“O que é melhor para um menino de 16 anos… tenho um dente em estado ruim, o que eu faço? Extraio o dente ou faço o canal… o que é melhor? Minha mãe falou que canal é ruim, pode quebrar… ela acha que o melhor é arrancar porque é o penúltimo dente de cima”.
Essa é uma pergunta que eu ouço bastaste e, assim como a do leitor, muitas vezes ela vem associada com a opinião do pai / da mãe / do vizinho sobre o que deve ser feito.
Geralmente, o leigo acha que o dentista sempre vai querer manter o dente porque é mais dinheiro no bolso dele… só que isso não é verdade. De forma imediata, salvar um dente parece mais caro, já que um tratamento de canal costuma custar mais do que uma extração dentária. Mas sabe o que é mais caro ainda? Um implante e uma prótese.
Se tivessem tentado tratar o canal…
Você até pode achar que extrair um dente significa “menos um pra dar trabalho”, mas eu acho que só se troca um problema pelo outro. Se cada dente cariado ou com necessidade de tratamento de canal for simplesmente extraído, um dia o estoque acaba, não é mesmo?! E, enquanto não acaba, o buraco só vai aumentando… faz-se o que com ele? Gente, dente serve pra mastigar! Se não há dente (ou uma prótese que o substitua), seu cardápio vai ser só sopa! Não sei você, mas eu não dispenso um bom churrasco…
Segundo a mãe do nosso leitor, “canal é ruim porque pode quebrar”. Não é bem assim. Dentes com tratamento de canal precisaram ser abertos, perderam tecido dentário (além daquele que já tinha sido perdido para a cárie) e ficam mais frágeis A NÃO SER QUE sejam restaurados logo em seguida do tratamento de canal ser concluído. Ou seja, muitas vezes os dentes que tiveram seus canais tratados se quebram porque não foram restaurados, ficando só na massinha por longos períodos… até quebrarem.
Enfim, não sou a dona da verdade e sei que a vida não tá fácil pra ninguém. Reconheço que muitas pessoas não têm condições de pagar por um tratamento de canal particular. Mas o serviço público e as faculdades de Odontologia estão aí pra isso. Nesses lugares é possível conseguir atendimento gratuito. Informe-se da disponibilidade desses serviços na sua cidade. Sim, provavelmente você vai demorar mais para ser atendido mas, ao contrário da fama, o tratamento não deve nada ao particular.
Vale a pena ficar com os seus dentes, e a decisão por manter ou extrair não é apenas uma questão do que você prefere fazer, mas da indicação do seu dentista e do plano de tratamento. É mais barato ter todos os dentes DESDE QUE você aprenda a cuidar deles. Peça orientação ao seu dentista. Gastar com saúde, de forma planejada, é investimento, não prejuízo.
Se tem uma pergunta que eu ouço sempre é essa: “Doutora, tem uma bolinha na minha gengiva! Ela aparece, fica um tempo e depois some. O que é isso?” Pra saber com certeza, só indo no dentista. Mas eu imagino o que possa ser…
Essa bolinha ou bolha nada mais é do que um jeito que o seu organismo arrumou para expulsar o pus proveniente de uma infecção, seja do seu dente, seja da sua gengiva. Não tendo por onde sair, o pus cria um “caminho” por dentro do osso chamado fístula, e a saída da fístula na gengiva é a tal bolha recorrente.
Fístula em dente com necessidade de tratamento de canal
Como essa infecção começou, depende. Talvez através de uma cárie que tenha atingido o canal do dente, talvez pelo acúmulo de tártaro que levou a um problema gengival. O fato é: se a causa da infecção não for removida, essa bolinha pode aparecer e sumir várias vezes, por muito tempo, sem nenhum outro sintoma. Ou você pode morrer de dor, ter febre e o seu rosto inchar, obrigando até o dentista a fazer uma drenagem do abscesso (fazer um corte para ajudar a liberar o pus).
Se o problema tiver origem no canal do dente, o tratamento consiste em tratar o canal. Assim, as bactérias que causaram a infecção são removidas e a tal bolinha vai desaparecer de uma vez. Já se a infecção for proveniente da gengiva, será preciso eliminar as bactérias através de uma raspagem, limpando a região em volta dos dentes do tártaro que houver. Em ambos os casos, sendo necessário uso de antibióticos, eles serão prescritos pelo seu dentista. Nunca se auto-medique, pois há uma grande chance de você tomar o remédio errado e agravar o problema.
