A transposição dentária não é uma anomalia tão comum, pelo contrário. Mas já me perguntaram a respeito, então vale tocar no assunto.
O que é transposição dentária?
É a troca de posição dos dentes. Seu canino nasce no lugar no primeiro pré-molar e seu primeiro pré-molar no lugar do canino, por exemplo (acontece muito entre canino e incisivo lateral, também). Portanto, a transposição dentária é um tipo de irrupção ectópica em que dois dentes permanentes trocam de posição no arco dentário.
A transposição pode ser completa ou incompleta. É considerada completa quando o dente está totalmente na posição do outro, inclusive com suas raízes paralelas aos demais dentes. Se não, é incompleta.
Esse tipo de problema é mais comum em mulheres, no arco superior e de um lado só. Mas pode acontecer com qualquer pessoa, com qualquer dente.
Note que o canino está entre os pré-molares.
Qual o tratamento?
Depende do caso. O dentista precisa avaliar a situação pra indicar um plano de tratamento. Basicamente, as opções são:
“Ignorar” a transposição e alinhar os dentes
Se a transposição for completa, o mais fácil é alinhar os dentes no arco mesmo “trocados”, com aparelho ortodôntico (vaja a imagem). Em caso de dentes anteriores, a estética pode ficar bem estranha. Aí, após a remoção do aparelho (ou até durante o tratamento ortodôntico), seu ortodontista vai encaminhar você para um dentista que trabalhe com a parte estética, pra adequar a forma desses dentes. Pra isso pode ser necessário fazer restaurações ou, até, coroas.
Fazer a reversão da transposição
Já se a transposição não for completa, pode valer a pena colocar os dentes “quase trocados” em suas devidas posições, o que é feito, também, com aparelho ortodôntico. Os dentes serão “puxados” cada um para o seu lugar e alinhados no arco com os demais dentes.
Extrair um ou mais dentes
Se não houver espaço para o alinhamento de todos os dentes no arco, seu dentista pode optar por extrair um ou mais dentes. Se um dos dentes na posição errada estiver muito desalinhado com relação aos demais, é provável que ele seja o escolhido para a extração, ou que sejam extraídos os 2 dentes transpostos. Ainda, pode ser que a melhor estratégia seja extrair um dente que esteja na sua posição correta, de forma a abrir espaço pra reverter a transposição e alinhar todos os dentes no arco. Como vocês podem ver, essa é uma decisão muitas vezes complexa, que depende da avaliação do ortodontista, considerando os pormenores de cada caso.
Ah, então é só colocar aparelho que resolve?
Não, não é bem assim. Grandes movimentações ortodônticas, como no caso de uma transposição dentária, exigem do ortodontista uma mecânica de extremo controle, pois há limites fisiológicos a serem respeitados, visando proteger as estruturas periodontais (os tecidos em volta dos dentes, a saber, osso e gengiva) e evitar reabsorções radiculares (a diminuição ou “encurtamento” da raiz do dente). Então, se você tem os “dentes trocados”, procure um(a) dentista / ortodontista e faça uma avaliação. Ele(a) vai levar em conta todas as particularidades do seu caso e indicar qual a estratégia mais eficiente de tratamento pra resolver o seu problema.
A cárie é caracterizada pela desmineralização do dente, o que leva à perda de tecido dentário. Mas nem sempre a perda de tecido dentário se dá por causa de uma cárie. Além das fraturas, existem outras formas disso acontecer.
Apenas pra ilustrar, pois você, leitor, não tem obrigação nenhuma de saber que dente tem tecido: não só tem como são três (fora a polpa, que é o “nervo” do dente): esmalte (a camada mais externa, brilhante e translúcida), dentina (que fica por baixo do esmalte e do cemento, é sensível e é ela que é “branqueada” quando se faz clareamento dental) e cemento (que reveste a dentina da raiz).
Tecidos dentários
Isso entendido, vamos falar das outras causas de perda tecidual dentária:
Abfração
É a perda de estrutura dental associada ao estresse oclusal. A força da mastigação pode levar ao rompimento de certas ligações químicas dos cristais de esmalte, levando à perda de tecido na parte da frente (vestibular) e na cervical (pertinho da gengiva) dos dentes. Pode acontecer de haver alguma perda de tecido sob a gengiva, também.
Abfração
Abrasão
É o desgaste da estrutura dental devido a um processo mecânico anormal, uma parafunção. Escovação com muita força e com pastas de dente abrasivas, uso de palitos pra limpar entre os dentes (em tempo: “palito de dente” não existe!), morder lápis, tampa de caneta, etc.. Ou seja, há um agente físico externo causando o desgaste.
A aparência da abrasão é de um desgaste na superfície exposta da raiz de um dente com recessão gengival. Assim como a abfração, a abrasão acomete a região cervical dos dentes.
Abrasão
Atrição
O desgaste dos dentes é um processo fisiológico, ou seja, pode ser considerando normal com o passar da idade. O problema é quando o grau de perda tecidual cria problemas funcionais, estéticos ou sensibilidade dentinária. A atrição é o processo de desgaste das superfícies incisais / oclusais dos dentes, comum em quem tem o hábito de rangê-los. É o tipo de perda de tecido dentário mais fácil de identificar.
Atrição
Erosão
É o desgaste químico dos dentes, sem envolvimento bacteriano. É comum em quem tem o hábito de beber muito refrigerante e/ou sucos cítricos, assim como em quem sofre de bulimia, por exemplo, por causa dos vômitos recorrentes. Há algum tempo começaram a surgir pastas de dente para prevenir a erosão dental, mas como esse não é um problema assim tão comum, a “moda” acabou passando e muitos desses produtos deixaram de ser comercializados.
Erosão
* * *
O tratamento de todos esses tipos de perda de tecido dentário é restaurador e, quando há sensibilidade dentinária, no sentido de diminuir essa sensibilidade (com a aplicação de dessensibilizantes, bochechos com flúor e, até, com tratamento de canal).
Está em dúvida sobre que tipo de desgaste dentário você tem? Procure um dentista pra avaliar e tratar de acordo. 🙂
Você certamente já ouviu falar da toxina botulínica e do ácido hialurônico. O primeiro é mais conhecido como Botox®, e é muito usado para amenizar rugas e linhas de expressão. O segundo é uma substância produzida fisiologicamente em nosso organismo, um líquido viscoso altamente solúvel em água que confere sustentação, hidratação e elasticidade à pele. Produzido de forma sintética, o ácido hialurônico está presente em diversos cremes e loções antirrugas, e é usado no preenchimento facial.
