Tag: cárie

  • Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Sobre flúor, Bela Gil e açafrão

    Se você não esteve em coma nas últimas 72 horas, sabe que a apresentadora Bela Gil alvoroçou a dentistaiada ao sugerir para seus seguidores no Instagram e Facebook que usassem cúrcuma em pó para escovar os dentes, pois essa supostamente seria uma opção mais natural, principalmente pela ausência de flúor. O post está abaixo:

    Bela Gil e Cúrcuma

    A cúrcuma serve pra escovar os dentes?

    Cúrcuma é uma planta herbácea da família do gengibre, e de sua raiz seca e moída se extrai o pó conhecido como açafrão, utilizado como condimento e corante. Eis que, na opinião da moça, escovar os dentes com açafrão é um ótima ideia, por causa de suas propriedades “antissépticas, antibióticas e anti-inflamatórias”. E o açafrão tem essas propriedades? Sim. Não ele especificamente, mas uma substância que ele contém chamada curcumina. Isso significa que colocar o pó na escova e esfregar os dentes é melhor que usar pasta de dente? Não. Explico.

    A curcumina é tudo de bom, mas o açafrão contém apenas 2% dela. Isso significa que pra se obter curcumina suficiente pra ser proveitada pelo nosso organismo (biodisponibilidade), seria preciso uma quantidade enorme de açafrão… tipo, um caminhão do condimento. A alternativa seria utilizar a curcumina purificada, que tem alto custo (10g = US$ 1,000.00) e não se acha pra vender no mercado… é coisa de pesquisador. Não bastasse a quantidade enorme de curcumina necessária pra fazer alguma diferença na sua utilização como dentifrício, ela é altamenta insolúvel, o que significa que, mesmo que houvesse quantidade suficiente dela, o nosso organismo não a absorveria (a curcumina não entraria nas células). Quem explica isso é a Nanda Moura, que está estudando pra ser dentista e é bióloga, além de mestre em Biologia Celular e Molecular. Ela conta que durante 2 anos teve a oportunidade de trabalhar junto à sua equipe numa pesquisa com o objetivo de desenvolver um nanocarreador capaz de colocar a curcumina dentro de células cancerígenas com o objetivo de destruí-las. Me parece que ela entende do assunto. 😉

    Compreenderam o que isso significa? Que por mais que a curcumina tenha propriedades incríveis, esfregar açafrão em pó nos dentes não beneficia você em nada. É em vão.

    Isso entendido, falemos do flúor.

    Pra que serve o flúor da pasta de dente?

    Vou tentar explicar da forma mais simples possível: o esmalte dos dentes é composto por cristais (hidroxiapatita) que contêm cálcio e fosfato. Esses cristais trocam cálcio e fosfato com a saliva o tempo todo: às vezes eles ganham e às vezes eles perdem. De forma geral há equilíbrio nessa troca, mas quando a boca fica mais “ácida” (e o que deixa a boca ácida é principalmente a ingestão de açúcar), o esmalte perde mais fosfato e mais cálcio do que o normal, o que o deixa mais solúvel, ou seja, mais suceptível à perda de cálcio e fosfato. O nome disso é desmineralização, que é a causa da cárie, em si. Porém quando há flúor presente na saliva, a chance de desmineralização diminui, porque o flúor deixa o esmalte menos solúvel e mais resistente à cárie, portanto. De que forma? Ao favorecer a deposição de cálcio e fosfato nos dentes e ao se ligar ao esmalte formando cristais de fluorapatita e hidroxiapatita fluoretada, mais resistentes que os cristais apenas de hidroxiapatita.

    O flúor presente nas pastas de dente é tóxico?

    Numa segunda publicação no Instagram, Bela Gil disse o seguinte:

    Bela Gil no Instagram

    Segundo a apresentadora, a ingestão do flúor presente nas pastas de dente pode causar um monte de problemas. E ele está certa! A questão é: pastas de dente não foram feitas pra serem ingeridas. Você escova os dentes e cospe, e o que fica é apenas o flúor que interessa, agindo por um certo tempo da forma que eu expliquei anteriormente. Já o flúor adicionado à agua de abastecimento é de fato ingerido e tem papel fundamental na manutenção da concentração de flúor na saliva, mas gente, há normas rígidas de biossegurança quanto a isso. O flúor em excesso é tóxico sim, isso nunca esteve em discussão!

