Categoria: Marketing

  • A Guerra das Pastas de Dente

    A Guerra das Pastas de Dente

    Comercial de produtos de higiene bucal é a coisa mais engraçada do mundo. Se você é dentista, deve rir a beça com tudo aquilo. Saem raios laser das cerdas da escova de dentes, as bactérias gritam em desespero e, para ratificar a eficácia que só aquela marca é capaz de proporcionar, tudo isso tem a chancela de 9 entre 10 dentistas. E eu devo ser a décima, porque não lembro de ter sido consultada a respeito. 😀

    E aí? Vai em qual?

    Não tenho nada contra qualquer marca de produtos de higiene bucal, pelo contrário, acho que estamos muito bem servidos com relação a isso. Mas é que, pra quem é dentista, é inevitável não refletir sobre as informações que as embalagens de cremes dentais, por exemplo, trazem estampadas. As duas marcas líderes em vendas no Brasil são essas aí da imagem: Colgate e Oral B. A Colgate sempre foi (e continua sendo) mestre em marketing. É capaz de vender escova de dentes pra banguela.  E a Oral B vem investindo pesado em publicidade, além de ter lançado uma linha de pastas de dente, segmento no qual nunca havia marcado presença antes. E eu não consigo imaginar o porquê.

    Pois bem. Em relação aos cremes dentais, essas marcas cumprem o que prometem? Vejamos:

    –> COLGATE TOTAL 12: (leia no Vida de Dentista também)

    Diz ser tiro e queda para 12 problemas bucais, os quais eu cito:

    1. Cárie
    2. Protege a gengiva
    3. Tártaro
    4. Previne a placa bacteriana
    5. Previne a desmineralização dos dentes
    6. Previne as bactérias da língua
    7. Combate as bactérias
    8. Cáries nas raízes
    9. Problemas na gengiva
    10. Mau hálito
    11. Fortalece o esmalte dos dentes
    12. Promove a remineralização dos dentes

    Ela muito provavelmente faz tudo isso mesmo. O que me chama a atenção é que, segundo as informações da embalagem, faz várias coisas mais de uma vez. Os itens 1 e 8 são a mesmíssima coisa. Entre 2 e 9 não achei diferença. Os problemas 3 e 4 são iguais, já que o tártaro é a placa bacteriana mineralizada. Controlou a placa, resolveu o tártaro.

    Os itens 5, 11 e 12 poderiam ser um só, e agradecerem de mãos dadas ao flúor, que está presente em qualquer creme dental para adultos. O flúor presente de forma constante na cavidade bucal previne a formação de cáries ao mesmo tempo que promove a regressão das cáries que estão começando a se formar.

    Gente! Deixem as bactérias em paz! Os problemas 6 e 7 (além de serem o mesmo) precisam sim da nossa atenção, porém todavia contudo AND entretanto, nem toda bactéria merece a morte!

    Por último e não menos importante, consideremos o item 10. Escovar os dentes resolve o mau hálito? Depende da origem da halitose. E se o problema for mais complexo do que falta de escovar os dentes? Aí você continua escovando os dentes direitinho e procura essa moça aqui. 😀

    –> ORAL B PRO-SAÚDE:

    Alega trazer 7 benefícios para a nossa cavidade bucal:

    1. Combate a cárie
    2. Combate a placa bacteriana
    3. Previne a gengivite
    4. Proteção contra a hipersensibilidade dentinária
    5. Combate o tártaro
    6. Branqueia os dentes inibindo o acúmulo de tártaro
    7. Refresca o hálito

    Vamos lá. Benefício 1, ok. Os itens 2, 3 e 5 pra mim poderiam ser um só, já que a gengivite é uma reação inflamatória gengival ao acúmulo de placa bacteriana e, o tártaro, como já expliquei, é a placa bacteriana que virou pedra (e que, depois de formado, não é removido apenas escovando os dentes, só com intervenção profissional). Portanto, esses benefícios são o mesmo. O número 4… tá, vai. O benefício 6 me deixou confusa: o que é que branquear os dentes tem a ver com a inibição do acúmulo de tártaro? Além de que, essa propriedade que alguns cremes dentais reinvindicam é extremamente discutível…

    Número 7: vale o mesmo que para o problema 10 da Colgate Total 12. Além disso, água gelada também é capaz de refrescar o hálito… 😛

    Ontem fui ao mercado e, com o post já pronto para ser publicado, fui dar uma olhadinha nas embalagens de creme dental. Imagine a minha surpresa ao perceber que os 12 problemas que a Colgate Total 12 combatia “de repente” viraram 12 benefícios (adivinha de onde saiu isso?) que ela proporciona… 5 a mais que a Oral B Pro-Saúde. Qualquer semelhança terá sido mera… estratégia de marketing. Em tempo: não existe creme dental que proteja seus dentes por 12 horas. Ponto final.

    12 prob… benefícios?