Considerando essas breves definições, já deu pra entender pra que um dermatologista usa a toxina botulínica e o ácido hialurônico. Mas e o dentista? Para o cirurgião-dentista, a toxina botulínica é um recurso terapêutico que a Odontologia dispõe para solucionar uma série de problemas (além do estético).
Como age o Botox®?
A toxina botulínica age paralisando um músculo em hiperfunção de forma que ele volte a funcionar normalmente. Ou seja: o músculo, por algum motivo, está trabalhando demais, e a injeção de Botox® no lugar certo “enfraquece” esse músculo, fazendo com que ele trabalhe somente o necessário. Tudo muito bonito… mas tenha em mente: a toxina botulínica é uma toxina que age como um bloqueador neuromuscular, portanto ela interrompe a comunicação entre o músculo e o nervo, interferindo diretamente na função do músculo. Ela, literalmente, lesiona tecidos. Por isso sua aplicação tem que ser na dose certa e no lugar certo, por médico ou dentista que conheça profundamente a anatomia da região tratada e as consequências da aplicação dessa substância.
Partindo desse conceito, a aplicação de toxina botulínica é útil na Odontologia nos seguintes casos, que analiso em separado.
Dentista aplicando botox
O Botox® pode ser usado pra tratar o quê?
Bruxismo:
O bruxismo é o hábito de ranger os dentes, seja durante o sono ou em vigília (acordado). A aplicação de toxina botulínica em determinados músculos da face pode ajudar aquelas pessoas que rangem e/ou apertam os dentes, diminuindo a força dos músculos envolvidos nesse hábito. Como resultado, as dores musculares diminuem e os desgastes dentários são estabilizados.
DTM e Dor Orofacial:
Há controvérsias sobre o uso da toxina botulínica para o tratamento de Disfunções Temporomadibulares, por uma razão simples: essa substância não trata DTM, apenas alivia os sintomas do paciente que tem DTM do tipo miofascial. Considerando a lesão tecidual inerente à aplicação da toxina botulínica, e que as lesões recorrentes levam a uma alteração muscular cumulativa, os músculos mastigatórios podem chegar a um estado de hipofunção (função abaixo do normal) permanente. Além disso, o alívio dos sintomas é passageiro, e a tendência é que a dor retorne e os músculos respondam cada vez menos à aplicação da toxina. Em resumo: ajuda, mas não resolve; não resolve e ainda causa outros problemas.
Algumas pessoas têm o sorriso “alto”, ou seja, quando sorriem mostram gengiva demais, e o ideal é que apareça só um pouquinho de gengiva. As causas do sorriso gengival podem ser várias, e vão desde o mau posicionamento da base óssea até à hiperfunção do músculo levantador do lábio superior. Esta é a situação que pode ser tratada com a aplicação de Botox®, desde que a distância do lábio até a gengiva não exceda 3 mm (além disso, o tratamento costuma ser cirúrgico). Uma pequena aplicação nesse músculo deve impedir que ele suba, diminuindo o sorriso gengival do paciente.
Enxaqueca:
E cirurgião-dentista especialista em DTM e Dor Orofacial pode usar a toxina botulínica no tratamento de cefaleias (dores de cabeça) e da migrânea crônica, mais conhecida como enxaqueca. A toxina botulínica nesse caso não visa a diminuição da função muscular mas a atuação direta em neurônios sensitivos aferentes que estão disfuncionados, liberando na periferia neuropeptídeos inflamatórios como Substância P, CGRP, etc.. Com isso, há uma redução na sensibilização periférica, o que contribui para reverter o quadro de sensibilização central.
E dentista pode aplicar Botox® com fins estéticos?
Pode. Há quem insista que não, mas a legislação a respeito é clara: cirurgiões-dentistas podem, sim, atuar na harmonização da face, algo que na prática sempre fizemos, mas que atualmente tem estado em evidência e chamado a atenção de críticos e admiradores. Ora, quase tudo na Odontologia tem fim – também – estético! Basta que o dentista esteja capacitado na técnica através de cursos reconhecidos pelo CFO (Conselho Federal de Odontologia).
Falando especificamente da legislação: segundo a lei 5081/66, que regulamenta o exercício da Odontologia no Brasil, compete ao cirurgião-dentista “prescrever e aplicar especialidades farmacêuticas de uso interno e externo, indicadas em Odontologia”. Além disso, em setembro/2016 o plenário do CFO aprovou por unanimidade a regulamentação do uso da substância toxina botulínica e do ácido hialurônico por cirurgiões-dentistas, para fins terapêuticos funcionais e/ou estéticos, desde que não se extrapole a área anatômica de atuação do profissional da Odontologia. O uso estético dessas substâncias deve ter como finalidade a harmonização facial em sua amplitude (leia-se: além da boca).
Pra deixar claro: á área anatômica de atuação do cirurgião-dentista vai do osso hioide à inserção do cabelo (vista frontal) e de tragus a tragus (vista lateral). Em resumo: a face toda. Não, a gente não entende só de dentes. 🙂
Aí você foi ao dentista e ele(a) informou que você precisa fazer uma cirurgia chamada aumento de coroa clínica. Você não entendeu nada e veio procurar na Internet o que isso significa, afinal você só queria restaurar aquele dente que quebrou perto da gengiva… pra que cirurgia?
Pra entender a necessidade dessa pequena cirurgia gengival, primeiro vamos compreender o conceito de…
Espaço Biológico Periodontal
O espaço biológico periodontal é uma região que fica entre a base do sulco gengival e o topo da crista óssea alveolar, tendo de 2 a 3 mm. É importante que, ao se restaurar um dente ou fazer uma coroa, esse espaço seja respeitado, pois disso depende a saúde da gengiva. Não dá pra simplesmente “enfiar” uma restauração num dente quebrado abaixo da linha da gengiva e achar que vai ficar tudo bem, porque não vai. Antes do dente ser restaurado é preciso recuperar o espaço biológico.
Espaço biológico periodontal
Isso entendido, é possível explicar…
O que é aumento de coroa clínica?
É uma cirurgia (geralmente) que precisa ser feita pra recuperar o espaço biológico periodontal. Só que o aumento de coroa clínica não é uma cirurgia específica, mas uma série de possíveis procedimentos de levam à recuperação do espaço biológico (aqueles 2 a 3 mm entre a margem da restauração ou coroa até o topo da crista óssea). Cada caso é um caso, então é preciso avaliar cada situação separadamente pra se decidir qual estratégia será usada.
Quais os tipos de aumento de coroa clínica?