    Experimenta quem quiser!

    Sim! Você é livre pra escovar os dentes com açafrão, com babosa, com água de salsicha. Pra usar pasta de dente com flúor, sem flúor ou nem usar pasta de dente. Bela Gil – que fez questão de frisar que não é dentista – escova os dentes com cúrcuma. É um direito que ela tem. Então qual o problema? Os problemas são dois, a meu ver: a influência desse tipo de publicação e usar experiências pessoais como base pra argumentação. Estou certa de que a apresentadora não esperava que seu post tivesse a repercussão que teve. Mas teve. E assim milhares de pessoas que admiram o trabalho da moça como orientadora alimentar tendem a acreditar, sem questionar, que cúrcuma é melhor que pasta de dente. Bela Gil afirma que só teve cárie uma vez na vida, e quando ainda usava pasta de dente com flúor. Isso prova que a cúrcuma combate cáries ou que o flúor não combate? Não. Considerando que a apresentadora vem de uma família com bom poder aquisitivo, esclarecida e com acesso a meios de prevenção, acho coerente que ela tenha tido uma cárie só. Infelizmente essa não é a regra no Brasil… para o brasileiro comum, pasta de dente com flúor faz muito mais sentido que escovar os dentes com açafrão. Mas experimenta quem quiser.

    Veja também:

    A polêmica da cúrcuma para escovar os dentes no Dicas Odonto

    A cúrcuma ou açafrão serve para escovar os dentes? no Profissão Dentista

    A moda natureba na Odontologia no OdontoDivas


  • Como a cárie invade o dente?

    Como a cárie invade o dente?

    De vez em quando recebo algum paciente no consultório me contando sobre o buraco ENORME que outro dentista fez no dente dele quando foi remover uma cárie “bem pequenininha”. Certeza que você, colega que me lê, já ouviu isso também. E eu aproveito a oportunidade pra explicar o seguinte…

    Quando o dentista detecta uma cárie, seja num exame e/ou numa radiografia, o procedimento padrão é remover a cárie e preencher a cavidade que ficou com uma material restaurador (resina, amálgama, etc.). Só que o “buraquinho” que aparece por fora geralmente não corresponde ao “buracão” que existe por dentro… é o que muitos chamam de cárie interna.

    Segundo Rodrigues et al. (2000) “…os sulcos e fissuras oclusais constituem as regiões de maior risco de desenvolvimento de lesões cariosas, por ser uma superfície de predileção para o acúmulo de biofilme. Cerca de 50% das cáries dentais ocorrem em superfícies oclusais, sendo de difícil diagnóstico devido à anatomia de cicatrículas e fissuras; aproximadamente 90% das lesões cariosas em dentes posteriores iniciam-se nestas regiões, seguindo as direções dos prismas de esmalte, e se apresentando internamente em forma de cone, com ápice voltado pra a região oclusal”.

    Em resumo: a região de cicatrículas e fissuras é onde se formam 9 entre 10 cáries em dentes de trás, pela facilidade de se acumular sujeira ali, e essas cáries costumam ser iguaizinhas à da imagem que você vê abaixo:

    O buraco (visível) é pequeno… mas a cárie é grande!

    Reparou como o buraquinho inicial, lá no esmalte, é pequeno, mas o resto da cárie, na dentina, é muito maior? Isso se chama cone de invasão, e o dentista não tem opção: precisa remover a cárie toda (incluindo o esmalte que está acima da dentina cariada). E é por isso que você sai por aí dizendo que “o dentista fez um buracão onde só tinha um buraquinho” ;). Só que quem fez o buracão foi a cárie. E a cárie só fica desse tamanho se você deixar…

