômeno mundial. E se considerarmos apenas o Brasil, 23% da população ronca todas as noites. Mas apneia do sono, você sabe o que é?

    O que é apneia do sono?

    A SAHOS ou Síndrome da Apneia e Hipopneia Obstrutiva do Sono é a interrupção recorrente da respiração e a consequente ocorrência de paradas respiratórias durante o sono, mesmo na presença de esforço respiratório. Ou seja: a pessoa “puxa” mas o ar não vem, porque há alguma obstrução que impede a sua passagem. A interrupção do fluxo de ar por mais de 10 segundos caracteriza um episódio de apneia.

    Quais os tipos de apneia do sono?

    Há várias classificações, segundo diferentes critérios. Quanto à origem:

    • Apneia central: a parada respiratória é de origem neurológica, por redução dos estímulos do sistema nervoso central. Os músculos ventilatórios simplesmente param.
    • Apneia obstrutiva: a parada respiratória é de origem física. Há esforço respiratório, mas o ar não consegue passar porque seu trajeto está interrompido. Em relação ao local da obstrução, segundo Fujita (1991), a apneia obstrutiva pode ser:
      • Retropalatal: quando a obstrução se dá na velofaringe, às custas do palato mole e da úvula;
      • Retrolingual: quando a obstrução se dá na parte posterior da língua;
      • Retropalatal e retrolingual: quando ocorre das duas formas, em momentos diferentes.
    • Apneia mista: a parada respiratória tem origem ora central, ora por obstrução das vias aéreas.

    Quanto à posição de dormir, as apneias obstrutivas geralmente ocorrem quando a pessoa dorme de barriga para cima (decúbito dorsal). Quanto à severidade, a ocorrência de 5 eventos de apneia por hora, durante o sono, pode ser considerado “normal”, sem necessidade de tratamento. De 5 a 20 eventos por hora, considera-se apneia leve; de 20 a 40, apneia moderada. Mais que 40 eventos de por hora, já está caracterizada a apneia severa.

    O que causa a obstrução das vias aéreas?

    Um grande número de alterações anatômicas podem contribuir na ocorrência dos distúrbios respiratórios do sono. O tamanho e o posicionamento adequados da língua têm papel fundamental na manutenção do espaço aéreo, já que parte da obstrução da faringe ocorre exatamente pela postura errada da língua. É essencial, também, que haja equilíbrio entre as forças musculares e a pressão de fechamento da faringe na inspiração. A flexibilidade dos músculos das paredes da faringe parece facilitar o seu colapso (fechamento) durante a inspiração. Tonsilas palatinas (as “amígdalas”)  e tonsilas faríngeas (as “adenoides”) grandes podem ajudar a obstruir as vias aéreas, também.

    Alterações craniofaciais também podem predispor à ocorrência da SAHOS. Muitos pacientes que têm apneia obstrutiva são retrognatas (têm a mandíbula mais para trás) ou têm atresia maxilar (céu da boca estreito). Ainda, o osso hioide serve de ancoragem para certos músculos da língua, portanto seu posicionamento mais baixo do que o normal leva a base da língua para uma posição mais verticalizada, facilitando o fechamento da faringe quando a pessoa “puxa” o ar.

    O fator genético também deve ser considerado, além da obesidade, que é um agravante na ocorrência da apneia obstrutiva. É importante lembrar, também, que os fatores hormonais (menopausa, hipotireoidismo, etc.), o uso de medicamentos (benzodiazepínicos) e o consumo de álcool no período da noite são fatores predisponentes à apneia obstrutiva.

    Como é feito o diagnóstico de SAHOS?

    O diagnóstico da apneia obstrutiva se baseia nos seguintes sintomas:

    • Sonolência diurna, cansaço ou insônia;
    • Acordar com falta de ar ou engasgado;
    • Relato pelo(a) companheiro(a) de ronco alto e/ou bloqueio da respiração;
    • 5 ou mais apneias (interrupções do fluxo de ar) ou hipopneias (diminuições do fluxo de ar) por hora de sono, com evidência de esforço respiratório (a pessoa “puxa” mas o ar não vem). Essa “medição” é feita através de um método chamado polissonografia (monitoramento do sono).