A recuperação do espaço biológico pode exigir vários tipos de procedimentos. Pode ser necessário remover só gengiva, pode ser necessário remover gengiva e um pouco de osso em volta do dente e, ainda, o dente pode ser “puxado” pra fora da gengiva com aparelho ortodôntico. Às vezes a osteotomia (remover osso em volta do dente) é contraindicada por questão estética, e isso é comum em dentes anteriores, por exemplo. Nesse caso, em vez de remover osso e gengiva, pode-se fazer a extrusão ortodôntica do dente / raiz. Durante o processo de extrusão (quem faz isso é o ortodontista), o periodontista realiza sessões de fibrotomia e raspagem, com o objetivo de manter a margem gengival e a crista óssea em suas posições.
Em resumo, as técnicas de aumento de coroa clínica são:
Gengivectomia
Gengivectomia + osteotomia
Reposicionamento apical de retalho
Cunha distal
Tracionamento ortodôntico.
Não é uma questão de escolher entre essas técnicas, mas de indicação. Seu dentista vai explicar pra você qual delas é a mais indicada no seu caso.
Já ouviu falar em bichectomia? É a “cirurgia da moda” pra quem quer o rosto mais fino e as maçãs do rosto bem marcadas.
O que é bichectomia?
Bichectomia é o nome popular de uma cirurgia plástica chamada lipoplastia facial. Consiste na remoção do corpo ou coxim adiposo da bochecha, as bolas de Bichat. Esses acúmulos de gordura nas bochechas inicialmente receberam o nome do anatomista francês que os descreveu pela primeira vez, em 1802, Marie François Xavier Bichat.
Pra que servem as bolas de Bichat?
Essa gordura nas bochechas tem várias funções. Quando ainda somos bebês, ela auxilia na sucção durante a amamentação. Já em adultos, serve como proteção de estruturas nobres da face (nervos, vasos sanguíneos, etc.). Como a bola de Bichat fica entre os músculos da bochecha, outra função importante é evitar o atrito entre esses músculos (músculo masseter e músculo bucinador).
Qual o objetivo de remover as bolas de Bichat?
Em princípio, estético. Algumas pessoas têm mais gordura na face e outras menos. Nas pessoas que têm mais, o formato do rosto pode ficar arredondado, e essa é uma gordura difícil de perder quando se emagrece, pois é uma das últimas a serem consumidas pelo organismo. A pessoa emagrece e continua com o rosto redondo…
Mas nem todo mundo tem o rosto “largo” por causa das bolas de Bichat… pessoas com rostos mais retangulares, por exemplo, podem ter o músculo masseter mais desenvolvido. Nesse caso, o tratamento pode envolver a aplicação de toxina botulínica (botox), e não a bichectomia. Já a “papada” (aquela gordurinha embaixo do queixo) também pode dar um aspecto arredondado ao rosto, e aí o tratamento costuma ser a lipoaspiração. No caso de flacidez, o lifting facial pode ser considerado em conjunto com a bichectomia.
Outra indicação dessa cirurgia é quando a bochecha invade a área dos dentes e, recorrentemente, a pessoa acaba se mordendo e se machucando. A remoção desse corpo adiposo diminui as bochechas por dentro também, e aí a pessoa não se morde mais.
Então, não se faz bichectomia só porque o paciente quer… são necessários o diagnóstico correto e a indicação adequada.
Angelina Jolie antes e depois da bichectomia
Quais as consequências dessa cirurgia na velhice?
Você já notou que, quanto mais velhos, menos bochechudos ficamos (a não ser em pessoas que engordaram muito com a idade, claro)? Pois é. Nas crianças as bolas de Bichat são maiores, sendo que elas diminuem de tamanho conforme a idade. Há uma tendência de ficarmos com o rosto flácido com o envelhecimento, o que é normal e esperado, mas é essencial ter em mente que a remoção da gordura da face na juventude pode colaborar com esse processo no futuro. Portanto, o cirurgião deve estar atento à quantidade de gordura a ser removida e o(a) paciente tem que pensar direitinho se quer mesmo fazer uma bichectomia, pra não ter que acabar fazendo preenchimento facial quando for mais velho(a).
A bichectomia é uma cirurgia relativamente simples, feita sob anestesia local. Mas mesmo assim, ainda é uma cirurgia, e tem que ser feita com indicação e por um cirurgião que realmente domine a anatomia da região. Como em toda cirurgia, pode haver complicações, sendo as mais comuns sangramentos persistentes e infecção.
É essencial que o cirurgião observe a íntima relação das fibras terminais do nervo facial com a região da cirurgia, pois essas terminações são responsáveis pela movimentação dos músculos bucinador e orbicular dos lábios… qualquer descuido pode ter consequências sérias, como a assimetria da face e do sorriso, além da dificuldade no selamento labial do paciente.
Quero fazer bichectomia. Que profissional eu procuro?
Um cirurgião-dentista ou cirurgião plástico.
Há controvérsias sobre se dentistas podem ou não realizar cirurgias de bichectomia por causa do seguinte artigo da resolução 003/1999 do CFO e 1536/1998 do CFM, que diz:
Art. 2°. É da competência exclusiva do médico o tratamento de neoplasias malignas, neoplasias das glândulas salivares maiores (parótida, submandibular e sublingual), o acesso pela via cervical infra-hioídea, bem como a prática de cirurgia estética, ressalvadas as estéticas funcionais do aparelho mastigatório que é de competência do cirurgião-dentista.
Note que ao dentista é vedado fazer cirurgia puramente estética. A questão é que a lipoplastia facial é apenas mais uma cirurgia estética dentre tantas outras que o cirurgião-dentista já faz… e quanto às outras ninguém discute (exemplo: plástica gengival). A área de atuação do dentista é: limite frontal = do osso hióide até a inserção do cabelo / limite lateral = de tragus a tragus, inclusive estruturas do sistema estomatognático). A incisão da bichectomia, além de respeitar esses limites, é feita por dentro da boca, portanto faz parte da área de atuação do cirurgião-dentista.
Isso esclarecido, o artigo garante “ressalvadas as estéticas funcionais do aparelho mastigatório”. Uma das indicações da cirurgia de bichectomia, como esclareci anteriormente, é naqueles casos em que o paciente morde a bochecha por dentro recorrentemente. Essa é uma questão estética e funcional do aparelho mastigatório, concordam?