    Aí você mordeu alguma coisa e o dente quebrou. E nem era nenhum alimento muito duro, um pedaço de pão, por exemplo. O dente estava inteirinho por fora, tinha só uma manchinha escura (que estava lá há 2 anos e pra qual você não deu a mínima, pois não doía), mas a coroa simplesmente partiu no meio! Sabe por que? Porque por baixo do esmalte a cárie era enorme! E quando você mordeu, o esmalte do seu dente não resistiu e cedeu. Fazendo uma comparação: lembra quando os aviões atingiram as torres gêmeas em Nova Iorque no 11 de setembro? As duas torres foram atingidas num só ponto, mas os andares que estavam acima desse ponto vieram abaixo por falta de suporte… e o resto da história vocês conhecem: a estrutura delas ficou tão abalada que ambas vieram ao chão.

    Meu recado depois de toda essa história é: se o dente doeu ou se você viu uma mancha ou um ponto preto no seu dente, mesmo que seja bem pequeno, procure um dentista para avaliar… não fique esperando o buraco ficar maior ou o dente quebrar pra tomar uma atitude. Dessa forma, se for mesmo uma cárie, o tratamento fica muito mais fácil e barato. Sua saúde e seu bolso agradecem. 😀


  • Dente com canal tratado pode ter cárie?

    Dente com canal tratado pode ter cárie?

    E para fechar a semana do tratamento de canal aqui no blog (que começou afirmando que dente com tratamento de canal pode doer de novo e prosseguiu alertando que curativo não é tratamento de canal), mais uma dúvida recorrente: dente que já teve o canal tratado fica cariado?

    Parece uma dúvida boba, mas muita gente a tem. E a resposta é sim, pode.

    Dente com canal tratado também tem cárie!

    Tratar o canal de um dente consiste, basicamente, em limpá-lo por dentro (eliminando bactérias) e em seguida vedar cada canal (certos dentes têm mais de 1 canal) com um material que impeça que as bactérias invadam o seu interior novamente. Falando assim parece simples, mas não é uma tarefa das mais fáceis. Viva os endodontistas!

    Pois bem… como o nervo do dente (polpa) é removido, SE TUDO DER CERTO esse dente não deverá ter mais nenhuma sensibilidade dolorosa, pelo menos não com origem no canal. Porém, mesmo desvitalizado, ele continua em função na boca e, por fora, ele ainda é o mesmo… tem esmalte (a parte mais externa, brilhante), dentina (a parte que fica por baixo do esmalte e do cemento) e cemento (tecido que recobre a raiz) da mesma forma. E são esses 3 tecidos que podem ser acometidos por cárie… tanto em dentes vitais quanto em dentes não-vitais (tratados).

    E quando um dente tem cárie, ela precisa ser removida e o dente restaurado. Como se faz isso você pode ver aqui. O bom de restaurar um dente com tratamento de canal é que não há necessidade de anestesia… pois dente sem nervo não dói. 😀

    Só pra deixar claro: todos os tecidos em volta do dente que teve seu canal tratado continuam vivos, ou seja, eles podem doer sim. Além disso, o dente sofre, também, os efeitos de possíveis problemas gengivais, principalmente da periodontite, o que pode resultar em perda dentária. Ainda: se um dente com tratamento de canal precisar ser posteriormente extraído, vai ser necessário anestesiar.

    Considerando tudo isso, a mensagem é: mesmo que o um dente não possa mais doer, ele continua precisando de cuidados. É essencial manter uma higienização rigorosa para garantir a permanência de todos os seus dentes na boca… tanto os que tiveram seus canais tratados quanto os que não. Escove os dentes direitinho para a cárie e a doença periodontal não pegarem você!


  • Por que EU tenho cáries e ELE não?

    Por que EU tenho cáries e ELE não?

    Ótima pergunta!

    Aposto que você, colega dentista, já perdeu algumas horinhas escutando lamúrias de pacientes que juram que escovam os dentes direitinho mas, mesmo assim, têm cáries. Não que eu duvide disso… mas escovar os dentes direitinho e ter muitas cáries não combina, sabe? Das duas uma: ou você não está fazendo direito ou você não está fazendo.

