Nos últimos dias um artigo científico com o título Contágio emocional do medo de dentista para os filhos: o papel mediador do pai na transferência parental do medo (Emotional contagion of dental fear to children: the fathers’ mediating role in parental transfer of fear. International Journal of Paediatric Dentistry 2012; 22:324–330) publicado em 2012 surgiu como novidade em alguns portais de notícias. Segundo esse artigo, supostamente, se você tem medo de dentista, a culpa é da sua mãe. Ok, se a conclusão do estudo fosse essa. Mas não é. Parece que alguém ouviu o galo cantar e não soube onde…

Fui procurada pra dar entrevista sobre o assunto, com o entrevistador já partindo do princípio de que a afirmação “a culpa é da mãe” era verdadeira. Achei estranho. Esse não é um artigo que dê pra ler de forma livre na Internet, só consegui ler o resumo, e nele não constava a conclusão “a culpa é da mãe”. Esclareci que, pelo resumo, não me parecia que o estudo apontasse as mães como principais responsáveis pelo medo dos filhos, pelo contrário, o artigo trabalha com a hipótese de que o pai tem um papel chave na transmissão do medo de mãe para filho (“We have hypothesized a key role of the father in the transfer of dental fear from mother to child”). Infelizmente, sem ler o artigo completo, ficava difícil explicar o significado dessa afirmação no contexto da pesquisa. Mesmo assim, qual a manchete do Portal quando a entrevista foi publicada? “Mãe é culpada por medo de dentista dos filhos, diz estudo”. Humpf. 🙁
Mas aí meu grande amigo, o Dr. Alexandre Koga do ótimo blog Ortodontia Para Todos, conseguiu o artigo completo pra mim! Aí eu li e consegui entender a proposta da pesquisa. Senta que lá vem história…
A culpa é da mãe?
Foram selecionadas 183 crianças com idades entre 7 e 12 anos. Elas, pais e mães receberam questionários para classificar seus níveis de medo de dentista. A ideia do estudo era analisar a eventual transferência emocional do medo de dentista entre os membros da família, de forma a entender os mecanismos de sua transmissão. As hipóteses trabalhadas eram duas: primeiramente, determinar se há ligação entre os níveis de medo da mãe, do pai e da criança e, em particular, levantar se quanto mais medo de dentista tem um dos três, mais medo terão os outros dois. Isso feito, o objetivo era então definir quais os papéis do pai e da mãe na transferência do medo para os filhos.
Assim como em estudos anteriores sobre o tema, a conclusão a que se chegou é de que existe uma relação direta e significativa entre os diferentes níveis de medo de dentista relatados pelos membros da família, o que sugere que realmente há transferência emocional de medo de dentista entre pais e filhos.
Outros estudos já haviam sido realizados nesse sentido, mas o legal dessa pesquisa é que ela analisa o papel do pai e da mãe separadamente, enquanto, antes dela, só se havia considerado o comportamento das crianças em atendimento odontológico com relação ao nível de ansiedade manifesto em um dos pais, quase sempre a mãe (afinal, é a mãe que geralmente leva o filho ao dentista).
Pois bem: pais e mães desempenham papéis diferentes na transmissão do medo de dentista para os filhos. Foi usado um método estatístico chamado análise de regressão pra interpretar os dados obtidos na pesquisa e, de acordo com essa análise, a criança vê o PAI como uma fonte essencial de informação pra decidir se uma consulta odontológica pode ser “perigosa” ou não. Olha que interessante (parece que o jogo virou, não é mesmo?)… a análise dos dados leva a concluir que o medo de dentista da mãe serve como um “termômetro” que nos fala sobre os níveis de medo de dentista da família toda, mas o medo do PAI é que pode ser considerado um mediador para o medo de dentista que as mães e os filhos têm. Ou seja: quando pai e mãe têm medo de dentista, é o nível de medo do pai que prediz o nível de medo do filho.
Ok… então de quem é a culpa?
De ninguém, oras! O artigo não tem a intenção de culpar nem pai nem mãe pelo medo de dentista dos filhos, mas de mostrar que os papéis do pai e da mãe na transferência desse medo são diferentes. A mãe é a variável independente, o pai a variável mediadora e, o filho, a variável dependente.