Outra situação que ocorre: o uso do corpo adiposo da bochecha para o fechamento de comunicações buco-sinusais (comunicação não desejada entre a boca e o seio maxilar, um “canal” que passa a ligar essas duas regiões anatômicas e que não deve existir. Isso às vezes acontece na extração de dentes superiores). Há alguma razão pra que um cirurgião-dentista não use as bolas de Bichat pra fechar uma fístula buco-antral? Não vejo nenhuma.
Portanto, considerando as resoluções a respeito e o profundo conhecimento anatômico facial inerente à formação do cirurgião-dentista, não vejo qualquer impedimento para que dentistas realizem cirurgias de bichectomia. Claro, há quem discorde, mas enquanto isso inúmeros cirurgiões-dentistas vêm fazendo esse tipo de procedimento no Brasil todo, sem qualquer impedimento legal.
Taí uma pergunta que de vez em quando me fazem e que vale um post exclusivo pra respondê-la: “Dra., como é que limpo minha dentadura?”. Não tem segredo, mas vale dar algumas dicas. Essas dicas valem para próteses removíveis de forma geral, parciais ou totais (entenda a diferença entre esses tipos de prótese aqui: Prótese em Odontologia: Um Guia).
Higienize sua prótese após cada refeição, da mesma forma que faria se tivesse os dentes.
Escova para dentadura
Siga os passos:
Remova a prótese e CUIDADO onde você a coloca. É bem nessa hora que acontece a maioria dos acidentes que levam à quebra da prótese, quando ela cai no chão ou dentro da pia, mesmo. Deixe-a dentro da pia com um pouco de água, por exemplo, ou num copo (não um copo na beira da pia, mas dentro dela, pra diminuir a chance de acidentes). Outra dica é colocar uma toalha dentro da pia, assim, se a prótese cair, a tolha vai amortecer o impacto. .
Use uma escova macia. Pode ser escova de dentes? Até pode… mas não precisa ser. O importante é que seja uma escova macia. Existem escovas próprias pra limpeza de próteses (veja a foto, acima), sugiro que você adquira uma. Essas escovas, que podem ser compradas na farmácia, têm cabo anatômico e cerdas com as pontas arredondadas, e têm 2 lados: um lado com mais cerdas pra limpeza da parte de fora da prótese e outro lado com menos cerdas pra limpar a dentadura por dentro. .
Escove sua prótese usando pasta de dentes não-abrasiva (as abrasivas podem riscar a dentadura, o que a deixa feia com o passar do tempo e facilita a retenção de resíduos alimentares) ou, simplesmente, sabão neutro. .
Enxágue a prótese em água corrente. Não use água quente, pra não correr o risco de deformá-la e ela perder a adaptação à sua boca. .
Confira se você limpou direito! Se precisar, escove e enxágue novamente. .
Pelo menos 1 vez por semana deixe sua prótese num copo d’água com 2 gotas de água sanitária durante 30 minutos. Enxágue BEM pra tirar o gosto de Quiboa. 🙂 Uma alternativa (mais cara) é usar pastilhas efervescentes pra fazer essa higienização semanal. A vantagem é que fica um gostinho de menta depois. Você pode escovar a prótese com a solução efervescente, também. .
Coloque a prótese novamente. Mas antes, faça um bochecho com água ou enxaguante bucal e massageie a sua gengiva com uma escova de dentes macia. Lembre-se, ela agora está limpinha… sua boca deve estar limpa pra recebê-la, também.
Eu não diria que é obrigatório, mas é o ideal. A questão é que muita gente tem vergonha ou não se sente confortável em tirar a dentadura… nem pra dormir. Uma vez fiz uma prótese total superior para uma senhora e, quando recomendei que ela dormisse sem, ela me afirmou ser impossível, já que o seu marido não sabia que ela usava prótese e, assim, ele descobriria. Pois é. Num caso – surpreendente – como esse…
De qualquer forma, é importante remover a dentadura pra dormir para que os tecidos bucais não fiquem sob a ação da prótese e, também, pra diminuir a proliferação de microrganismos. Dormir com a dentadura pode levar à diminuição da sua estabilidade e da sua retenção, já que a pessoa tende a apertar os “dentes” durante o sono, o que configura uma parafunção (hábito atípico prejudicial).
Cuide bem da sua prótese!
É importante ter em mente que usar prótese total não significa nunca mais ter que ir ao dentista. Já expliquei aqui no blog que dentista não cuida só de dente, então esteja ciente: sua gengiva (mucosa), língua, etc. continuam precisando de supervisão, assim como a própria dentadura, que um dia vai se desgastar e precisará ser trocada. Quer que sua prótese dure mais? Cuide bem dela. 🙂
Nos últimos dias um artigo científico com o título Contágio emocional do medo de dentista para os filhos: o papel mediador do pai na transferência parental do medo (Emotional contagion of dental fear to children: the fathers’ mediating role in parental transfer of fear. International Journal of Paediatric Dentistry 2012; 22:324–330) publicado em 2012 surgiu como novidade em alguns portais de notícias. Segundo esse artigo, supostamente, se você tem medo de dentista, a culpa é da sua mãe. Ok, se a conclusão do estudo fosse essa. Mas não é. Parece que alguém ouviu o galo cantar e não soube onde…
A culpa é da mãe?
Fui procurada pra dar entrevista sobre o assunto, com o entrevistador já partindo do princípio de que a afirmação “a culpa é da mãe” era verdadeira. Achei estranho. Esse não é um artigo que dê pra ler de forma livre na Internet, só consegui ler o resumo, e nele não constava a conclusão “a culpa é da mãe”. Esclareci que, pelo resumo, não me parecia que o estudo apontasse as mães como principais responsáveis pelo medo dos filhos, pelo contrário, o artigo trabalha com a hipótese de que o pai tem um papel chave na transmissão do medo de mãe para filho (“We have hypothesized a key role of the father in the transfer of dental fear from mother to child”). Infelizmente, sem ler o artigo completo, ficava difícil explicar o significado dessa afirmação no contexto da pesquisa. Mesmo assim, qual a manchete do Portal quando a entrevista foi publicada? “Mãe é culpada por medo de dentista dos filhos, diz estudo”. Humpf. 🙁
Mas aí meu grande amigo, o Dr. Alexandre Koga do ótimo blog Ortodontia Para Todos, conseguiu o artigo completo pra mim! Aí eu li e consegui entender a proposta da pesquisa. Senta que lá vem história…
A culpa é da mãe?