    Mas, algumas vezes, a questão está na comparação. Dia desses ouvi: “Poooooxa, eu escovo sempre os os meus dentes e ainda assim tenho cáries. Fulano não sabe reconhecer uma escova de dentes se vir uma e nunca teve cárie…”. Acontece. Tem gente que tem preguiça de escovar os dentes, aliás, MUITA gente. Mas realmente, isso não quer dizer que essa pessoa terá mais cáries do que as outras. E existem alguns motivos pra isso.

    A cárie é uma doença (sim, doença) multifatorial. Isso significa que ela não tem uma causa única, mas é fruto de uma combinação de fatores. Pra ela acontecer precisamos de 4 coisas: um dente (oh!), bactérias, comida para as bactérias e tempo (porque cárie não se forma de um dia para o outro).

    Vários fatores a se considerar…
    1. O dente: pode ser qualquer um, tanto faz se de cima ou de baixo. Os locais onde mais aparecem cáries são aqueles mais difíceis de limpar ou onde a comida “pára”. Entre os dentes, em lugares mais profundos e sulcados, etc..
    2. As bactérias: toda bactéria que produz ácidos ajuda na tarefa, mas o nome do grande vilão é Streptococcus mutans. O S. mutans é uma bactéria comum na boca e nos é transmitido, quase sempre, pelos nossos pais… mamãe, principalmente. Como? Beijinhos inocentes, assoprar a comida pra esfriá-la, compartilhar copos e talheres… é.
    3. Comida de bactérias: pode-se dizer, guardadas as devidas proporções, que as bactérias comem o que você come. E, assim como você, adoram doces. Evitar guloseimas é o grande desafio de quem quer evitar cáries. As bactérias pegam o açúcar, fermentam-no e liberam ácidos na nossa boca. Daí pra começarem a aparecer os “buraquinhos”… é um pulo.
    4. Tempo: quanto tempo leva pra uma cárie se formar? Depende, mas certamente não é de um dia para o outro. Ou seja: não é porque você deixou de escovar os dentes 1 dia que você terá cáries. Já se a “falta de memória” for recorrente…

    Só isso? Não. Os 4 elementos acima têm que estar presentes, mas existem outros fatores que predispõem ou não alguém a ter cáries. A saliva possui uma propriedade chamada capacidade tampão, que é a de manter o pH (a acidez) bucal em um padrão mais ou menos constante. Há “salivas” que são melhores e “salivas” que são piores nessa tarefa. Tem a genética. Tem a “sorte”. E a cereja do bolo fica por conta da higiene bucal… escova e pasta de dentes, se bem usadas, não dão chance pra cárie alguma!

    Concluindo e respondendo à pergunta: Por que EU tenho cáries e ELE não? Pense nas variáveis… pode ser que fulano escove menos os dentes, mas quando o faz sabe fazê-lo; pode ser que você tenha S. mutans na sua flora bucal e beltrano não; pode ser que você coma muito açúcar e sicrano não seja muito chegado… enfim, combinações não faltam. Por via das dúvidas, seja pessimista: escove os dentes direitinho e não conte com a sorte. 😉

    Leia também: Por que algumas pessoas têm cáries mesmo cuidando bem dos dentes? (texto com o qual eu não concordo por completo – principalmente com a afirmação de que pessoas com higiene bucal excelente podem ter cáries recorrentes – mas vale pela curiosidade).


  • Pontos pretos nos dentes… isso é cárie?

    Pontos pretos nos dentes… isso é cárie?

    Não necessariamente. Há um “consenso” popular de que qualquer ponto ou região escura de um dente é cárie, mas nem sempre isso é verdade.

    Nossos dentes têm anatomias próprias, e existem regiões deles que são mais profundas. Dependendo do dente, os sisos por exemplo, essas regiões são bem abundantes e transformam a superfície dentária num verdadeiro labirinto. E lá a comida se perde…. 😉

    E aí… é cárie?