    Então, isto posto, concluímos que essas marcas enganam o consumidor? Não. Elas resolvem os problemas e oferecem os benefícios a que se propõem. Mas, sem dúvida, “enfeitam demais o pavão”. Tudo o que você que quer manter a saúde em dia precisa saber é o seguinte:

    1. Compre uma escova de dentes macia e de cabeça pequena, que atinja os lugares mais “ermos”. Pode ser a mais barata delas, daquelas “3 pelo preço de 2”. No dia em que a primeira cerda entortar, jogue a dita-cuja no lixo. Quanto mais barata é a escova, menos pena a gente tem de jogar fora.
    2. Aprenda a escovar os dentes e a usar fio dental. Peça orientação para o seu dentista, é o trabalho dele. Não precisa ter vergonha.
    3. A pasta de dentes que você usa precisa ter apenas 2 características básicas: possuir entre 1000 e 1500 ppm (partes por milhão) de flúor (leia a embalagem, o mais comum é 1100 e 1400 ppm) e ser gostosa :P. Acredite: as super partículas de limpeza profunda power fresh, os microcristais de polimento active clean  e o pó de pirlimpimpim que os cremes dentais prometem conter provavelmente não servem pra muita coisa na prática. Mas vendem pasta de dentes pra caramba. 😀

    Taí a única lista que você tem que saber decor: “As 3 verdades sobre higiene bucal do Blog Medo de Dentista“.  9 entre 10 dentistas recomendam. O décimo não estava prestando atenção. 😀


  • Paciente ou Cliente?

    Paciente ou Cliente?

    Os dois, ué! Tem dentista que acha uma ofensa pensar em seu paciente como cliente. Chamá-lo assim, então, é o mesmo que ofender a mãe (dele, claro.). O termo “cliente” nada mais é do que a ratificação de que existe uma relação comercial entre dentista e paciente. E há algum problema nisso? Há quem pense que sim.

    Pacientes em linha de produção

    Li certa vez num fórum o comentário de um colega que dizia mais ou menos isso: “Tem gente que trata o paciente como se fosse cliente…”. Perceberam a carga ofensiva que ele procurou dar ao termo? Eu entendi assim: “Tem gente que engana o paciente pra tirar dinheiro dele”. Acho oportuno, então, definir, antes de qualquer coisa, o que NÃO É um cliente. E definitivamente, cliente não é aquele cara que você engana pra ficar rico.

    Além de dentista, OdontoDiva, designer, mãe, blogueira e sedentária :P, eu sou especialista em Marketing. Enferrujada, já que nunca trabalhei especificamente na área. Mas alguns conceitos são como andar de bicicleta: a gente nunca esquece e às vezes cai. Uma boa definição de cliente é: um ser humano com necessidades e desejos. E o Marketing se ocupa exatamente disso: de satisfazer as necessidades e os desejos do cliente, e não de “criar” necessidades nas pessoas fazendo com que elas comprem o que não querem, como muitos erradamente pensam. É um processo de troca e satisfação mútua. Todo mundo fica feliz. 😀

    Trazendo esses conceitos para o consultório odontológico, pergunte-se: o que você pode fazer pelo seu paciente que você ainda não está fazendo? E essa é uma pergunta ampla. Não se restrinja a um ou mais procedimentos odontológicos, eles fazem parte apenas da sua obrigação. A questão é o que você vai oferecer A MAIS.

    Aí é que entra o conceito de valor, que é definido pela diferença entre a percepção que o cliente tem do seu serviço e as vantagens de contratá-lo. Resumindo, VALOR = o que seu serviço vale — o que seu serviço custa. Quanto maior o valor, mais dinheirinho no seu bolso. E sem enganar ninguém, porque a percepção é do seu paciente, lembra?!

    Sabe aquele super-hiper-mega-especialista que cobra uma nota preta? Isso é valor. O trabalho do cara vale cada centavo. Tratar-se com ele é certeza de sucesso e cabeça tranquila. Ele não usa uma resina mais cara que a sua, ou um adesivo diferente, mas os honorários dele fazem os seus parecem “baratos”. Porém, nem todos somos especialistas renomados… nem precisamos ser. O seu diferencial pode ser outro. O mais importante é conhecer o seu paciente: quem ele é, do que ele precisa, do que ele gosta, quanto ele ganha, o que ele quer. Só estabelecendo um perfil será possível satisfazer suas necessidades.

    Exemplo prático e que custa pouco: mandar um cartão de aniversário para os nossos pacientes. Muitos de nós até já fazemos isso. Mas mais efetivo que isso, e possivelmente mais barato, é ligar pra ele. Não a secretária… você. E nada de e-mail ou mensagem gravada. Ninguém se sente “especial” através desses meios. “Oi Dona Maria, hoje é seu aniversário! Então, meus parabéns!”.  E não vá querer marcar consulta na mesma ligação, hein?! 😀

    Por fim, gostaria de tocar de novo no assunto Compras Coletivas na Odontologia. O grande erro dessa estratégia é tratar o serviço prestado pelo profissional de Odontologia dentro de um conceito de produção, e não de marketing. Ou seja, o importante seria baixar o custo e ganhar pela quantidade de atendimentos prestados. Quanto mais pacientes atendidos, o custo por paciente cai, e tudo fica cada vez mais barato (se houver demanda). O problema é que a Odontologia não cabe nesse conceito. Nós não trabalhamos com repasse de custos nem somos operários em linhas de produção. Nós oferecemos serviços especializados e personalizados. Segundo Kotler, o conceito de marketing diz que “a empresa ganha vantagem contra o concorrente quando compreende os desejos e necessidades de um público-alvo bem definido e usa essa compreensão para oferecer uma satisfação superior a esses clientes” (Kotler, Philip. Princípios de Marketing). E aí… você se encaixa em que conceito? 🙂

    Enfim, estou convicta de que chamar meu paciente de cliente não é ofensa. E acho até um belo elogio, se ele for tratado de acordo com o que o termo significa em sua essência, sem achismos, sem espertezas. Valorizar o paciente é valorizar a Odontologia, pois ele olhará pra você com outros olhos. Os olhos de um ser humano grato por ter sido tratado como… ser humano.

    Leia também:

    Chovendo no Molhado: Começando a Desenvolver Uma Visão Empresarial —> excelente artigo do Leo Augusto no Ortoblog!