Foram selecionadas 183 crianças com idades entre 7 e 12 anos. Elas, pais e mães receberam questionários para classificar seus níveis de medo de dentista. A ideia do estudo era analisar a eventual transferência emocional do medo de dentista entre os membros da família, de forma a entender os mecanismos de sua transmissão. As hipóteses trabalhadas eram duas: primeiramente, determinar se há ligação entre os níveis de medo da mãe, do pai e da criança e, em particular, levantar se quanto mais medo de dentista tem um dos três, mais medo terão os outros dois. Isso feito, o objetivo era então definir quais os papéis do pai e da mãe na transferência do medo para os filhos.
Assim como em estudos anteriores sobre o tema, a conclusão a que se chegou é de que existe uma relação direta e significativa entre os diferentes níveis de medo de dentista relatados pelos membros da família, o que sugere que realmente há transferência emocional de medo de dentista entre pais e filhos.
Outros estudos já haviam sido realizados nesse sentido, mas o legal dessa pesquisa é que ela analisa o papel do pai e da mãe separadamente, enquanto, antes dela, só se havia considerado o comportamento das crianças em atendimento odontológico com relação ao nível de ansiedade manifesto em um dos pais, quase sempre a mãe (afinal, é a mãe que geralmente leva o filho ao dentista).
Pois bem: pais e mães desempenham papéis diferentes na transmissão do medo de dentista para os filhos. Foi usado um método estatístico chamado análise de regressão pra interpretar os dados obtidos na pesquisa e, de acordo com essa análise, a criança vê o PAI como uma fonte essencial de informação pra decidir se uma consulta odontológica pode ser “perigosa” ou não. Olha que interessante (parece que o jogo virou, não é mesmo?)… a análise dos dados leva a concluir que o medo de dentista da mãe serve como um “termômetro” que nos fala sobre os níveis de medo de dentista da família toda, mas o medo do PAI é que pode ser considerado um mediador para o medo de dentista que as mães e os filhos têm. Ou seja: quando pai e mãe têm medo de dentista, é o nível de medo do pai que prediz o nível de medo do filho.
Ok… então de quem é a culpa?
De ninguém, oras! O artigo não tem a intenção de culpar nem pai nem mãe pelo medo de dentista dos filhos, mas de mostrar que os papéis do pai e da mãe na transferência desse medo são diferentes. A mãe é a variável independente, o pai a variável mediadora e, o filho, a variável dependente.
Outros artigos citados no estudo trazem conclusões interessantes, também, e que confirmam os resultados da pesquisa: para crianças de até 12 anos, o medo de dentista do pai é o melhor indicador do medo de dentista em potencial dos filhos. Em crianças de 9 anos de idade, faixa etária da amostra desse estudo, o medo de dentista (geral) e o “medo de ter cárie” do pai são os melhores preditores para os mesmos medos dos filhos.
A boa notícia é que a prevalência de um medo de dentista significativo em crianças foi de apenas 4,9%, o que é bem baixo, já que a literatura fala num intervalo de 5 a 20%, com média de 11%. Claro que isso pode significar apenas uma restrição dos resultados, considerando as limitações da amostra e o tipo de análise que foi feito. Mas mesmo assim achei legal. 🙂 Com relação ao gênero, o estudo encontrou maior incidência de medo de dentista entre as meninas (comento essa conclusão mais adiante).
Uma das conclusões do artigo é que são necessárias mais pesquisas pra se entender o papel específico da mãe na transferência do medo de dentista para os filhos, já que isso certamente depende da idade da criança. Correlacionar o estágio de desenvolvimento da criança com o potencial de transferência do medo de dentista pelos pais é importante, pois pode ajudar dentistas e odontopediatras a antecipar e prevenir reações de medo das crianças durante a consulta.
Por fim, concluiu-se que o medo do pai é um fator-chave não só na transmissão do medo de dentista para os filhos mas na interrupção do contágio emocional entre os membros da família. Portanto, quaisquer intervenções destinadas a reduzir os níveis de medo de dentista do pai (informações sobre o tratamento, técnicas de relaxamento, enfim, qualquer estratégia que quebre a expectativa do “pior”) podem ajudar a atenuar ou até neutralizar a propagação do medo odontológico para a família toda. Quando os pais exibem calma e emoções positivas, o dentista deve incentivar a criança a prestar atenção no comportamento dos pais pois, ao fazer isso, ela é exposta a um modelo positivo que fornece “pistas” tranquilizadoras sobre como interpretar as situações dentro de um consultório odontológico.
O que eu acho disso tudo?
Eu interpreto da seguinte forma: os filhos tendem a perceber o pai como alguém corajoso, como um defensor. Se o pai tem medo de dentista, os filhos acharão que devem ter também. É tipo quando o filho vê uma aranha enorme (na perspectiva dele) e chama o pai pra se livrar dela. Se o pai disser “Eu não! Tenho medo desse bicho!” e sair correndo, há uma grande possibilidade do filho começar a ter medo de aranha… afinal a referência de coragem dele não é assim tão corajosa. Já se quem fugir da aranha for a mãe, o filho entende isso como “normal”, como uma vulnerabilidade dela, e não necessariamente ele terá medo de aranha por causa disso.
Não é difícil de entender essa lógica se considerarmos o contexto machista em que vivemos… às mulheres, de forma geral, é permitido (e às vezes desejável (!)) demonstrar vulnerabilidade; aos homens, não (o artigo chama isso de “desejabilidade social” e admite que esse fator, além do nível sócio-econômico parecido dos indivíduos da amostra, pode ter contribuído para alterar o resultado, mesmo que em menor grau). Se uma mulher diz ter medo de dentista, ok. Já se um homem admite que tem medo de dentista (e o uso do verbo “admitir”, aqui, não é coincidência), vai ter quem diga que é “frescura”, que ele ~não é homem de verdade~. O que ele faz? Guarda isso pra si. Esse é certamente um dos motivos pelos quais os maiores níveis de medo de dentista foram relatados pelas meninas e pelas mães.
Enfim… espero ter esclarecido e “absolvido” as mães: em nenhum momento o artigo diz que os filhos têm medo de dentista por causa da mãe, mas que ambos os pais transmitem esse medo de forma diferente, sendo que o nível de medo do pai é uma variável mais fiel pra medir o nível de medo de dentista dos filhos.
Se você não é dentista talvez nem tenha ouvido falar no PL 654/2015, que pedia a proibição do uso do amálgama dentário no Brasil. Ele foi quase proibido, em seguida o projeto de lei foi retirado e ficou por isso mesmo (por enquanto).
O que é amálgama?
Amálgama é um termo que se refere à mistura de metais, estando um deles em estado líquido. Via de regra, esse metal líquido é o mercúrio. Em Odontologia, chamamos de amálgama de prata aquelas restaurações escuras, metálicas, que hoje em dia andam meio em desuso.