    Os alimentos e bebidas que ingerimos possuem corantes, em sua maioria. Principalmente aqueles industrializados, a citar: doces, refrigerantes, biscoitos. Esses corantes podem pigmentar (“pintar”) os sulcos dentários, deixando-os mais escuros. E essas regiões são as mais afetadas justamente porque os resíduos alimentares permanecem ali por mais tempo, presos no “labirinto”. Ah, o cigarro também favorece bastante o aparecimento dessas regiões escurecidas!

    Esse tipo de pigmentação é mais comum nos dentes de trás (pré-molares e molares). Mas pode acontecer também na parte de trás dos dentes da frente. Porém, se os “pontos pretos” que você vê estiverem perto da gengiva, certamente não se tratam dos sulcos que eu citei. Possivelmente é tártaro, ou você tem mesmo uma cárie. Pra ter certeza, consulte o seu dentista.

    Já aconteceu de você ir em um dentista e ele dizer que você tem 3 cáries e um outro afirmar que são 5? Isso acontece porque os sulcos, fóssulas e fissuras, além de se pigmentarem mais facilmente, são os locais mais propensos a desenvolverem cáries. E algumas cáries se encontram em um estágio “sub-clínico”, ou seja, difíceis de serem detectadas num exame clínico convencional. Certos dentistas preferem acompanhar o caso, outros detectam a cárie e indicam formas de favorecer sua regressão e outros, ainda, preferem fazer uma restauração “preventiva”, em que a quantidade de tecido removido é mínima.

    Enfim, se você tem pontos pretos nos dentes, não se desespere achando que todos eles estão cariados. É possível que se trate apenas de sulcos pigmentados. E o contrário também vale: se você tem pontos pretos nos dentes, não dê de ombros e ache que tudo são “manchinhas”: procure seu dentista e deixe que ele verifique pra você.  Agora, se os tais pontos começaram a crescer de uma hora pra outra, corra. Antes que dê canal…


  • A Doença do Beijo

    A Doença do Beijo

    Dia 13 de Abril é o dia mundial do beijo. Aproveitando (e estragando) a data, quero falar um pouco do lado não-romântico do exercício do ósculo…

    É fato que um simples beijo pode transmitir uma série de doenças. Sim, caro leitor beijoqueiro, sair por aí beijando bocas alheias e, principalmente, desconhecidas, não é uma boa ideia (não do ponto de vista médico-odontológico).

    Você sabe quem anda beijando?

    O que ocorre, na verdade, é que a nossa boca está repleta de bactérias. Algumas fazem bem e algumas fazem mal.  Uma beijo nada mais é que uma grande troca de bactérias entre os envolvidos. Esses microrganismos estão presentes, principalmente, em nossa saliva. Existem bactérias específicas envolvidas no processo de formação da cárie (o Streptococcus mutans é a principal) e, caso estejam presentes na flora bucal, a chance de desenvolver essa doença aumenta. Ser portador dessas bactérias não é um decreto de que alguém terá cavidades, pois a cárie é uma doença multifatorial, ou seja, precisa de uma combinação de fatores para ocorrer. Mas quando esses fatores se encontram…

    Tenha em mente que qualquer doença que seja transmitida por bactérias e vírus presentes na cavidade bucal, em tese, pode ser adquirida através de um beijo. Gripe, mononucleose, tuberculose, hepatite B, herpes, sífilis…. Destas, quero chamar a sua atenção para a mononucleose.

    A mononucleose é uma doença transmitida pelo vírus Epstein-Barr e que é “carinhosamente” chamada de doença do beijo. É caracterizada por 4 sintomas principais: fadiga, dor de garganta, febre e aumento de linfonodos (“ínguas”). Uma complicação mais séria dessa enfermidade é a esplenomegalia, que é um aumento do baço, podendo chegar, em casos extremos, à sua ruptura. Pode ser fatal.

    Ora, para evitar a mononucleose é só não beijar alguém que tenha esses sintomas, certo? Errado. A pessoa que entra em contato com o vírus, caso manifeste a doença, leva de 4 a 8 semanas para apresentar os sintomas. Dá tempo de beijar bastante gente! 😀

    Enfim… beijar é muito bom, mas não é só alegria… tem suas consequências. Portanto, antes de sair por aí trocando bactérias, tente se certificar da procedência delas. Sua saúde agradece.


