Tag: bruxismo

  • Lesões dentais não-cariosas: abfração, abrasão, atrição e erosão

    Lesões dentais não-cariosas: abfração, abrasão, atrição e erosão

    A cárie é caracterizada pela desmineralização do dente, o que leva à perda de tecido dentário. Mas nem sempre a perda de tecido dentário se dá por causa de uma cárie. Além das fraturas, existem outras formas disso acontecer.

    Apenas pra ilustrar, pois você, leitor, não tem obrigação nenhuma de saber que dente tem tecido: não só tem como são três (fora a polpa, que é o “nervo” do dente): esmalte (a camada mais externa, brilhante e translúcida), dentina (que fica por baixo do esmalte e do cemento, é sensível e é ela que é “branqueada” quando se faz clareamento dental) e cemento (que reveste a dentina da raiz).

    Tecidos dentários
    Tecidos dentários

    Isso entendido, vamos falar das outras causas de perda tecidual dentária:

    Abfração

    É a perda de estrutura dental associada ao estresse oclusal. A força da mastigação pode levar ao rompimento de certas ligações químicas dos cristais de esmalte, levando à perda de tecido na parte da frente (vestibular) e na cervical (pertinho da gengiva) dos dentes. Pode acontecer de haver alguma perda de tecido sob a gengiva, também.

    Abfração
    Abfração

    Abrasão

    É o desgaste da estrutura dental devido a um processo mecânico anormal, uma parafunção. Escovação com muita força e com pastas de dente abrasivas, uso de palitos pra limpar entre os dentes (em tempo: “palito de dente” não existe!), morder lápis, tampa de caneta, etc.. Ou seja, há um agente físico externo causando o desgaste.

    A aparência da abrasão é de um desgaste na superfície exposta da raiz de um dente com recessão gengival. Assim como a abfração, a abrasão acomete a região cervical dos dentes.

    Abrasão
    Abrasão

    Atrição

    O desgaste dos dentes é um processo fisiológico, ou seja, pode ser considerando normal com o passar da idade. O problema é quando o grau de perda tecidual cria problemas funcionais, estéticos ou sensibilidade dentinária. A atrição é o processo de desgaste das superfícies incisais / oclusais dos dentes, comum em quem tem o hábito de rangê-los. É o tipo de perda de tecido dentário mais fácil de identificar.

    Atrição
    Atrição

    Erosão

    É o desgaste químico dos dentes, sem envolvimento bacteriano. É comum em quem tem o hábito de beber muito refrigerante e/ou sucos cítricos, assim como em quem sofre de bulimia, por exemplo, por causa dos vômitos recorrentes. Há algum tempo começaram a surgir pastas de dente para prevenir a erosão dental, mas como esse não é um problema assim tão comum, a “moda” acabou passando e muitos desses produtos deixaram de ser comercializados.

    Erosao ácida
    Erosão

    * * *

    O tratamento de todos esses tipos de perda de tecido dentário é restaurador e, quando há sensibilidade dentinária, no sentido de diminuir essa sensibilidade (com a aplicação de dessensibilizantes, bochechos com flúor e, até, com tratamento de canal).

    Está em dúvida sobre que tipo de desgaste dentário você tem? Procure um dentista pra avaliar e tratar de acordo. 🙂


  • Toxina Botulínica e Ácido Hialurônico: por que o dentista aplica Botox?

    Toxina Botulínica e Ácido Hialurônico: por que o dentista aplica Botox?

    Você certamente já ouviu falar da toxina botulínica e do ácido hialurônico. O primeiro é mais conhecido como Botox®, e é muito usado para amenizar rugas e linhas de expressão. O segundo é uma substância produzida fisiologicamente em nosso organismo, um líquido viscoso altamente solúvel em água que confere sustentação, hidratação e elasticidade à pele. Produzido de forma sintética, o ácido hialurônico está presente em diversos cremes e loções antirrugas, e é usado no preenchimento facial.

    Considerando essas breves definições, já deu pra entender pra que um dermatologista usa a toxina botulínica e o ácido hialurônico. Mas e o dentista? Para o cirurgião-dentista, a toxina botulínica é um recurso terapêutico que a Odontologia dispõe para solucionar uma série de problemas (além do estético).

    Como age o Botox®?

    A toxina botulínica age paralisando um músculo em hiperfunção de forma que ele volte a funcionar normalmente. Ou seja: o músculo, por algum motivo, está trabalhando demais, e a injeção de Botox® no lugar certo “enfraquece” esse músculo, fazendo com que ele trabalhe somente o necessário. Tudo muito bonito… mas tenha em mente: a toxina botulínica é uma toxina que age como um bloqueador neuromuscular, portanto ela interrompe a comunicação entre o músculo e o nervo, interferindo diretamente na função do músculo. Ela, literalmente, lesiona tecidos. Por isso sua aplicação tem que ser na dose certa e no lugar certo, por médico ou dentista que conheça profundamente a anatomia da região tratada e as consequências da aplicação dessa substância.