Por que proibir as restaurações de amálgama?
O argumento recorrente dos críticos é que as restaurações de amálgama contêm mercúrio, um metal pesado e sabidamente tóxico para o organismo. E esse argumento, sem dúvida, merece atenção. Se alguma coisa é tóxica e pode fazer mal à saúde, é bom pensar 2 vezes antes de utilizá-la. Porém, é só analisar a questão com um pouco mais de profundidade pra se perceber que é frágil o embasamento dos contrários à utilização desse material com função restauradora.
Restauração de amálgama
O amálgama é realmente tóxico?
Ok, restaurações de amálgama contêm mercúrio. Mercúrio é tóxico. Então o amálgama das restaurações faz mal à saúde? Não é BEM assim.
O Dr. José Mondelli, Professor Sênior do Departamento de Dentística, Endodontia e Materiais Odontológicos da Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de S.Paulo é um dos defensores da continuação do uso das restaurações de amálgama. Suas justificativas, as mesmas que usarei aqui (tentando ao máximo simplificá-las pra você que não é dentista e não tem obrigação nenhuma de saber de nada disso) 🙂 , podem ser lidas na íntegra nesse artigo. Como você pode conferir no seu extenso Curriculum Lattes, ele é uma autoridade no assunto e não apenas “acha”, mas SABE do que está falando, baseado em ciência.
Segundo o Dr. Mondelli, os argumentos dos críticos do amálgama são “pouco louváveis”. Discute-se, por exemplo, quantos miligramas de mercúrio que podem evaporar de uma restauração de amálgama durante a mastigação. Outro ponto é a suposta elevação dos níveis de mercúrio no sangue e na urina quando a pessoa tem restaurações de amálgama, e a diminuição desses níveis quando essas restaurações são removidas. Porém não se acha publicada nenhuma pesquisa séria, científica, que demonstre que restaurações de amálgama causem doenças sistêmicas.
O mercúrio das restaurações de amálgama entra em contato com o organismo?
Aí é que está. É preciso lembrar que existem três formas de mercúrio: o inorgânico, o orgânico e o elementar. O mercúrio que está no amálgama é o inorgânico (ou metálico), que é mal absorvido pelo intestino e, quando EVENTUALMENTE absorvido, tende a permanecer neste estado até ser eliminado no xixi.
O mercúrio orgânico – esse sim, altamente tóxico e rapidamente absorvido pelo intestino – é completamente diferente do inorgânico, e é esse tipo de mercúrio que está presente em peixes e mariscos de água contaminada e em alguns pesticidas.
Já o mercúrio elementar vem da inalação de vapores, sendo que o vapor de mercúrio é absorvido e oxidado completamente à sua forma inorgânica (aquela que está no amálgama e acaba sendo eliminada na urina SE absorvida).
Diferenciadas as apresentações do mercúrio, é importante salientar que o organismo não é capaz de transformar o mercúrio inorgânico do amálgama em mercúrio orgânico, o tipo tóxico. A quantidade de mercúrio que o organismo absorve proveniente do amálgama é muito pequena se comparada à absorvida dos alimentos, por exemplo. (*)
Mas por que continuar a usar amálgama se hoje em dia já existe a “resina da cor do dente”?
Porque há casos e casos. As pessoas costumam achar feias as restaurações de amálgama, afinal elas são escuras e se destacam no dente, ao contrário das restaurações de resina, que nem aparecem. A questão é que, dependendo da situação, não dá pra usar resina… ou usar amálgama é BEM melhor.
Por exemplo: pacientes com necessidades especiais, que representam 10% da população do Brasil. Nesse tipo de paciente, o amálgama pode ser o único material restaurador viável, porque ele pode ser inserido e condensado mesmo na presença de saliva, algo impossível no caso da resina. O amálgama tem embricamento mecânico, já a resina é adesiva (e todo mundo sabe que algo molhado não “gruda”). Em pacientes especiais, pode não ser possível fazer isolamento absoluto pra garantir “tudo seco” pra adesão da resina. Além disso, as condições de higiene desses pacientes costumam ser piores, porque eles mesmos não conseguem escovar os dentes (imagine usar fio dental…), e nem sempre os cuidadores dão conta do recado. Uma restauração de resina em um paciente de higiene duvidosa é garantia de problemas, que vão desde à “queda” da restauração (porque ela não “grudou”) até dor, abscessos e necessidade de tratamento de canal.
E a poluição do meio ambiente?
Essa é uma questão que tem que ser levada muito a sério! Mas dizer que a remoção de restaurações de amálgama polui o meio ambiente é “meia verdade”… afinal de contas existem protocolos rígidos de descarte desse material, não é só jogar no ralo! O dentista que não faz o descarte respeitando esses protocolos, vai ter que se explicar com os órgãos competentes…
* * *
Concluindo, diz o Dr. Mondelli: “Não se pode deixar, em nome da modernidade, que palavras e até estudos longe das evidências científicas, mas perto dos interesses mercadológicos, ONGS ou entidades políticas, deem o veredito final acerca de um material sem que entidades internacionais como a ADA, FDA, FDI e órgãos oficiais de nosso país como o CFO (Conselho Federal de Odontologia) e CROs (Conselhos Regionais de Odontologia), além de associações responsáveis como a ABO e ABCD e entidades científicas e acadêmicas como a ABENO, GBMD, GBPD, responsáveis pela qualificação e ensino dos produtos odontológicos, demostrem de fato o que deve ser usado e ensinado e o que deve ser descartado. Até então, com a necessária prudência e dentro dos conhecimentos e estudos pertinentes, podemos prosseguir na utilização do amálgama dentário, sem o receio que tem se tentado disseminar sobre um possível efeito danoso de um de seus componentes”.
Enfim… ficou claro, né?! Critiquem, mas tenham base científica pra isso. 😉
Só a título de curiosidade: o uso mais antigo da palavra amálgama atribui-lhe o gênero masculino, o que significa que, de um ponto de vista normativo mais conservador, pode-se considerar que o correto é o amálgama. No entanto, atualmente, aceita-se o emprego da palavra no feminino e pode até se dizer que essa tendência se expandiu, de tal modo, que hoje amálgama é substantivo que ocorre corretamente quer no gênero masculino, quer no gênero feminino.
(*) AMERICAN DENTAL ASSOCIATION. Council on Scientific Affairs. Dental amalgam: update on safety concerns. J Am Dent Assoc, Chicago, v. 129, n. 4, p. 494-503, Apr. 1998.