“Ah… mas eu não sinto dor e essa bolinha não incomoda! Não dá pra deixar assim mesmo?” Não. Toda infecção no seu organismo deve ser tratada, sob pena de perder o seu dente ou de acontecer coisa pior. Nunca subestime uma infecção, mesmo que você ache que “é só um dente”. Porque tem gente que já morreu disso…
Dá. Mas é um tipo especial de clareamento chamado clareamento interno. A técnica tem esse nome porque é feita pelo lado de dentro do dente.
Dentes com tratamento de canal costumam ter a cor alterada, ficando mais escuros. Isso pode acontecer por uma série de motivos. Primeiramente porque perdem a vitalidade, ou seja, o nervo desses dentes morre e é removido pelo dentista. Mas outros fatores podem colaborar com esse escurecimento: restos de tecido necrosado (morto) que ficaram dentro da coroa do dente, um sangramento interno, resíduos da medicação (guta-percha e cimento endodôntico) que o dentista usa para vedar o canal e até manchamentos causados por restaurações de amálgama (aquelas metálicas).
Clareamento interno (esquema)
O produto usado para clarear um dente num clareamento interno, o perborato de sódio, é diferente daquele usado para clareamentos externos (o peróxido de carbamida ou o peróxido de hidrogênio). O clareamento interno geralmente é feito através de um curativo de demora. Funciona assim:
O dente é aberto através do mesmo local por onde foi feito o tratamento de canal;
O dentista tira qualquer resíduo de obturação que esteja dentro da coroa do dente e faz uma “tampa” que separa a coroa, que está vazia, da raiz, que está obturada (se tem dúvidas, veja aqui o que é um tratamento de canal). Essa “tampa” é uma proteção necessária para evitar danos à raiz do dente;
O dentista coloca o produto clareador dentro do dente e fecha provisoriamente.
Normalmente, o clareador é trocado uma vez por semana, pelo tempo que o profissional achar conveniente… quase sempre 3 ou 4 vezes. Pode-se, ainda, associar o clareamento interno com o externo, de forma a potencializar os resultados. De qualquer forma, nem sempre o dente clareado atinge a mesma cor dos outros dentes. Nesse caso, é possível recorrer a outras soluções, como por exemplo, as facetas. Facetas são restaurações que cobrem toda a parte da frente de um dente anterior.
Se a cor daquele seu dente da frente do qual você precisou tratar o canal está mais escura que a dos outros, fique tranquilo: tem solução. Procure um dentista e faça uma avaliação. Mas saiba que, dependendo do escurecimento, talvez apenas o clareamento interno não dê conta do recado. Não adianta ficar bravo com o dentista no melhor estilo “eu quero meu dinheiro de volta”. Milagre é com Nosso Senhor Jesus Cristo. Amém. 😉
Que dente de leite fica mole e cai, todo mundo sabe. É normal e esperado e, além disso, quando cair vai nascer outro. Mas existem algumas situações em que os dentes permanentes podem apresentar mobilidade, e nesse caso a gente se assusta.
A mais comum dessas situações é, infelizmente, a doença periodontal, periodontite ou piorréia (termo popular). Já falei dela aqui no blog, mas não custa relembrar. A doença periodontal pode ter início quando a pessoa não controla devidamente a placa bacteriana, ou seja, não escova os dentes assiduamente e, muito menos, corretamente.
Num primeiro momento aparece a gengivite, que é a inflamação da gengiva. Normalmente não dói, mas sangra. E aí, quando a gengiva sangra, a pessoa pensa que é melhor parar de escovar os dentes… e o que já não era bom, fica pior. A placa mineraliza (“vira pedra”, e eis o tártaro) e se antes bastava escovar os dentes, agora só o dentista dá jeito. É preciso uma raspagem (remoção do tártaro com curetas e/ou aparelho de ultra-som).