    Se os sintomas acima não podem ser explicados pela presença de outra desordem do sono, uso de medicamentos, problema médico ou neurológico, tem-se o diagnóstico de SAHOS. Mas CALMA, não vá sair por aí dizendo que você tem SAHOS só porque tem 1 ou 2 desses sintomas… quem dá o diagnóstico é o médico ou o dentista.

    Outros sintomas comuns são: dor de cabeça ao acordar, ansiedade, depressão, irritabilidade, pressão alta, arritmia cardíaca, azia noturna, levantar várias vezes pra fazer xixi durante à noite, etc.. A SAHOS é mais comum em homens do que em mulheres. Pode ocorrer em crianças, também.

    Qual o tratamento?

    Depende do caso. Pode estar indicada a cirurgia, que pode ser do palato mole (como a uvulopalatofaringoplastia), da base da língua ou do esqueleto facial, ou seja, da parte óssea.

    O tratamento mais indicado pelos médicos é o uso de CPAPs (Continuous Positive Airway Pressure), que são aparelhos que injetam ar comprimido através de uma máscara nasal, com a qual o paciente dorme.

    Os aparelhos de avanço mandibular e lingual têm sido  propostos como um método relativamente simples de tornar maior a passagem de ar pela orofaringe e hipofaringe, evitando a apneia obstrutiva.

    Alguns trabalhos têm mostrado bons resultados com exercícios para a musculatura orofacial e terapia com fonoaudiólogo.

    A perda de peso, em pacientes muito obesos, parece potencializar o resultado dos tratamentos.

    Máscara facial CPAP
    Máscara facial CPAP

    Como o dentista pode ajudar?

    O dentista é o profissional que mais entende da anatomia e da fisiologia do ossos da face, assim como da relação entre eles. Essas estruturas, além dos tecidos moles e dos dentes, precisam se relacionar bem entre si para que o ar passe normalmente pelas vias aéreas. A mudança da postura da mandíbula que cada paciente precisa – seu avanço, na verdade – é determinada individualmente, após uma série de exames: cefalometria, análise do tipo facial do paciente (braqui, meso ou dolicofacial), saúde das ATMs (articulações da mandíbula), necessidade de maior ou menor distância entre os dentes da frente (distância interincisal), etc..

    Aparelho PLG para ronco e apneia
    Aparelho PLG para ronco e apneia

    Uma das formas de tratar a apneia obstrutiva é através dos aparelhos bucais, e é o dentista quem os prescreve. Portanto, consulte um dentista.

    * * *

    As informações que você leu neste post foram extraídas do livro Distúrbios do Sono e a Odontologia (Luiz Roberto Godolfim). Você pode comprá-lo aqui.

    Leia sobre SAHOS também no Ortodontia Para Todos


  • Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Se você não esteve em coma nas últimas 72 horas, sabe que a apresentadora Bela Gil alvoroçou a dentistaiada ao sugerir para seus seguidores no Instagram e Facebook que usassem cúrcuma em pó para escovar os dentes, pois essa supostamente seria uma opção mais natural, principalmente pela ausência de flúor. O post está abaixo:

    Bela Gil e Cúrcuma

    A cúrcuma serve pra escovar os dentes?

    Cúrcuma é uma planta herbácea da família do gengibre, e de sua raiz seca e moída se extrai o pó conhecido como açafrão, utilizado como condimento e corante. Eis que, na opinião da moça, escovar os dentes com açafrão é um ótima ideia, por causa de suas propriedades “antissépticas, antibióticas e anti-inflamatórias”. E o açafrão tem essas propriedades? Sim. Não ele especificamente, mas uma substância que ele contém chamada curcumina. Isso significa que colocar o pó na escova e esfregar os dentes é melhor que usar pasta de dente? Não. Explico.