Seu médico com certeza já pediu pra você fazer um hemograma. E seu dentista? Pois é, é bem provável que não, principalmente se você nunca precisou fazer nenhuma cirurgia odontológica mais complicada. Mas para os dentistas especialistas em Cirurgia e Traumatologia Bucomaxilofacial, por exemplo, é rotina.
Não é uma dúvida assim tão comum aqui no blog, mas de vez em quando alguém me pergunta sobre as implicações dos resultados de exames de sangue nos procedimentos odontológicos. Então eu acho que vale a pena falar sobre isso.
Entenda o hemograma
Exame de sangue e hemograma são a mesma coisa?
Não. Exame de sangue é uma expressão genérica, que pode representar uma série de exames. No sangue existem inúmeras substâncias, e é possível pesquisar a “quantidade” de quaisquer delas em circulação: proteínas, anticorpos, potássio, cálcio, sódio, colesterol, glicose, hormônios, drogas, bactérias… e por aí vai.
Já o hemograma avalia especificamente certas células sanguíneas, a saber: hemácias, leucócitos e plaquetas.
É preciso estar em jejum pra fazer um hemograma?
Não é preciso estar em jejum pra fazer um hemograma, nem deixar de comer algum tipo de alimento previamente.
O que o hemograma avalia?
O hemograma estuda os 3 tipos básicos de células presentes no sangue que são produzidas na medula óssea.
Hemácias (eritrócitos ou glóbulos vermelhos): sua função é transportar o oxigênio (principalmente) e gás carbônico aos tecidos. A contagem baixa de hemácias (eritrócitos, hemoglobina e hematócrito, analisados em conjunto) pode representar anemia, enquanto uma grande quantidade caracteriza uma policitemia (eritrocitose), o que causa o aumento da viscosidade do sangue e da chance de formação de coágulos (trombos), além de uma série de sintomas. .
Leucócitos (glóbulos brancos): são os responsáveis por defender o organismo de infecções e substâncias estranhas que possam prejudicar a nossa saúde. Então, quando a contagem de leucócitos está baixa, o organismo está desprotegido… e quando está alta, pode haver uma infecção bacteriana em curso. A leucemia, por exemplo, é o câncer nos leucócitos. Quando a contagem dessas células é muito alta (mais que 50.000 cel/mm3), pode ser por causa da doença. Já a grande diminuição de leucócitos costuma ocorrer por problemas na medula óssea. .
Plaquetas (trombócitos): são fragmentos celulares citoplasmáticos oriundos de células chamadas megacariócitos, cuja função é a formação de coágulos, participando, portanto, do processo de coagulação sanguínea. Sua diminuição ou disfunção pode levar a sangramentos por demora na coagulação, assim como seu aumento pode aumentar o risco de trombose.
Quais os valores de referência de um hemograma?
Primeiro é preciso deixar claro: os valores de referência são uma… referência. 🙂 Eles precisam ser interpretados pelo médico ou dentista e considerados junto a muitas outras informações pra se fechar um diagnóstico. Então não fique “neurótico” se os valores do seu hemograma estão um pouco abaixo ou um pouco acima do valor de referência, pois pode ser normal. Ainda, dependendo do laboratório que fez o exame, os valores de referência podem ser um pouco diferentes.
Eritrograma
É o estudo dos glóbulos vermelhos, que são as hemácias ou eritrócitos.
CRIANÇAS
Valores de referência no recém-nascido
Valores de referência no bebê até 1 ano
Valores de referência na criança
Eritrócitos (1012/L)
4 a 5,6
4 a 4,7
4,5 a 4,7
Hemoglobina (g/dL)
13,5 a 19,6
11 a 13
11,5 a 14,8
Hematócrito (%)
44 a 62
36 a 44
37 a 44
Volume corpuscular médio (fL)
77 a 101
77 a 95
Hemoglobina corpuscular média (pg)
28 a 33
HOMENS
Valores de Referência
Eritrócitos (1012/L)
4,32 a 5,52
Hemoglobina (g/dL)
13,5 a 18
Hematócrito (%)
40 a 50
Volume corpuscular médio (fL)
87 a 103
Concentração de hemoglobina corpuscular média (g/dL)
32 a 37
MULHERES
Valores de Referência na mulher
Valores de Referência na mulher grávida
Eritrócitos (1012/L)
3,9 a 5,03
3,9 a 5,6
Hemoglobina (g/dL)
12 a 16
11,5 a 16
Hematócrito (%)
35 a 45
34 a 47
Volume corpuscular médio (fL)
87 a 103
Concentração de hemoglobina corpuscular média (g/dL)
Eritrócitos se refere à contagem do número de hemácias.
Hemoglobina é uma molécula que fica dentro da hemácia e faz o transporte de oxigênio. A dosagem de hemoglobina é mais precisa na avaliação de uma anemia.
Hematócrito é o percentual de sangue que é ocupado pelas hemácias. Um hematócrito de 40 significa que 40% do sangue é compostos por hemácias. Portanto, praticamente metade do sangue é composto por células vermelhas.
Volume corpuscular médio mede o tamanho das hemácias. Quanto maior o valor, maiores as hemácias. Pelo tamanho das hemácias, diferenciam-se os tipos de anemia (embora existam anemias com hemácias de tamanho normal). Quando há anemia por carência de ácido fólico, por exemplo, as hemácias são grandes, e quando há anemia por falta de ferro (ferropriva) as hemácias são pequenas.
Concentração de hemoglobina corpuscular média avalia a concentração de hemoglobina dentro da hemácia.
Lembrando: tenha em mente que é preciso INTERPRETAR esses valores pra se fazer um diagnóstico, ok?!
Leucograma
É a parte do hemograma que avalia os leucócitos, conhecidos como glóbulos brancos, que são células de defesa do organismo. Existem vários tipos de leucócitos, com funções diferentes.
HOMENS E MULHERES
Valores de Referência
Leucócitos (109/L)
4,5 a 11
Neutrófilos (%)
40 a 80
Eosinófilos (%)
0 a 5
Basófilos (%)
0 a 2
Linfócitos (%)
20 a 50
Monócitos (%)
0 a 12
Leucócitos se refere à contagem geral dessas células.
Até 75% dos leucócitos circulantes são neutrólifos. Eles combatem bactérias. Quando há uma infecção bacteriana, o número deles se eleva, aumentando o número de leucócitos totais. Os bastões são os neutrófilos jovens. A maior presença de células jovens é um sinal de que pode haver um processo infeccioso em curso, o que se chama comumente de “desvio à esquerda”. Quando há mais neutrófilos segmentados (maduros) do que bastões, é sinal de que não há doença ou que ela já passou.
