Vez ou outra recebemos em nossos consultórios uma ligação assim. E aproveitando o gancho das aventuras oftalmológicas do Dr. Fabrício, acho oportuno tocar no assunto: prezado colega, você cobra consulta?

Se você não é dentista, talvez ache essa pergunta um tanto estranha. “Como assim consulta de graça? Onde? Eu quero!”. Então… a consulta da qual eu estou falando é o tal do “orçamento”, termo que faz sentido quando fazemos a revisão periódica dos nossos veículos, mas que definitivamente não combina com o consultório odontológico. “Ah, então não é consulta, é orçamento! Orçamento tem que ser de graça mesmo!”. Concordo plenamente. A questão é: o que nós dentistas fazemos na primeira visita do paciente aos nossos consultórios se resume a um orçamento? Eu estou convencida que não. Explico.
Há quem ache que nós somos formados em Matemática, e não em Odontologia: nós vamos somar o número de dentes cariados, multiplicar pelo custo da resina usada na restauração, diminuir o valor encontrado pra dar um “descontinho”, dividir o pagamento em 15 vezes e… voilà, eis a sua conta. Não é assim tão simples… um plano de tratamento personalizado é algo que está muito além da “olhadinha”.
Uma avaliação odontológica tem várias etapas. Alguns casos são simples mesmo, o paciente tem uma pequena cárie e precisa de uma “limpeza”; a restauração custa X, a limpeza custa Y, o que dá um valor Z em honorários. Mas, na maioria das vezes, a formulação de um plano de tratamento não é assim tão “direto ao ponto”. Muitos pacientes precisam de várias intervenções: periodontais, restauradoras, protéticas… precisam de implantes. Tudo isso tem uma ordem determinada e um tempo apropriado pra acontecer, e não dá pra se basear apenas no olhômetro do dentista. Exames de imagem são fundamentais em muitos e muitos casos.
O mais importante e o menos considerado pelo paciente que escolhe dentista pelo valor do “orçamento”: o profissional precisa, munido de todos os dados do exame clínico e dos exames de imagem, PENSAR. Usar o que aprendeu em anos de estudo para determinar as saídas possíveis para o seu caso e, não menos importante, fazer a solução encontrada caber no seu bolso. Afinal, quem paga os nossos honorários é o paciente. Isso tudo demanda tempo, e na Odontologia tempo é dinheiro. Nosso tempo, tanto quanto nosso conhecimento, tem um custo.
Conhecem a história do mecânico que consertou um navio? É mais ou menos assim…
O navio não saía do lugar. Na casa de máquinas reinava o silêncio. O capitão chamou vários técnicos e funcionários da manutenção, mas nenhum resolveu o problema. Por sorte havia um mecânico a bordo. O capitão, ao saber disso, mandou chamar o rapaz e pediu a ele que desse uma “olhadinha” na casa de máquinas. Ele foi até lá e, sob os olhares dos demais, passou cerca de meia hora apenas observando o maquinário. Quando todos já estavam irritados com a demora e descrentes de que aquele rapaz pudesse dar conta do serviço, ele pediu:
“Por favor, alguém poderia me arranjar um martelo?”
Com o martelo em mãos, ele foi até uma determinada parte do equipamento e TUM! Eis que os motores ligaram, e o navio já podia seguir viagem. O capitão ficou muito grato e disse ao mecânico:
“Meu rapaz, muito obrigado! Quanto lhe devo?”
Ao que ele respondeu: “São R$ 20.000,00, senhor.”.
O capitão quase caiu duro… “Isso é muito caro por uma martelada!”
Foi quando o mecânico lhe entregou o orçamento: Martelada: R$ 10,00. Saber onde dar a martelada: R$ 19.990,00.
Conhecimento é tudo. 🙂
Voltemos à questão principal: cobrar ou não cobrar. Li ontem o comentário de alguém num blog eugenólico que dizia que a consulta odontológica deveria ser cobrada de forma obrigatória, ou seja, que deveria ser lei. Fiquei pensando a respeito e concluí que… JÁ É LEI! Vejam só o que diz o Código de Ética Odontológica:
“Constitui infração ética oferecer serviços gratuitos a
quem possa remunerá-los adequadamente”.
O que isso quer dizer? Quer dizer que o dentista não pode, salvo em caso de paciente carente, deixar de cobrar por um procedimento (muito menos dá-lo como brinde). Então: convenci você de que planejar um tratamento personalizado é um procedimento odontológico (o mais importante deles!), mesmo que nenhum dentinho seu tenha sido tocado? Se não, esqueça tudo isso aí em cima! Vem cá que eu dou uma “olhadinha” pra você… 😀
E você dentista, o que acha? Deve-se cobrar consulta sempre? Há casos em que não se deve cobrar? A cobrança deveria ser algo obrigatório e fiscalizado pelos CROs? Ou cada um sabe da sua própria vida? Opine! 🙂
Veja o que outros blogs pensam a respeito:
Netdentista: Consulta grátis? Não, obrigado.
Maldito Bruxismo: Cobrar Consulta?
OdontoDivas: Avaliação Clínica: Cobrar ou Não?
Saudálito: Cobrar Consulta? Sim, Senhor.
Vida de Dentista: Vamos no dentista??? É de graça mesmo…
Doctor Victor: Consulta Grátis – Não Pooode!
DicasOdonto: O Orçamento Grátis
Ortodontiaparatodos: Como Cobrar? Visão de Um Profissional Que Um Dia Não Podia Cobrar!
Ricardo Dentista: Consulta Grátis: Como Isso Funciona?
Sorriso CASOall: Quanto Vale?!
OdontoBLOGia: O dia em que me dei mal por não cobrar avaliação inicial