O tártaro tende a entrar por baixo da gengiva e estimular a formação de bolsas periodontais e a perda óssea. E o que é que segura o dente em pé? Osso. Se o osso vai embora, o dente não tem onde se segurar… fica mole e pode até cair sozinho. E mesmo quando não cai, talvez não tenha mais salvação, e aí o jeito é extrair. Algo que era pra ser resolvido com escova e pasta de dentes, virou serviço pra boticão…
Contenção (esplintagem)
A segunda situação em que um dente permanente pode ficar mole é no caso de trauma. Um acidente, uma pancada, uma batida. Além das fraturas dentárias, existe uma série de situações possíveis, sendo as mais comuns:
Concussão: é aquela batidinha que dói e talvez sangre. Geralmente não traz danos mais graves.
Subluxação: resultado de um impacto frontal, coisa de quem bate a cara na porta (ou a porta na cara). Aí as fibras periodontais que unem o dente ao osso podem se romper, o que deve deixar o dente um pouco bambo. Talvez haja necessidade de tratar o canal…
Luxação intrusiva: o dente se desloca pra dentro do alvéolo (buraco onde ele fica), ou seja, “entra”. Pode ocorrer, ao mesmo tempo, fratura do osso alveolar. Procure um dentista, porque certamente você terá que tratar o canal. A intrusão costuma esmagar as fibras periodontais e o feixe vásculo-nervoso.
Luxação extrusiva: o dente se desloca pra fora do alvéolo, mas não chega a sair dele. É também chamada de “avulsão parcial”. O dentista terá que reposicionar o seu dente e fazer uma contenção, ou seja, colar um fio unindo esse dente aos vizinhos. O canal deverá ser tratado também. É possivel que, com o tempo, a raiz desse dente vá sumindo e você o perca. Mas vamos torcer, né?!
Luxação lateral: o dente se desloca para frente ou para trás, além de certamente haver fratura óssea. O dente terá que ser reposicionado, há necessidade de contenção e o canal deverá ser tratado. A chance de que a raiz do dente suma, aumenta. Mas pela pancada que você deve ter levado, talvez esse seja o menor dos seus problemas…
Avulsão: o dente se desloca totalmente para fora do alvéolo. Ajunte-o SEM TOCAR NA RAIZ para não comprometer as fibras do ligamento periodontal, lave-o com soro fisiológico ou água SEM ESFREGAR e CORRA AO DENTISTA. Ele vai limpar o alvéolo e reimplantar o dente, se ainda for possível (o ideal é que se faça isso em até 2 horas após o acidente). De preferência, leve o dente dentro de um recipiente com um pouco de água, cuspe saliva, água de coco, soro fisiológico ou leite. Também haverá necessidade de tratar o canal e usar uma contenção. E sim, é muito possível que esse dente um dia se perca por falta de raiz que o segure. Mas é importante mantê-lo enquanto der, pra garantir que o osso da região seja abundante e, no dia que você precisar de um implante, não falte osso para instalá-lo.
A terceira situação em que um dente fica mole é bem menos traumática… e proposital. Nossos dentes parecem moles (e, na realidade, até ficam um pouco mesmo) quando os movimentamos ortodonticamente. Isso é difícil de notar no dia-a-dia, mas fica bem claro quando o ortodontista tira o arco do aparelho na consulta mensal. A função de um aparelho dentário é a de colocar os dentes nas suas posições corretas. Só que pra isso eles precisam “caminhar” através do osso. Isso significa um processo contínuo de neoformação e reabsorção óssea, ou seja, osso novo se forma enquanto osso existente some. E o dentinho vai andando…
Claro que, se o paciente que usa aparelho resolve negligenciar a higiene bucal, os dentes podem deixar de parecerem moles e efetivamente ganharem mobilidade… do jeitinho que eu expliquei anteriormente. Levando em conta que a higienização de quem usa aparelho é bem mais complicada com aquele monte de “ferros” na boca, cuidado! Se você não caprichar e levar a sério, pode ter problemas com cáries, gengivite, crescimento gengival, mau hálito…
Enfim, dente mole em pessoa adulta não é normal. Mas via de regra, a causa desse problema é higiene deficiente (ou uma pancada). Se você não sabe escovar os dentes e usar o fio dental, peça orientação ao seu dentista… estamos aí pra isso. Uma boa higiene bucal é resultado de uma combinação de orientação, técnica e disciplina, ou seja, saber fazer, fazer certo e fazer sempre. Necessariamente nessa ordem.