Eosinófilos são os leucócitos responsáveis pelo combate aos parasitas e pelo mecanismo da alergia. Portanto, pessoas alérgicas, asmáticas ou com infecção intestinal por parasitas têm o número de eosinófilos aumentado.
Basófilos são só 0 a 2% dos glóbulos brancos. Sua elevação normalmente ocorre em processos alérgicos e estados de inflamação crônica.
Linfócitos são o segundo tipo mais comum de glóbulos brancos. São a primeira linha de defesa nas infecções por vírus e contra o surgimento de tumores. São eles que produzem os anticorpos (proteínas usadas pelo sistema imunológico para identificar e neutralizar agentes invasores), também. Quando há uma infecção viral, o número de linfócitos aumenta.
Monócitos são ativados tanto nas infecções por bactérias quanto por vírus. O sistema imune os envia para o local da infecção, onde eles viram macrófagos, que literalmente comem micro-organismos invasores. Os número de monócitos costuma estar aumentado no caso de infecções crônicas.
Lembrando: tenha em mente que é preciso INTERPRETAR esses valores pra se fazer um diagnóstico, ok?!
Plaquetas
As plaquetas são fragmentos de células responsáveis pelo início do processo de coagulação, são elas que formam a “casquinha” da ferida que estanca o sangramento. Mas mesmo com o valor das plaquetas baixo, em cerca de 50, o organismo ainda dá conta de fazer a coagulação. Abaixo de 10, há risco de morte.
HOMENS E MULHERES
Valor de Referência
Plaquetas (1019/L)
150 a 450
O número de plaquetas precisa estar dentro de valores aceitáveis pra se fazer qualquer cirurgia (odontológica ou não), se não pode haver hemorragia.
* * *
Espero que esse resumo ajude a desmistificar o hemograma. Caso você tenha dúvida quanto às unidades, pode usar esse conversor, basta escolher as unidades adequadas pra conversão (talvez as usadas aqui não sejam as mesmas do seu hemograma).
Deixo claro que perguntas do tipo “Dra., o que eu tenho?” baseadas em valores encontrados em hemogramas não serão respondidas aqui, ok?! Se você fez um hemograma, é porque seu médico ou dentista pediu… então converse com ele(s) sobre os resultados.
Hoje é dia 2 de abril: Dia Mundial da Conscientização do Autismo. 🙂
O que é autismo?
Autismo é um transtorno global de desenvolvimento marcado por algumas características fundamentais em maior ou menor grau: inabilidade / dificuldade de interação social (de olhar nos olhos das pessoas, por exemplo), dificuldade de se expressar verbalmente e de dominar a linguagem, além de um padrão de comportamento restritivo, repetitivo e/ou estereotipado.
Admite-se, atualmente, a existência de múltiplas causas para o autismo, entre elas fatores genéticos e biológicos. O autismo se desenvolve na infância precoce (até os 3 anos de idade) e o diagnóstico é clínico, baseado nas características citadas acima.
O autismo foi descrito primeira vez por Leo Kanner, em 1942.
2 de abril: Dia Mundial da Conscientização do Autismo
O que o autismo tem a ver com Odontologia?
Autistas também precisam ir ao dentista, como qualquer outra pessoa. E as alterações comportamentais são um importante complicador no atendimento odontológico, pois dificultam a realização de exames e tratamentos. É essencial que o dentista conheça as características do autismo de forma a melhor planejar e direcionar o tratamento odontológico desse tipo de paciente.
A Odontologia vem modificando sua visão sobre o atendimento de autistas, desde a consolidação da necessidade do tratamento preventivo até o envolvimento da família nesse processo. Como o atendimento curativo do paciente autista pode ser bem difícil e trabalhoso, o ideal é um acompanhamento constante e rigoroso, procurando-se interceptar a ocorrência de qualquer problema bucal mais sério.
Encontrar novas possibilidades de intervenção e acolhimento destes pacientes deve ser uma busca constante de todos que trabalham com o autismo, visando atendimentos mais efetivos e ações menos desgastantes, estressantes e traumáticas, tanto para a família quanto para o paciente, si.
Qual especialista procurar?
O tratamento do autismo, em si, envolve uma equipe multidisciplinar. O paciente precisará do acompanhamento de um médico neuropediatra, psicólogo, terapeuta ocupacional e qualquer outro profissional que se faça necessário pra ajudar no desenvolvimento da criança.
No âmbito da Odontologia, é o dentista especialista em pacientes com necessidades especiais que está mais preparado para atender o paciente autista.
Quais cuidados são necessários no atendimento odontológico de um paciente autista?
Algumas dicas importantes:
Autistas não filtram bem certos estímulos sensoriais como sons, cheiros, texturas e imagens. Quanto mais simplificado for o ambiente sensorial da criança, melhor. Usar fantoches pode ajudar na interação e comunicação do dentista com a criança autista durante o atendimento odontológico. É uma boa forma de explicar como escovar os dentes, por exemplo. .
Se a criança se alterar, não faça o mesmo: procure se manter calmo, não grite, não franza as sobrancelhas, não faça careta. Se movimente de forma lenta. Se a criança interagir, responda ao seu comportamento com um reforço positivo, elogie, comemore, bata palmas. Tenha reações grandes e empolgadas para qualquer sinal de interesse ou disposição da criança. .
Os pais são os aliados mais importantes e duradouros da criança, eles fornecem um foco consistente para treinamento, educação e inspiração. Juntar-se a uma criança em seus comportamentos repetitivos e ritualísticos fornece a chave para se decifrar o mistério destes comportamentos, e facilita o contato de olho no olho, o desenvolvimento social e a inclusão dos outros na brincadeira da criança. .
A utilização da motivação da própria criança impulsiona o aprendizado e constrói a fundação para a educação e a aquisição de habilidades. A visita ao dentista é considerada uma nova habilidade. Uso de energia, empolgação e entusiasmo envolve e motiva a criança, inspirando um desejo contínuo por interação e aprendizagem.
Essas dicas (que estão nesse artigo da Revista Autismo) são da Dra. Adriana Gledys Zink, que é cirurgiã-dentista especialista em pacientes com necessidades especiais. Ela se dedica ao estudo do condicionamento do paciente autista para o tratamento odontológico. Contatos: (11) 2212-8933 ou 2649-1011, e-mail: [email protected]. Ela também tem um blog só sobre o tema, vale a pena conferir –> Autismo e Odontologia