    A curcumina é tudo de bom, mas o açafrão contém apenas 2% dela. Isso significa que pra se obter curcumina suficiente pra ser proveitada pelo nosso organismo (biodisponibilidade), seria preciso uma quantidade enorme de açafrão… tipo, um caminhão do condimento. A alternativa seria utilizar a curcumina purificada, que tem alto custo (10g = US$ 1,000.00) e não se acha pra vender no mercado… é coisa de pesquisador. Não bastasse a quantidade enorme de curcumina necessária pra fazer alguma diferença na sua utilização como dentifrício, ela é altamenta insolúvel, o que significa que, mesmo que houvesse quantidade suficiente dela, o nosso organismo não a absorveria (a curcumina não entraria nas células). Quem explica isso é a Nanda Moura, que está estudando pra ser dentista e é bióloga, além de mestre em Biologia Celular e Molecular. Ela conta que durante 2 anos teve a oportunidade de trabalhar junto à sua equipe numa pesquisa com o objetivo de desenvolver um nanocarreador capaz de colocar a curcumina dentro de células cancerígenas com o objetivo de destruí-las. Me parece que ela entende do assunto. 😉

    Compreenderam o que isso significa? Que por mais que a curcumina tenha propriedades incríveis, esfregar açafrão em pó nos dentes não beneficia você em nada. É em vão.

    Isso entendido, falemos do flúor.

    Pra que serve o flúor da pasta de dente?

    Vou tentar explicar da forma mais simples possível: o esmalte dos dentes é composto por cristais (hidroxiapatita) que contêm cálcio e fosfato. Esses cristais trocam cálcio e fosfato com a saliva o tempo todo: às vezes eles ganham e às vezes eles perdem. De forma geral há equilíbrio nessa troca, mas quando a boca fica mais “ácida” (e o que deixa a boca ácida é principalmente a ingestão de açúcar), o esmalte perde mais fosfato e mais cálcio do que o normal, o que o deixa mais solúvel, ou seja, mais suceptível à perda de cálcio e fosfato. O nome disso é desmineralização, que é a causa da cárie, em si. Porém quando há flúor presente na saliva, a chance de desmineralização diminui, porque o flúor deixa o esmalte menos solúvel e mais resistente à cárie, portanto. De que forma? Ao favorecer a deposição de cálcio e fosfato nos dentes e ao se ligar ao esmalte formando cristais de fluorapatita e hidroxiapatita fluoretada, mais resistentes que os cristais apenas de hidroxiapatita.

    O flúor presente nas pastas de dente é tóxico?

    Numa segunda publicação no Instagram, Bela Gil disse o seguinte:

    Bela Gil no Instagram

    Segundo a apresentadora, a ingestão do flúor presente nas pastas de dente pode causar um monte de problemas. E ele está certa! A questão é: pastas de dente não foram feitas pra serem ingeridas. Você escova os dentes e cospe, e o que fica é apenas o flúor que interessa, agindo por um certo tempo da forma que eu expliquei anteriormente. Já o flúor adicionado à agua de abastecimento é de fato ingerido e tem papel fundamental na manutenção da concentração de flúor na saliva, mas gente, há normas rígidas de biossegurança quanto a isso. O flúor em excesso é tóxico sim, isso nunca esteve em discussão!

    Experimenta quem quiser!

    Sim! Você é livre pra escovar os dentes com açafrão, com babosa, com água de salsicha. Pra usar pasta de dente com flúor, sem flúor ou nem usar pasta de dente. Bela Gil – que fez questão de frisar que não é dentista – escova os dentes com cúrcuma. É um direito que ela tem. Então qual o problema? Os problemas são dois, a meu ver: a influência desse tipo de publicação e usar experiências pessoais como base pra argumentação. Estou certa de que a apresentadora não esperava que seu post tivesse a repercussão que teve. Mas teve. E assim milhares de pessoas que admiram o trabalho da moça como orientadora alimentar tendem a acreditar, sem questionar, que cúrcuma é melhor que pasta de dente. Bela Gil afirma que só teve cárie uma vez na vida, e quando ainda usava pasta de dente com flúor. Isso prova que a cúrcuma combate cáries ou que o flúor não combate? Não. Considerando que a apresentadora vem de uma família com bom poder aquisitivo, esclarecida e com acesso a meios de prevenção, acho coerente que ela tenha tido uma cárie só. Infelizmente essa não é a regra no Brasil… para o brasileiro comum, pasta de dente com flúor faz muito mais sentido que escovar os dentes com açafrão. Mas experimenta quem quiser.

    Veja também:

    A polêmica da cúrcuma para escovar os dentes no Dicas Odonto

    A cúrcuma ou açafrão serve para escovar os dentes? no Profissão Dentista

    A moda natureba na Odontologia no OdontoDivas