Outros artigos citados no estudo trazem conclusões interessantes, também, e que confirmam os resultados da pesquisa: para crianças de até 12 anos, o medo de dentista do pai é o melhor indicador do medo de dentista em potencial dos filhos. Em crianças de 9 anos de idade, faixa etária da amostra desse estudo, o medo de dentista (geral) e o “medo de ter cárie” do pai são os melhores preditores para os mesmos medos dos filhos.
A boa notícia é que a prevalência de um medo de dentista significativo em crianças foi de apenas 4,9%, o que é bem baixo, já que a literatura fala num intervalo de 5 a 20%, com média de 11%. Claro que isso pode significar apenas uma restrição dos resultados, considerando as limitações da amostra e o tipo de análise que foi feito. Mas mesmo assim achei legal. 🙂 Com relação ao gênero, o estudo encontrou maior incidência de medo de dentista entre as meninas (comento essa conclusão mais adiante).
Uma das conclusões do artigo é que são necessárias mais pesquisas pra se entender o papel específico da mãe na transferência do medo de dentista para os filhos, já que isso certamente depende da idade da criança. Correlacionar o estágio de desenvolvimento da criança com o potencial de transferência do medo de dentista pelos pais é importante, pois pode ajudar dentistas e odontopediatras a antecipar e prevenir reações de medo das crianças durante a consulta.
Por fim, concluiu-se que o medo do pai é um fator-chave não só na transmissão do medo de dentista para os filhos mas na interrupção do contágio emocional entre os membros da família. Portanto, quaisquer intervenções destinadas a reduzir os níveis de medo de dentista do pai (informações sobre o tratamento, técnicas de relaxamento, enfim, qualquer estratégia que quebre a expectativa do “pior”) podem ajudar a atenuar ou até neutralizar a propagação do medo odontológico para a família toda. Quando os pais exibem calma e emoções positivas, o dentista deve incentivar a criança a prestar atenção no comportamento dos pais pois, ao fazer isso, ela é exposta a um modelo positivo que fornece “pistas” tranquilizadoras sobre como interpretar as situações dentro de um consultório odontológico.
O que eu acho disso tudo?
Eu interpreto da seguinte forma: os filhos tendem a perceber o pai como alguém corajoso, como um defensor. Se o pai tem medo de dentista, os filhos acharão que devem ter também. É tipo quando o filho vê uma aranha enorme (na perspectiva dele) e chama o pai pra se livrar dela. Se o pai disser “Eu não! Tenho medo desse bicho!” e sair correndo, há uma grande possibilidade do filho começar a ter medo de aranha… afinal a referência de coragem dele não é assim tão corajosa. Já se quem fugir da aranha for a mãe, o filho entende isso como “normal”, como uma vulnerabilidade dela, e não necessariamente ele terá medo de aranha por causa disso.
Não é difícil de entender essa lógica se considerarmos o contexto machista em que vivemos… às mulheres, de forma geral, é permitido (e às vezes desejável (!)) demonstrar vulnerabilidade; aos homens, não (o artigo chama isso de “desejabilidade social” e admite que esse fator, além do nível sócio-econômico parecido dos indivíduos da amostra, pode ter contribuído para alterar o resultado, mesmo que em menor grau). Se uma mulher diz ter medo de dentista, ok. Já se um homem admite que tem medo de dentista (e o uso do verbo “admitir”, aqui, não é coincidência), vai ter quem diga que é “frescura”, que ele ~não é homem de verdade~. O que ele faz? Guarda isso pra si. Esse é certamente um dos motivos pelos quais os maiores níveis de medo de dentista foram relatados pelas meninas e pelas mães.
Enfim… espero ter esclarecido e “absolvido” as mães: em nenhum momento o artigo diz que os filhos têm medo de dentista por causa da mãe, mas que ambos os pais transmitem esse medo de forma diferente, sendo que o nível de medo do pai é uma variável mais fiel pra medir o nível de medo de dentista dos filhos.



Segundo a Sociedade Americana de Odontologia, 3 em cada 10 adultos têm medo de ir ao dentista. Confesso que achei “pouco”, visto que interajo com esse tipo de paciente já há alguns anos. Claro, é preciso considerar que a severidade do medo varia da ansiedade à 