    Partindo desse conceito, a aplicação de toxina botulínica é útil na Odontologia nos seguintes casos, que analiso em separado.

    Dentista aplicando botox
    Dentista aplicando botox

    O Botox® pode ser usado pra tratar o quê?

    Bruxismo:

    O bruxismo é o hábito de ranger os dentes, seja durante o sono ou em vigília (acordado). A aplicação de toxina botulínica em determinados músculos da face pode ajudar aquelas pessoas que rangem e/ou apertam os dentes, diminuindo a força dos músculos envolvidos nesse hábito. Como resultado, as dores musculares diminuem e os desgastes dentários são estabilizados.

    DTM e Dor Orofacial:

    Há controvérsias sobre o uso da toxina botulínica para o tratamento de Disfunções Temporomadibulares, por uma razão simples: essa substância não trata DTM, apenas alivia os sintomas do paciente que tem DTM do tipo miofascial. Considerando a lesão tecidual inerente à aplicação da toxina botulínica, e que as lesões recorrentes levam a uma alteração muscular cumulativa, os músculos mastigatórios podem chegar a um estado de hipofunção (função abaixo do normal) permanente. Além disso, o alívio dos sintomas é passageiro, e a tendência é que a dor retorne e os músculos respondam cada vez menos à aplicação da toxina. Em resumo: ajuda, mas não resolve; não resolve e ainda causa outros problemas.

    Leia também: Reportagem sobre o uso da toxina botulínica na DTM

    Sorriso Gengival:

    Algumas pessoas têm o sorriso “alto”, ou seja, quando sorriem mostram gengiva demais, e o ideal é que apareça só um pouquinho de gengiva. As causas do sorriso gengival podem ser várias, e vão desde o mau posicionamento da base óssea até à hiperfunção do músculo levantador do lábio superior. Esta é a situação que pode ser tratada com a aplicação de Botox®, desde que a distância do lábio até a gengiva não exceda 3 mm (além disso, o tratamento costuma ser cirúrgico). Uma pequena aplicação nesse músculo deve impedir que ele suba, diminuindo o sorriso gengival do paciente.

    Enxaqueca:

    E cirurgião-dentista especialista em DTM e Dor Orofacial pode usar a toxina botulínica no tratamento de cefaleias (dores de cabeça) e da migrânea crônica, mais conhecida como enxaqueca. A toxina botulínica nesse caso não visa a diminuição da função muscular mas a atuação direta em neurônios sensitivos aferentes que estão disfuncionados, liberando na periferia neuropeptídeos inflamatórios como Substância P, CGRP, etc.. Com isso, há uma redução na sensibilização periférica, o que contribui para reverter o quadro de sensibilização central.

    E dentista pode aplicar Botox® com fins estéticos?

    Pode. Há quem insista que não, mas a legislação a respeito é clara: cirurgiões-dentistas podem, sim, atuar na harmonização da face, algo que na prática sempre fizemos, mas que atualmente tem estado em evidência e chamado a atenção de críticos e admiradores. Ora, quase tudo na Odontologia tem fim – também – estético! Basta que o dentista esteja capacitado na técnica através de cursos reconhecidos pelo CFO (Conselho Federal de Odontologia).

    Falando especificamente da legislação: segundo a lei 5081/66, que regulamenta o exercício da Odontologia no Brasil, compete ao cirurgião-dentista “prescrever e aplicar especialidades farmacêuticas de uso interno e externo, indicadas em Odontologia”. Além disso, em setembro/2016 o plenário do CFO aprovou por unanimidade a regulamentação do uso da substância toxina botulínica e do ácido hialurônico por cirurgiões-dentistas, para fins terapêuticos funcionais e/ou estéticos, desde que não se extrapole a área anatômica de atuação do profissional da Odontologia. O uso estético dessas substâncias deve ter como finalidade a harmonização facial em sua amplitude (leia-se: além da boca).

    Pra deixar claro: á área anatômica de atuação do cirurgião-dentista vai do osso hioide à inserção do cabelo (vista frontal) e de tragus a tragus (vista lateral). Em resumo: a face toda. Não, a gente não entende só de dentes. 🙂

    Leia também: Novas áreas de atuação do cirurgião dentista e novas responsabilidades no DicasOdonto 


  • Bruxismo: O Hábito de Ranger os Dentes

    Bruxismo: O Hábito de Ranger os Dentes

    BruxismoChama-se genericamente de bruxismo o hábito de ranger ou apertar os dentes, principalmente durante o sono. Esse costume não é tão “inocente” quanto parece e pode trazer um monte de problemas pra quem o possui.