  • Cárie é Inevitável!

    Cárie é Inevitável!

    Há muito tempo (nem tanto) :), quando eu ainda nem considerava a ideia de ser dentista, eu também pensava assim. Todo mundo tem cárie. Quem não tem, terá. Quem já teve, terá de novo. A maioria das pessoas vão ao dentista para contar o número de cáries que possuem e fechar os buraquinhos.

    Se já faz um tempo da sua última visita ao dentista, você certamente tem uma cárie ou duas, certo? Pode ser. Mas pode não ser. E aí, quando não é, o cara se sente “o sortudo”.  Porém, ter ou não uma cárie não é SÓ uma questão de sorte. É mais uma questão de esforço, disciplina e técnica de higienização bucal adequada.

    A cárie é um buraco que aparece no seu dente. Sim, é. Mas até ele aparecer, muita água rolou debaixo da ponte… ou debaixo do esmalte do seu dente. Quem é dentista com certeza já ouviu no consultório seu paciente reclamando de algum colega que fez “um buracão” onde só tinha um “buraquinho”, algo do tipo “eu fui no dentista do postinho pra tirar uma cárie pequenininha e ele desgastou meu dente inteiro”. Caros pacientes, isso não existe. Não há benefício algum nem pra você nem para o profissional de Odontologia em remover mais tecido do seu dente do que o necessário. O que acontece é que uma cárie pode parecer pequena por fora, mas ser enorme por dentro.

    Deixe-me explicar de maneira simples como é que uma cárie se forma. A cárie é resultado da desmineralização dos tecidos de um dente por ação de ácidos provenientes do metabolismo bacteriano. Oi? Tá, essa não foi uma maneira simples. A maneira simples (e nojenta) vem agora: cárie é o tecido do seu dente derretendo por causa do cocô da bactéria :). Pelo menos é assim que a gente explica pras crianças…

    Os dentes são compostos de 3 partes principais: esmalte (a parte que brilha), dentina e polpa (a parte que dói, o “nervo”). Quando a sua boca se torna um ambiente muito ácido, o esmalte, que é a parte mais externa, e a dentina, que está logo abaixo do esmalte, são atacados de forma pontual e começam a desmineralizar, ou seja, amolecer. Só que às vezes aparece só um furinho no esmalte, por onde a invasão começa, e lá dentro da dentina a coisa fica feia. Sabe aquele dente que surpreendentemente se quebrou enquanto você mastigava uma folha de alface? Ele parecia inteirinho por fora, mas por dentro…

    Por isso é tão importante manter a higiene bucal em dia, pra evitar que a sua boca se torne um ambiente favorável ao ataque bacteriano. Quando você escova os dentes, você “bagunça” a casa das bactérias, e elas têm que se organizar novamente pra poder atacar. E isso leva tempo. Quando elas estão prontas pra vingança, você escova os dentes novamente. Não há bactéria que aguente!

    É normal ter bactérias na boca, não fique desesperado! Acredite, não há necessidade alguma de bochechar antissépticos bucais ardidos para que 99,9 % dos germes da sua boca entrem em coma alcoólico :). Muitos deles não fazem mal pra você, deixe eles lá, coitados! Mas existem alguns tipos de microrganismos diretamente responsáveis pelas cáries, e o vilão mais famoso da gang é o Streptococcus mutans. Safado.

    Nunca se esqueça: uma cárie não tratada pode levar a um tratamento de canal (se a cárie chegar na polpa) e até à perda do dente! Mas, não desanime. Não há nada que uma escovação correta (e prévia!) não resolva… 🙂

    É importante lembrar que, ao contrário do que uma famosa fabricante de produtos de higiene bucal prega, não existe proteção completa durante 12 horas. Você provavelmente fará um lanche em menos de 12 horas após a sua mais recente refeição, não?! Pois é… se comeu, escove os dentes e tire o sossego dos microrganismos que moram na sua boca. Não tem mágica… É GUERRA!

    Tem um vídeo bem bacana sobre como a cárie se forma aqui. (em inglês)