Não. Você não leu errado, nem eu coloquei acento onde não devia…
Certa vez atendi uma paciente que chegou no consultório reclamando de dor de dente. Quando isso acontece, nós dentistas costumamos fazer um monte de perguntas pra tentar entender como é essa dor. Ela é constante ou vai e volta? É em um dente específico ou numa região maior que não dá pra definir? Dói com alimentos quentes? Dói com água gelada? Fiz todas essas perguntas.

A paciente me respondeu de acordo com o que sentia. Não me pareceu haver nada de errado com o dente que ela me apontava, um molar superior. Fiz mais um teste, o de vitalidade pulpar, que consiste em encostar um algodãozinho gelado no dente e pedir para o paciente dizer o que sente enquanto xinga sua mãe mentalmente. Nesse caso, se o paciente diz “não sinto nada”, ironicamente, é pior: canal. O dente “morreu”.
Mas o dente dela respondia da forma esperada. Radiografei. A radiografia também demonstrava estar tudo dentro dos padrões de normalidade. Aí, quando eu já havia jogado a tolha, ela me diz: “Doutora, se eu não corresse a chuva me pegava… e eu chegava aqui toda ensopada! E quanto mais rápido eu corria, mais o meu dente doía!’.
A-há! Dente não dói quando a gente corre. E foi aí que eu me toquei: sinusite. 🙂
Sinusite, etimologicamente, quer dizer sinus (espaço ou cavidade) + ite (inflamação): a inflamação de uma cavidade. E as cavidades em questão são espaços que existem dentro dos ossos da face (que são ocos), também chamados de “seios”, os seios paranasais. O normal é que o líquido (muco) que está dentro dessas cavidades escoe para as fossas nasais. Quando isso não acontece a contento, eis a sinusite.

Quem já teve sinusite sabe que quando a gente se movimenta bruscamente (como numa corrida) ou abaixa muito a cabeça, parece que tem um gongo retumbando dentro do nosso cérebro. É um peso, uma pressão, uma sensação horrorosa. E as raízes dos nossos dentes superiores ficam bem embaixo dessas cavidades que eu citei. Portanto, não é nada incomum o paciente achar que os sintomas de uma sinusite têm origem dentária.
Bem resumidamente, são 4 os tipos de sinusite:
- Sinusite infecciosa: obstrução nasal, secreção purulenta (pus) e febre.
- Sinusite alérgica: obstrução nasal, coriza clara e abundante e espirros constantes.
- Sinusite traumática: causada por diferença de pressão. Não há, necessariamente, obstrução nasal. É aquela dor que aparece num mergulho mais profundo ou numa viagem de avião.
- Sinusite crônica: a drenagem do muco é comprometida de forma permanente, e a mucosa fica espessa e fibrosa.
O tratamento consiste em drenar (tirar) o ranho muco que fica retido nos espaços ósseos. A administração de medicamentos depende da origem da sinusite, passando por antibióticos, anti-alérgicos e anti-inflamatórios. Tudo isso, é claro, com prescrição do seu médico ou dentista. Nunca se auto-medique! Até porque é enorme a chance de você tomar o remédio errado…
Agora você já sabe que correr não DÁ dor de dente. E que também não adianta ficar correndo DA dor de dente… e muito menos do dentista, seja por medo, falta de tempo ou falta de dinheiro (as explicações mais comuns). Porque, fazendo isso, um dia a dor te alcança. E aí não adianta reclamar que a anestesia “não pega”…