Se você leu este texto looooongo até aqui, seus dentes estão moles e você não é um tubarão (daqueles que têm 3 fileiras de dentes e cada vez que um cai nasce outro), preocupe-se. A noticia boa é que ainda dá tempo de não ficar banguela. Procure um dentista. 🙂
Hoje no Coisas Que Dão Medo gostaria de falar sobre o temido tratamento de canal. Primeiramente, vamos esclarecer, de uma vez por todas e de forma simples, o que é “tratar um canal”. O seu dente não é maciço. Dentro dele fica a polpa, conhecida popularmente como o nervo do dente. Às vezes esse nervo fica inviável, ou seja, não pode mais ser mantido onde está porque, se ainda não morreu, vai morrer. Isso acontece por uma série de motivos, mas o mais comum é a cárie. Quando a cárie atinge a polpa (ou chega muito perto dela)… já era.
Um dente agonizando.
Pois bem. Aí é que chega a hora de tratar o canal. Tratar o canal de um dente (especialidade odontológica chamada endodontia) nada mais é do que:
1. Abrir o dente (trabalho que a própria cárie provavelmente já começou);
2. Retirar a polpa (o “nervo do dente”, ou o que sobrou dele), morta ou moribunda;
3. Limpar o interior do dente;
4. Preencher os canais do dente com um material que impeça a entrada e proliferação de bactérias.
De forma BEM simples, é isso. 🙂
Radiografia de dentes com tratamento de canal
“Ah, mas o meu dente não está doendo! Pra que gastar uma fortuna e tratar o canal?” Às vezes o dente não dói mesmo. Bom pra você, né?! 🙂 Mas independente disso, existe uma infecção. Então, tem que tratar para preservar a saúde dos tecidos periapicais e para manter o dente na boca. Sim, se você deixá-lo lá sem tratamento poderá perdê-lo. Neste caso, aconselho, como dizia um professor meu, mandar rezar uma novena. 🙂
“Tá, mas a amiga da prima da minha mãe fez um tratamento de canal e quase morreu de tanta dor!“ Já falei disso por aqui. Tratar o canal do dente não é o que causa a dor… é o que faz o dente parar de doer! Quando a região está muito infeccionada / inflamada o pH (“acidez”) tecidual fica alterado… aí a anestesia não “pega” direito. Então porque esperar a coisa ficar preta? Corra no seu dentista ao primeiro sinal de dor e resolva logo isso. Neste estágio, dá pra evitar que a cárie acabe em canal. Ou, se preferir, demore bastante e saia por aí difamando dizendo que ir no dentista dói.
Provavelmente você já ouviu por aí notícias como “dentista esquece agulha dentro do dente do paciente“. A tal “agulha” é, na verdade, uma lima endodôntica, instrumento usado para limpar o interior do dente. E não, ela não foi esquecida lá. Isso não acontece. Deixe-me explicar…
Durante o processo de limpeza (saneamento), alargamento e modelagem de um canal, o endodontista utiliza limas endodônticas, realizando com elas movimentos de limagem, rotação, etc.. Algumas vezes a lima pode “enroscar” nas paredes do canal e quebrar. Isso é MUITO comum, e não tem a ver necessariamente com imprudência ou imperícia do dentista. Arrisco dizer que TODO dentista que faz endodontia já quebrou uma lima dentro de um dente. Eu já quebrei. Quando isso acontece, o primeiro passo é tentar tirar o pedaço lá de dentro. Às vezes é IMPOSSÍVEL, devido à posição em que está o fragmento. Aí a gente deixa lá dentro. Mesmo. Termina o canal, avisa e orienta o paciente e acompanha o caso radiograficamente.
Em resumo: prevenção é a palavra. Se sua higiene bucal é adequada, você provavelmente não desenvolverá cáries. Se tiver uma cárie e sentir dor, vá logo ao dentista pra que você não chegue ao ponto de ter que tratar um canal. E, mesmo que não sinta dor, vá ao dentista periodicamente pra que, se houver uma cárie, ela não tenha nem chance de doer. Simples assim. 🙂