    Sintomas

    Os principais sintomas do bruxismo são: dor muscular (principalmente na lateral da mandíbula e da cabeça), dor de cabeça, desgaste dos dentes e, muitas vezes, até o amolecimento deles. Pode haver dor na articulação da mandíbula, também. A força excessiva que o hábito do bruxismo impõe aos dentes pode levar, em casos mais severos, à necrose do nervo de alguns dentes, exigindo o tratamento de canal. Outras consequências são o deslocamento de restaurações e o aparecimento de abfrações (perdas de tecido dentário próximas à gengiva).

    Outros sintomas do bruxismo são: dor e zumbido no ouvido, dor no pescoço, estalos ao abrir e fechar a boca, hipersensibilidade dentinária e alterações na rotina do sono. O bruxismo também pode ocorrer em vigília, ou seja, com a pessoa acordada.

    Causas

    À luz dos mais recentes estudos científicos, a ocorrência do bruxismo pode estar ligada a fatores genéticos, uso de drogas que interfiram no comportamento neuromuscular, doenças neurológicas (ou imaturidade neurológica, no caso das crianças) e à obstrução das vias aéreas superiores (dificuldade de respirar normalmente pelo nariz). O fator psicológico / emocional e o estresse parecem ter íntima relação com a ocorrência do bruxismo.

    Diagnóstico

    Se você possui vários dos sinais / sintomas citados acima, já pode ficar desconfiado de que tem bruxismo. Se você dorme com outra pessoa no mesmo quarto, possivelmente o seu hábito já foi notado, por isso é uma boa ideia perguntar a essa pessoa se ela já notou que você range os dentes. Mas para um diagnóstico preciso, é essencial procurar um dentista pra avaliar, e quanto antes melhor: muitas vezes o problema só é percebido quando já há dor, desgaste dos dentes, etc..

    Dentes com desgaste por causa do bruxismo
    Dentes com desgaste por causa do bruxismo

    Controle

    Não costuma se falar em cura para o bruxismo, pois a cura depende, também, da remoção da sua causa (e nem sempre essa causa – ou causas – é muito clara). Medicamentos ansiolíticos / antidepressivos podem ajudar no controle do estresse e da ansiedade (sempre com prescrição do médico ou do dentista, é claro).

    Mas mesmo que não haja uma cura propriamente dita, é possível controlar os efeitos do bruxismo. O recurso mais usado atualmente são as placas miorrelaxantes rígidas, que ajudam tanto a direcionar os movimentos dos músculos mastigatórios quanto a reduzir o atrito e o desgaste dos dentes (além de outras possíveis consequências). Mas ATENÇÃO: placas do tipo “protetor bucal”, de “silicone”, flexíveis, que são encontradas no comércio e são adaptáveis após aquecidas, não são apropriadas para o controle do bruxismo! Pelo contrário, elas podem até piorar o problema, além de serem perfuradas muito facilmente. Portanto, procure um dentista e, se houver indicação de uso, ele providenciará uma placa rígida personalizada pra você.

    Atualmente tem-se usado a aplicação da toxina botulínica em certos músculos mastigatórios como controle alternativo para o bruxismo. A toxina atua nesses músculos diminuindo o seu tônus (força), o que promove o relaxamento deles e acaba diminuindo a força que o hábito do bruxismo exerce sobre os dentes.

    Como evitar / prevenir?

    O melhor conselho é: desencoste os dentes. Quando o bruxismo é noturno, o controle é mais difícil… mas se é em vigília, a própria pessoa pode se “policiar” e interromper o ranger de dentes, que geralmente ocorre quando se está concentrado numa tarefa ou em meio a uma situação estressante. Mascar chicletes, morder objetos duros e roer as unhas rotineiramente são costumes que podem até piorar o bruxismo.

    Assista ao vídeo a seguir, ele faz um resumo sobre as causas, consequências e controle do bruxismo:

    E criança, pode ter bruxismo? Pode. Você lê mais sobre isso no Blog do Tio Dentista. 🙂

    Vale a pena conferir, também, a entrevista da Dra.Juliana Stuginski Barbosa do blog Por Dentro da Dor Orofacial sobre o tema:

    Dica de aplicativo pra iPhone e Android que lembra você de não ranger os dentes: Desencoste Seus Dentes

    Desencoste Seus Dentes